Os evangelhos apresentam o jejum, ao lado da oração e da esmola, como os pilares da vida do cristão. Definem nosso relacionamento com os outros, com Deus e com as coisas. Neles vivemos nossa verdade de filhos. A Igreja, por sua vez, os apresenta como práticas a serem intensificadas na quaresma.
São Leão Magno deixou-nos vários sermões sobre o espírito da quaresma. Vamos tomar alguns dos seus pensamentos sobre o jejum. Diz que o povo hebreu se sentia oprimido pelos seus pecados e pela ameaça que representavam os vizinhos filisteus. E concluiu que o desprezo pelos mandamentos de Deus e seus costumes tinha provocado duras derrotas. Os judeus compreenderam que combateriam inutilmente os inimigos somente com o poder de suas armas. Era preciso abandonar os seus vícios. Desta forma, impuseram a si mesmos a prática da penitência, abstendo-se de alimento e de bebida.
Para vencer os inimigos, deviam vencer primeiro a si próprios. São Leão Magno lembra que podemos vencer nossos combates e adversidades com o mesmo remédio dos hebreus, o jejum. Os nossos adversários corporais e espirituais serão enfraquecidos e vencidos pela nossa conversão espiritual. A quaresma é tempo privilegiado para a prática das virtudes. Os desejos da carne se opõem aos do espírito. Nesta luta, se os desejos do corpo forem mais fortes, o espírito perderá a dignidade que lhe é própria. Será escravo, ele que foi criado para guiar. Só haverá paz verdadeira quando o corpo estiver submetido ao espírito, guiado por Deus.
Quaresma é tempo de serviço mais intenso ao Senhor. “Não existe nenhuma obra de virtude sem a experiência da tentação, nenhum ato de fé sem a provação, nenhum combate sem o inimigo, nenhuma vitória sem o compromisso” (Primeiro sermão da quaresma). Afirma ainda: “nossa vida é colocada no meio das dificuldades e dos combates.” Se quisermos ser vencedores, é preciso combater”. “Se quiseres entrar no serviço do Senhor, prepara a alma para a tentação” (Eclo 2,1).
A quaresma é tempo de entrar na arena para a luta. “Nosso combate é contra os principados, contra as autoridades, contra os dominadores deste mundo de trevas” (Ef 6,12). Quando nos levantamos, os inimigos afundam, quando reencontramos nossas forças, eles adoecem. Nossos adversários são feridos com a cura das nossas feridas. Portanto, “cingi vossos rins com a verdade, vesti a couraça da justiça, calçai vossos pés com o Evangelho da paz, empunhai o escudo da fé… tomai a espada do Espírito que é a Palavra de Deus” (Ef 6, 14–17).
Desta forma, combatemos através do jejum. Não podemos nos contentar só com a abstenção de alimento. Serviria para modificar apenas o homem exterior. É preciso restaurar o homem espiritual. Que não permaneça nenhuma sombra de discórdia, sejam dissipadas as trevas da mentira, nenhum mal se instale no nosso coração. Que o orgulho se abrande, a raiva diminua, ponha-se um freio à maldade da língua. Cessam as vinganças e as injúrias. Todo fruto que não foi plantado por Deus, nosso Pai, seja arrancado (Mt 15,19). “Eis o tempo favorável, eis o dia da salvação” (2Cor 6,2).
