Na encíclica “Magnifica Humanitas” o Papa Leão XIV apresenta duas imagens bíblicas para apresentar um itinerário de vida cristã no mundo marcado pelo domínio da tecnologia. Usa a imagem da Torre de Babel para descrever os descaminhos gerados pela prepotência em vista das conquistas da Inteligência Artificial e da tecnologia em geral. É neste mundo que somos convidados a pregar o Evangelho de Cristo. Para falar deste itinerário usa a imagem da reconstrução de Jerusalém apresentada no livro de Neemias. É um caminho sóbrio e exigente com o qual podemos viver esta mudança de época. Diz textualmente:
“Em um mundo marcado por tantas estratégias que visam conquistar mercados e espaços de influência revestidos de construções ideológicas sedutoras, o nosso coração sente necessidade de descobrir um desígnio diferente, semelhante ao que Maria contempla no Magnificat, quando proclama que, de geração em geração, a misericórdia de Deus se estende sobre aqueles que o temem. Esse desígnio de misericórdia permeia a história também hoje, em meio a mudanças rápidas e inquietantes marcados por algoritmos e redes globais, e torna-se a bússola para uma existência evangélica na era digital.”(230)
O Papa mostra que no centro está o Mistério da Encarnação. O Verbo se fez carne e veio habitar entre nós. Nesta carne ferida e amada o Pai mostra-nos a verdadeira humanidade. Hoje vivemos em meio a algumas promessas de correntes de pensamento que aspiram uma humanidade aperfeiçoada, quase desencarnada, que pode despertar em nós o desejo de uma vida menos exposta à fragilidade e ao sofrimento. A Encarnação aponta para um caminho diferente. Enquanto ideologias antigas e novas impelem o homem a superar tecnicamente os limites, e elevar-se acima dos outros para afirmar um domínio, o Deus que se fez homem aponta um caminho oposto.
O Deus vivo desce à história dos homens para liberta-los de toda escravidão. Toma sobre si as fraquezas e as transforma em lugar de salvação. Não há circunstância ou condição humana que não seja digna de Deus. O futuro da humanidade encontra assim o seu critério: a capacidade de acolher esta forma divina de se aproximar e partilhar o peso do mundo, de transformar as relações a partir de dentro. O que salva o homem é o Amor divino que desce ao ponto mais vulnerável da sua história e o regenera profundamente.
O Papa deseja transmitir a espiritualidade do “Sábio Arquiteto”, que animado pela esperança do Reino de Deus, se dedica a construir o mundo do bem. (cf 1 Cor 3,10). Nossa construção deve ter como fundamento a relação com Deus; como regra, a aceitação dos limites humanos como algo natural e positivo; como estilo, a corresponsabilidade e a linguagem evangélica. No final do percurso, o projeto de uma civilização do Amor se delineará mais claramente. E a construção acontecerá com a participação de muitas pedras vivas unidas a Cristo, pedra angular. (cf. 236)
Nesta obra, diz o Papa, somos chamados a assumir um papel ativo, sem refugiar-se no espiritualismo ou nos nossos pequenos mundos. Devemos ser fiéis à verdade, investir na educação, cuidar das relações, amar a justiça e a paz. Como Neemias, “somos chamados a ser, na era da transformação digital, não resignados espectadores das fraturas sociais e culturais, nem meros analistas de ruínas, mas mulheres e homens que entram nos estaleiros da história….” (241).
Dom Wilson Tadeu Jönck, SCJ
