por Pe. Mário José Raimondi
Queridos irmãos e irmãs,
Reverendíssimos sacerdotes, diáconos, religiosas e religiosos, seminaristas;
Excelentíssimas autoridades civis e militares; Prefeito: Topázio Neto;
Venerável Irmandade do Senhor dos Passos, na pessoa de seu provedor, sr. Gustavo Fabiano Vieira Costa;
Saudação fraterna às irmandades visitantes;
Saudação a todos que nos acompanham através da rádio Divino Oleiro;
E, de modo especial, a cada um de vocês, fiéis devotos do Senhor dos Passos e de Nossa Senhora das Dores.
Diante de nós está o Encontro de Maria com Jesus a caminho do Calvário. Coberto de sangue, Jesus é obrigado a carregar a pesada cruz até o lugar de sua crucificação. No caminho, Ele encontra sua Mãe, que sofre profundamente ao vê-lo naquele estado, sem poder aliviar sua dor. É um olhar silencioso e cheio de sofrimento entre Mãe e Filho. Mesmo dilacerada por dentro, Maria permanece firme, enquanto Jesus continua seu caminho de entrega por amor.
Queridos irmãos e irmãs, hoje nos reunimos como povo peregrino para celebrar uma história que não pertence apenas ao passado, mas permanece viva no coração da nossa fé. Há 260 anos, a Procissão do Senhor dos Passos e de Nossa Senhora das Dores, renova, entre nós, a certeza de que Deus caminha com o seu povo.
As ruas por onde passamos tornam-se, por algumas horas, um grande livro vivo da fé e da história do nosso povo. Por elas caminham pecadores e devotos, mães e pais, jovens e idosos, trabalhadores e famílias inteiras. Caminham aqueles que vieram agradecer pelas graças recebidas e também aqueles que vieram chorar suas dores e depositar suas súplicas aos pés do Senhor dos Passos. É uma fé que atravessa gerações, sustentada por rostos conhecidos e também por tantos anônimos que deixaram suas pegadas espirituais nesta história.
Com gratidão, recordamos a missão da Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos, fundada em 1765, que uniu culto e caridade, dando origem ao Imperial Hospital de Caridade. Ali a fé se traduz em cuidado concreto e o Senhor dos Passos continua a caminhar silenciosamente com os que sofrem.
Caminhar com Cristo sofredor é decidir colocar os próprios passos nos passos do Senhor, reconhecendo que a cruz não é o fim, mas caminho de redenção.
E caminhar com Nossa Senhora das Dores é aprender a permanecer de pé, mesmo quando o coração está ferido. Assim, a procissão torna-se uma verdadeira escola de fé: atravessamos a dor sustentados pela esperança.
Se Maria continua chorando hoje, por quem ela chora? Chora por cada vida ferida, esquecida e silenciada. Chora por um mundo que, muitas vezes, se acostuma com a dor.
Entre essas dores que ferem o coração da humanidade, recordamos, com tristeza, o caso da religiosa Ir. Nádia Gasaaski, da congregação das Irmãs Servas de Maria Imaculada de Ivaí – Paraná, que dedicou mais de 55 anos de sua vida à fé e ao serviço generoso. Foi violentada e morta após um homem invadir o convento, em um ato que fere profundamente a nossa consciência.
Recordamos também o caso de Luciani Aparecida Freitas, 47 anos, corretora de imóveis, gaúcha, moradora dos Ingleses, que desapareceu e foi encontrada morta em Major Gercino, no dia 11 de março.
E, como elas, tantas outras pessoas continuam sendo vítimas da violência. Tantas outras histórias permanecem no silêncio, um silêncio inquietante, que revela algo grave: estamos nos acostumando com a violência.
Diante do Senhor dos Passos, que carrega a cruz da humanidade, e sob o olhar doloroso de Nossa Senhora das Dores, somos convidados a refletir: que valor que estamos dando a vida? Há ainda tantas outras realidades que parecem cair no silêncio: o drama do aborto; o feminicídio; crianças vítimas da violência urbana; os homicídios; os estupros de crianças e adolescentes; pessoas em situação de rua, que sofrem com o frio e a fome; além de doentes que aguardam por cirurgias e tratamentos enquanto o tempo passa. Muitas dessas dores, quase não recebem atenção ou mobilização. Por quê? Que valor estamos dando a vida humana? Por que tanta violência?
