Na edição anterior do Jornal da Arquidiocese, consideramos uma tese fundamental da carta de São Paulo aos Romanos: a salvação é dada a todos através da fé em Jesus Cristo (Rm 1,16-17). “Todos” são destinatários da salvação, porque “todos pecaram e estão privados da glória de Deus” (3,23). O intento de São Paulo é que ninguém diga: “eu não preciso de Cristo, eu não preciso do Salvador”. Para o apóstolo, existe em todo ser humano uma condição fundamental de pecado, que para ser superada, necessita da redenção de Cristo pela sua morte e ressurreição.

Para ilustrar isso, São Paulo emprega a imagem de Adão, o primeiro humano, como o pai e protótipo de todo ser humano (5,12-21). E porque nosso progenitor foi desobediente a Deus, imergiu todos os seus “filhos”, isto é, toda a humanidade nessa mesma condição de pecado. “Pela desobediência de um só homem, todos se tornaram pecadores” (5,19). Não só o ser humano, até mesmo a criação está submetida “à servidão da corrupção” (8,20), e aguarda ansiosamente a revelação dos filhos de Deus (8,19). Esses são fundamentos bíblicos para o conceito de “pecado original”, isto é, a situação de pecado em que todo o ser humano nasce, após o “pecado contaminador” de Adão. A prática católica de batizar crianças, mesmo sem “pecado pessoal”, alicerça-se nessa concepção.

Importante dizer, para não cair em um pessimismo radical do ser humano, que antes do pecado original existia a “santidade original”. Deus criou boas todas as coisas e a pessoa humana (Gn 1,31). O mistério das trevas está envolto no mistério de luz, pois o pecado humano será superado pela “obediência de Cristo”, o “novo Adão”, que na “árvore no meio do jardim” (Gn 3,3) do Calvário, a cruz, conquistou para nós a eterna comunhão com Deus. “Onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5,20). “Ó feliz culpa, que mereceu tal e tão grande Redentor” (canto pascal do Exultet). O mistério do mal, para São Paulo, serve especialmente para proclamar a “regeneração” conquistada em Cristo.

Por Pe. Gilson Meurer

Publicado na edição de Outubro/2018, nº 250, do Jornal da Arquidiocese, página 08.

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