Nas duas últimas edições do Jornal da Arquidiocese, procuramos conhecer melhor a primeira carta de S. Paulo aos Coríntios. Essa nasceu da necessidade que Paulo, de Éfeso, pelos idos de 54, sentiu de corrigir problemas internos daquela comunidade cristã, tanto no que tange os costumes, quanto no âmbito da sua organização.

Os efeitos dessa “primeira carta” não foram alvissareiros. Ao contrário, Paulo passou a ser taxado de dominador da fé (2Cor 1,24) e seu ministério descreditado, sendo acusado de leviano, ambíguo (1,17), fraco e ambicioso (10,1-17) por alguns adversários. Por isso, ele decidiu ir pessoalmente a Corinto, pensando em recompor a situação de viva voz. Mas também essa visita pareceu não ter logrado bom êxito, pois, após sua saída, a comunidade continuava dando ouvidos a esses adversários. Sua vontade inicial era retornar para uma terceira visita (2,1; 12,14; 13,1), no entanto, ele enviou Tito com uma “carta severa”, escrita “com muitas lágrimas” (2,4), mas que produziu efeito salutar (7,8-13). Tito e a carta, afortunadamente, conseguiram levar a comunidade de Corinto ao arrependimento, à reconsideração e à penitência, reconciliando a comunidade com seu pai-fundador. O coração de Paulo, ao reencontrar Tito e receber essa notícia, encheu-se de alegria (7,5-16).

Ele decidiu escrever, então, essa “segunda carta”, enquanto estava na Macedônia (2,13; 8,1; 9,2.4), pelo final de 54 e inícios de 55. Ela é repleta de chamas de caridade (1,12; 7,16), mas também de fortes ameaças e censuras (c. 10). Com efeito, essa é a mais vibrante, eloquente e apaixonada das cartas de S. Paulo. Nela encontramos o carinho paternal daquele que busca a reconciliação, a assistência do pastor que conquista e fortalece os dóceis e os aflitos, e a força do combatente que desfaz a arrogância de seus opositores com aguda ironia e sólidos argumentos (cf. Pe. Guilherme Bellinato, “Paulo. Cartas e Mensagens”, Loyola: S. Paulo 1979, p. 83). S. Paulo, de fato, não escreve tratados teológicos genéricos, mas responde a problemas concretos da comunidade. Contudo, pela riqueza que são, suas cartas tornaram-se oportunas a toda a Igreja. Na próxima edição, analisamos a estrutura e o conteúdo da carta.

Por Pe. Gilson Meurer
Artigo publicado na edição de fevereiro de 2018 do Jornal da Arquidiocese, página 08

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