No mundo atual há uma resistência ao silêncio. A civilização moderna não sabe parar. Quando transforma seu sonho em realidade encerra o silêncio em um calabouço úmido e escuro. Vive-se uma ditadura da palavra, da ênfase verbal. Repetidamente, manifesta uma ferida purulenta de palavras mecânicas, irrelevantes, sem verdade e fundamento. São criações midiáticas reforçadas por imagens e testemunhos forjados.

O barulho da civilização atual faz fenecer a Palavra de Deus, torna-a inaudível e inacessível. Da aurora ao anoitecer o silêncio não tem direito de se manifestar. Os ruídos querem impedir que Deus fale. No meio deste barulho infernal, o ser humano se desintegra e se perde, fragmentado em múltiplas inquietações.

Para sair deste túnel anseia desesperadamente pelo barulho, mas o ruído é um ansiolítico viciante.
Bernanos escrevia “O silêncio interior – aquele abençoado por Deus – nunca me isolou das criaturas. Parece que elas chegam e eu as recebo na soleira da minha casa” (Diário de um Pároco de Aldeia). Já J. Passam em “O silêncio como introdução à metafísica” afirmava que “o silêncio é, em nós, a linguagem sem palavras do ser infinito; o silêncio, por seu próprio peso, solicita e orienta nosso movimento rumo ao ser infinito”. E continua “Se a palavra caracteriza o ser humano, é o silêncio que o define, porque a palavra só tem sentido em função deste silêncio”.

A comunicação no seio da Trindade é em silêncio. Somos chamados a participar desta comunicação silenciosa. A comunicação de Deus com o ser humano é em silêncio, sem palavras. Imitar a Cristo é antes de tudo imitar o seu silêncio. A comunicação é intensa na manjedoura, na cruz, no túmulo. São silêncios de pobreza, de humildade, de abnegação, de mortificação. É o mistério de sua kenosis, de seu despojamento. No Calvário, o silêncio é pungente, torna-se a única palavra. O discípulo está no mundo, mas não é deste mundo. Pilatos se sente pressionado pelo grito da multidão e pelo silêncio de Jesus.

Jesus costumava passar noites em oração. Mantinha-se por longo tempo em diálogo com o Pai. É certo que o seu falar, a palavra que pronunciava, tinha origem na sua permanência no silêncio. Assim, também a sua palavra só pode ser compreendida, de modo justo, quando se entra no seu silêncio. Só se aprende a escutá-la a partir da experiência do silêncio.

Por Dom Wilson Tadeu Jönck, SCJ

Artigo publicado na edição 290, de junho de 2022, do Jornal da Arquidiocese, página 2.

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