Frei Ivani Pinheiro Ribeiro, OCarm, 52 anos, foi diagnosticado com a Covid-19 em 8 de fevereiro de 2021. Ficou quase 30 dias no hospital, sendo vários deles na UTI. Desde o dia 18 de março ele já se encontra na Ilha de Santa Catarina, onde segue se recuperando por alguns meses até assumir sua função de pároco da Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem, no Saco dos Limões, em Florianópolis, e de formador do Postulantado.

Jornal da Arquidiocese: Quais foram os sentimentos presentes no início do diagnóstico?
Frei Ivani: A ficha caiu quando o médico disse que eu seria internado. Esse foi um momento de muita solidão, como dizendo ‘eu estou indo’. Foi um momento de entrega.

Jornal da Arquidiocese: Quais foram os momentos mais difíceis?
Para mim, a UTI foi uma experiência muito traumática, pois sempre parecia que eu estava em um pesadelo. Sair da UTI foi um passo significativo pois parece que ela roubava a minha privacidade, negava o meu ser como pessoa. Então eu vim para o quarto. Nele, eu estava complemente dependente. Eu dependia de tudo dos meus confrades que ali estavam. A melhora chegou quando eu comecei a andar. No domingo [dia 7 de março] parecia que eu estava aprendendo a dar os primeiros passos. Foi um ato de renascimento e crescimento.

Jornal da Arquidiocese: Como foi sentir a fé do povo que rezava pelo senhor?
Eu tenho consciência, sim, que muita gente estava rezando por mim. Eu lembro que alguém dizia assim: ‘Frei, você está evangelizando com sua doença.’ Então, a minha doença fez com que as pessoas pudessem se aproximar de Deus e Deus também pudesse se aproximar das pessoas.

Jornal da Arquidiocese: Qual é a importância da fé em um momento desses?
Nós sabemos que tudo está nas mãos de Deus. Tudo é do Pai. É o Pai que vai nos conduzindo. Para mim, a fé trouxe essa serenidade e uma aceitação do sofrimento. Ele me ensinou a ser mais humano, a saber que eu dependo também do outro. Eu não sou onipotente, eu não sou o único. Alguém precisa cuidar de mim.

Jornal da Arquidiocese: Qual o valor da comunidade de fé e da fraternidade dos irmãos da Ordem nesse momento?
Quando eu fui retomando a consciência, percebi o quanto eu era amado, o quanto eu era cuidado. Recebi do Conselho de Pastoral Paroquial (CPP) da Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem, por exemplo, mensagens de apoio. Vejo, agora, o carinho das pessoas que se aproximam e dizem: ‘Nossa! Que bom que o senhor veio’, ou ‘Vendo você, chego a me arrepiar’.
Quanto à Ordem do Carmo, desde quando eu saí da UTI, frei Flávio [comissário geral], frei Edimar e frei Rech revezaram para permanecer o tempo todo comigo. Até hoje estou sob os cuidados de frei Alexandre e frei Edimar. Eu sou cuidado pelos confrades. Isso faz uma diferença, porque eu não estou sozinho.

Jornal da Arquidiocese: O que diria para aquelas famílias atingidas pela Covid-19?
Tenha paciência! Tudo tem seu horário, seu momento. Acompanhemos a ciência e deixemos que ela nos fale. Para os familiares, seja presença e compreenda aqueles que estão passando pela doença. Às vezes, a gente quer andar ou fazer algo, mas não consegue. Eu quero trazer uma mensagem de esperança. Deus nos conduz. Vamos deixar que Deus vai conduzindo.

Jornal da Arquidiocese: Como viver a Ressurreição nesse tempo de tantas pessoas infectadas e mortes?
Quem diria que Jesus, depois de tudo o que passou e de ser colocado num túmulo e fechado com uma pedra, ressuscitaria? Quem diria que o túmulo estaria vazio? É acreditar naquilo que é impossível. Nesse tempo de pandemia, é como se tivesse um túnel fechado. Mas é preciso ver com um olhar da fé, da esperança. Existe uma luta pela vida. É ir atrás da vacina, do cuidado comigo e com os outros. Veja os tantos gestos de solidariedade. Esse é tempo de descobrir o sinal do ressuscitado. A pedra pode estar no túmulo. Mas o túmulo está vazio. O ressuscitado está no nosso meio.

Entrevista concedida ao
Frei Edimar Fernando Moreira, O.Carm. – Prior Conventual

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