O Papa Leão XIV, logo no início do seu pontificado, lançou uma exortação apostólica “Dilexit te” sobre a realidade dos pobres. Faz lembrar que os pobres não são uma mera categoria sociológica. O Evangelho diz que os pobres, sempre os teremos entre nós (cf. Mt 26,8). Fazem parte da natureza da Igreja. A questão dos pobres pertence à essência da fé. Diz ainda o Evangelho: “Toda vez que fizestes isto a um destes pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25, 40).
Não podemos tratar o pobre desejando que ele não exista. O Papa lembra que devemos lutar para erradicar as causas sociais e estruturais da pobreza, mas é preciso aprender a ocupar-se com o pobre. Há muitas decisões econômicas que foram eficazes para o progresso, mas não o foram para o desenvolvimento humano integral. Fizeram aumentar a riqueza, mas não a equidade e a dignidade.
É verdade que os pobres são sustentados por aqueles que têm meios econômicos mais fartos. Mas é da tradição da Igreja, afirma o Papa, a certeza de que são os pobres que nos evangelizam. Os pobres colocam o ser humano diante das suas fraquezas. Cita o exemplo do idoso, que “com a fragilidade do seu corpo, nos faz lembrar da nossa vulnerabilidade, ainda que tentemos esconder atrás do bem-estar ou das aparências” (109). Mostram a precariedade e o vazio de uma vida aparentemente segura e protegida.
Não se pode falar da doutrina da Encarnação de uma forma genérica. Para entrar neste mistério é preciso especificar que Jesus se fez homem: que tem fome e sede, que está doente e na prisão. É assumindo a condição de escravo que Cristo entra na história da humanidade. Veio para libertar da escravidão, dos medos, do pecado e do poder da morte. É na condição de pobre que Jesus realizou a salvação. Viveu uma pobreza fundada na sua missão de revelar a verdadeira face do amor divino (cf. 2Cor 8,9). Ele assume ser excluído da sociedade, a mesma condição dos pobres.
Não se pode esquecer que Jesus nasceu em uma manjedoura, não nas ricas estalagens de Belém. O resgate do gênero humano acontece pelo sacrifício da cruz. Todas as tentativas de resolver a questão dos pobres pelo poder e pela riqueza fracassaram. Só fazem aumentar o número de pobres. A “exortação apostólica” do Papa afirma que a maior discriminação que sofrem os pobres é a falta de cuidado espiritual. E critica um certo preconceito, mesmo por parte dos cristãos, que se sentem mais à vontade sem os pobres (114). Ainda dois pensamentos: “a caridade não é uma via opcional, mas critério do verdadeiro culto” (São João Crisóstomo). Santo Ambrósio, por sua vez, afirma: “não é de tua propriedade aquilo que dás ao pobre; é dele”.