Ao contemplarmos a Procissão do Senhor dos Passos e de Nossa Senhora das Dores, percebemos que ela hoje reúne um povo diverso, marcado por histórias, culturas e origens diferentes, mas profundamente unido pela mesma fé. Uma reflexão marcante da escritora Lídia Jorge, presente no discurso que proferiu em 10 de junho de 2025, nas celebrações do Dia de Portugal, recorda-nos que “ninguém caminha com um ‘sangue puro’, pois todos somos fruto de encontros, misturas e histórias que se entrelaçam ao longo do tempo.”
Somos um povo formado por diferentes raízes: pelo nativo e pelo migrante, pelo europeu e pelo africano, pelo indígena que primeiro habitou esta terra, pelos açorianos que aqui chegaram trazendo sua fé, pelos negros que ofereceram sua força e resistência, e por tantos povos que atravessaram mares e fronteiras.
O Papa Francisco nos recordava que “a verdadeira fraternidade nasce quando reconhecemos que ninguém se salva sozinho, mas que todos caminhamos juntos, naquilo que ele chama de ‘cultura do encontro’”.
À luz da fé, somos irmãos porque fomos gerados pelo mesmo amor e redimidos pelo mesmo sangue de Cristo. O sangue derramado no caminho do Calvário não divide, mas une; não cria privilégios, mas revela que todos somos filhos de Deus.
Na Mensagem para o XXXIV Dia Mundial do Doente, em 11 de fevereiro deste ano, o Papa Leão XIV recordou que “o amor não é passivo, mas vai ao encontro do outro; ser próximo não depende da proximidade física ou social, mas da decisão de amar, e a verdadeira compaixão nasce do encontro com Cristo que se entrega por nós.” Essas palavras encontram eco profundo na Procissão do Senhor dos Passos e de Nossa Senhora das Dores, pois, ao contemplarmos Jesus carregando a cruz e Maria acompanhando o sofrimento do Filho, somos convidados a amar carregando a dor do outro.
A Igreja, à luz de Nossa Senhora das Dores, apresenta-se como mãe que sustenta, acolhe e conduz. Mesmo quando somos frágeis, ela permanece de pé, como Maria aos pés da cruz, oferecendo abrigo e esperança.
E essa presença materna da Igreja tem rosto, tem nomes, tem organização, tem missão. Ela se expressa concretamente em 76 paróquias da nossa Arquidiocese, reunidas em 13 foranias, sustentadas por santuários, reitoria e capelanias, inclusive militares. Ela se espalha em 636 comunidades – de Brusque e Itajaí até Garopaba -, onde o Evangelho é anunciado, a fé é celebrada e a esperança permanece acesa, muitas vezes em meio a grandes desafios.
Mas essa caminhada não se faz sozinha. A Igreja caminha sustentada pelo serviço generoso de 2 bispos, 204 padres diocesanos e religiosos, 169 diáconos permanentes e 430 religiosas(os)… homens e mulheres que, à semelhança de Maria aos pés da cruz, permanecem firmes, mesmo quando dói.
Cada um deles carrega um pouco do peso da cruz do povo: consola, escuta, orienta, celebra, anima e não abandona. É a Igreja que continua seguindo os passos de Cristo, mesmo quando o caminho é difícil e marcado pelo sofrimento. São mãos que abençoam, joelhos que se dobram em oração silenciosa e corações que intercedem, mesmo quando ninguém vê.
Nos hospitais, nas comunidades mais distantes, nas escolas e centros de formação, nas periferias urbanas, nos morros, nas missões, nos abrigos, nas prisões, nos asilos, junto aos migrantes, nas paróquias e nas celebrações, esses homens e mulheres tornam visível a presença misericordiosa de Deus. Muitas vezes, enfrentam o cansaço, a incompreensão e os próprios limites humanos.
E hoje, o Senhor dos Passos dirige também um chamado aos jovens. Jovens, não tenham medo de escutar a voz de Deus. Talvez, Deus esteja dizendo ao seu coração: Vem, segue-me, ajuda-me a aliviar o sofrimento do meu povo. Eu conto contigo.
A Igreja precisa de novas mãos para segurar o andor, de novos corações dispostos a servir, de jovens que tenham a coragem de entrar no seminário e discernir o chamado ao sacerdócio. E a você, jovem menina, que caminha com fé e disponibilidade, talvez o Senhor esteja chamando para a vida religiosa, para ser sinal de amor, cuidado e esperança no mundo, consagrando sua vida a Deus e aos irmãos.
