O documento 105 da CNBB, ao falar do mundo globalizado em que vivem os cristãos leigos, adverte: “Vivendo neste mundo, o cristão que não tem a consciência de ser sujeito corre o risco da alienação, da acomodação e da indiferença” (n. 71). No afã dos afazeres cotidianos, nem sempre paramos para estudar o mundo que nos cerca. É preciso debruçar-se sobre as características deste mundo, a fim de poder atuar nele com ousadia e criatividade até chegar a transformá-lo para que seja sinal do Reino definitivo.

A LÓGICA INDIVIDUALISTA

A característica básica do mundo atual é sua lógica individualista. O que guia nossas ações, conforme o que nos é proposto pelo mercado, é a busca de satisfação individual. Isso produz indiferença pelo outro, preocupação com a aparência, apego às realidades passageiras. Ao transformar os desejos em necessidades, o mercado consegue levar as pessoas a tornarem-se consumidoras de tudo quanto é coisa: sexo, religião, bens materiais, objetos supérfluos. Esse consumismo “se torna um modo de vida, tende a ser assimilado como algo normal e bom, penetra as ações, os valores humanos e as vivências religiosas” (n. 74).

CONTRADIÇÕES

Marcado em seu íntimo pelo pecado original do egoísmo e do imediatismo, esse mundo globalizado é afetado por inúmeras contradições. Invenções tecnológicas, produção de bens e avanços científicos não conseguem vencer a fome, o desemprego, a violência, a corrupção. A confiança extrema no mercado livre, como se ele fosse a saída para as mazelas sociais, se desfaz diante das constantes crises econômico-financeiras, das quais só se salvam as grandes corporações. O bem-estar de minorias se faz por meio da corrupção e do tráfico, da degradação ecológica e da exclusão das maiorias, que não têm acesso a condições favoráveis de saúde e educação, emprego e segurança.

FALSA INCLUSÃO

“Neste mundo globalizado, a sociedade se organiza a partir de um aspecto global que inclui as diferenças econômicas, sociais, políticas, culturais e religiosas, acentuando o indivíduo” (n. 77). Há, sim, preocupação com a inclusão. Mas ela é guiada por interesses econômicos. Pessoas são incluídas no mercado, para poderem ser consumidoras e, assim, favorecerem ainda mais o poder do deus-dinheiro. Trata-se de uma falsa inclusão, que não leva à satisfação dos bens realmente fundamentais à existência.

Por Pe. Vitor Galdino Feller

Publicado na edição de maio/2018, nº 245, do Jornal da Arquidiocese, página 05.

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