Um grande acontecimento neste tempo de pandemia foi o lançamento da Encíclica Fratelli Tutti do Papa Francisco. A grande inspiração foi São Francisco, que desejava abraçar a todos.  Queria construir um mundo onde todos vivessem como irmãos. Sem entrar propriamente no conteúdo da encíclica, quero reunir alguns fatos que ilustram o espírito da encíclica.

Foi bem significativo que o Papa Francisco tenha assinado a Encíclica junto ao túmulo de São Francisco, na véspera da festa do Santo (03/10/20). O Papa, que evita apresentar simplesmente reflexões abstratas, deseja contribuir para que haja passos concretos na construção do diálogo e da paz. Quer continuar os passos de São Francisco.

Um passo bem expressivo na vida de São Francisco foi a visita que fez ao Sultão Malik al-Kamil no Egito, em 1219. As pessoas mais próximas se opuseram. E não era para menos. Na época das Cruzadas em que os cristãos e muçulmanos se tratavam como inimigos, era muito perigoso. Foi um gesto verdadeiramente profético. Percebia que este conflito traria muita instabilidade para todo o mundo. Aparentemente não mudou nada nestes 800 anos. Mas o Papa está convencido de que o nosso é o tempo de cumprir esta profecia. “É hora de dar este passo”, tempo de aprender a dialogar e conviver com quem pensa diferente de nós.

Um acontecimento decisivo na mensagem da Encíclica foi o encontro do Papa com o Imã Ahmad al-Tayyeb em Abu Dhabi. Ali, no dia 4 de fevereiro de 2019, assinaram um documento conjunto sobre a “Fraternidade humana em prol da Paz Mundial e da Convivência Comum”. Uma frase: Deus “criou todos os seres humanos iguais nos direitos, nos deveres e na dignidade, e os chamou a conviver entre si como irmãos”.

Um fato curioso é a citação de um verso de Vinícius de Moraes. Está no capítulo VI que trata do diálogo e amizade social. “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro na vida” (215). Ao apresentar a Encíclica o Papa assim se expressa: É uma humilde contribuição para reflexão, a fim de que, perante as várias formas atuais de eliminar ou ignorar os outros, sejamos capazes de reagir com um novo sonho de fraternidade e amizade social que não se limite a palavras” (6).

Artigo publicado na edição de novembro de 2020 do Jornal da Arquidiocese, página 2.

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