Um dos objetivos da Quaresma é recolocar-nos no caminho de Jesus, assumir a cruz de cada dia e segui-lo até a morte, para poder experimentar com Ele a glória da ressurreição. Este ano a cruz colocada em nossas costas é de proporções enormes e assustadoras. Uma cruz que mete medo: a crise da saúde pública, por causa do novo Coronavírus. Uma crise a ser assumida e carregada em conjunto, em comunhão de fé e amor. 

A cruz da quarentena

Nunca tivemos que viver tanto tempo sozinhos, isolados em nossas casas ou apartamentos. Angústia e medo, chateação e náusea! Mas essa crise é uma graça que a história nos concede para sairmos da Quaresma mais enriquecidos em nossa humanidade. É um tempo bom para recolhimento e interiorização, tempo de jejum de nossas preocupações, para cultivo da serenidade, tempo de buscar o encontro com o Senhor. A quarentena é um tempo bom para aprender a saber perder o que não é essencial, o que é entulho, atrapalho, empecilho na nossa vida de fé.

Uma nova Quaresma

Nossa geração tem uma bela história pra contar. Nunca havíamos tido a graça de uma Quaresma tão rica de novas atitudes, de abertura de nossas mentes para questões sérias: o que a história quer nos ensinar? Como estão a viver essa crise os mais pobres? Como posso sair do meu isolamento existencial para engajar-me em gestos de solidariedade? Talvez a grande pergunta a se fazer será: é preciso gastar tanto tempo com o deus-dinheiro, na correria de gastos, no desperdício de comida, no excesso de trabalho, em vez de mais tempo para a família e o próximo? Uma boa hora para se perguntar: a que deus estamos adorando? A Deus ou ao dinheiro? 

 A luz da Páscoa

Não sabemos quanto tempo vai durar essa crise. Tudo indica que vai ser longa, pesada, com sérias consequências para o sistema da saúde pública, para o emprego, para a economia das pessoas e do país. Mas nós, cristãos, temos uma certeza: depois da morte vem a luz da ressurreição, depois da Quaresma vem a Páscoa! Será uma Páscoa diferente, sem as emocionantes celebrações da ceia pascal, do lava-pés, da adoração da cruz, das encenações da paixão, da vigília pascal, da renovação das promessas batismais. Será uma Páscoa em tom menor, mas não triste. Pois, como nos ensinou o papa Francisco, na memorável celebração de clamor diante do Crucificado: “Tu estás conosco, Senhor, durante a tempestade!”.

Artigo publicado na edição de abril de 2020 do Jornal da Arquidiocese, página 5.

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