O mundo precisa de padres e de mulheres consagradas que sejam presença de Cristo nas feridas humanas. Não tenha medo, jovem, de dar o primeiro passo. E nós, como comunidade, rezemos pelas vocações.
E, assim como o Senhor dos Passos não caminhou apenas para sofrer, mas para salvar, a Igreja continua transformando a dor em cuidado, e a cruz em serviço. Por isso, sua presença se manifesta de modo concreto na caridade e na ação social: são 53 ações sociais paroquiais, 8 pastorais sociais e 42 entidades ligadas à Igreja, que estendem a mão aos pobres, aos doentes, aos idosos, às famílias feridas e aos que perderam a esperança. Ali, a compaixão de Nossa Senhora das Dores torna-se gesto concreto, e o amor crucificado de Cristo se faz pão, remédio, acolhida e dignidade para todos.
Dessa rede de amor, que brota da cruz do Senhor dos Passos fazem parte diversas obras sociais da nossa Arquidiocese de Florianópolis: casas que acolhem crianças e adolescentes, hospitais que cuidam dos enfermos, comunidades terapêuticas que ajudam na reconstrução de vidas, lares que acolhem idosos, casas de apoio para pessoas em situação de rua e migrantes, além de projetos educacionais e cozinhas comunitárias que semeiam esperança no meio do nosso povo. Ao lado dessas obras de misericórdia caminham também as forças vivas da Igreja, como numa grande procissão em que muitos sustentam o mesmo andor: pastorais, movimentos, associações, novas comunidades e escolas que mantêm viva a missão de anunciar o Evangelho e cuidar da vida.
E a vocês, queridos irmãos e irmãs, que nunca abandonam os passos do Senhor, a nossa gratidão sincera: obrigado por cada gesto de amor, por cada serviço silencioso e por cada passo dado em favor da vida da Igreja. Obrigado por tudo o que vocês fazem pela Igreja e por Jesus Cristo.
Irmãos e irmãs, a Igreja precisa de nós. Somos chamados a apoiar e valorizar aqueles que já estão na linha de frente, servindo nos projetos sociais, nas pastorais da Igreja, nos hospitais e em tantas iniciativas que devolvem dignidade à vida humana. Em vez de críticas que desanimam, ofereçamos mãos que ajudam, palavras que constroem e uma presença que fortalece. Temos muitas obras bonitas acontecendo no silêncio, mas elas só continuam vivas quando existe um povo disposto a caminhar junto. A mudança não nasce do discurso, mas do compromisso assumido quando alguém, diante de Deus, tem a coragem de dizer: “eu vou fazer”, “eu vou colaborar”, “eu vou assumir”. Isso é fé vivida, isso é compromisso.
Ao sairmos daqui, que essa caminhada continue nas nossas escolhas. Amanhã, procuremos nossas paróquias, aproximemo-nos de nossos párocos e busquemos os espaços onde a caridade e a missão da Igreja já florescem. Quantos trabalhos bonitos que a Igreja realiza. Seja voluntário. Ajude.
Neste contexto, a Campanha da Fraternidade nos convida a olhar para uma realidade urgente: a falta de moradia digna.
No Brasil, milhões de famílias vivem sem casa ou em condições precárias, e milhares sobrevivem nas ruas, privadas do mínimo necessário para viver com dignidade. Mais do que números, são vidas que clamam por fraternidade, moradia, justiça e acolhimento. Diante dessa realidade, somos chamados à conversão: conversão pessoal, conversão espiritual, conversão eclesial e pastoral, conversão social e familiar, conversão política e econômica, conversão ecológica. Precisamos de conversão que passe pela atitude. Se não tivermos atitude nada muda.
A moradia digna é um direito humano fundamental, garantido pela Constituição, reconhecido pela ONU e reafirmado pelo magistério da Igreja como exigência para a realização integral da pessoa. No entanto, cresce o número de famílias em situação precária e de pessoas sem teto. A fé nos chama a enfrentar essa realidade, pois, como ensinou São João Paulo II, “a falta de habitação não é apenas um problema isolado, mas o sinal de profundas falhas sociais, econômicas e humanas.”
Por isso, com respeito, é preciso dizer: falta coragem política para enfrentar a raiz da desigualdade. Florianópolis, com toda a sua beleza e desenvolvimento, precisa olhar com mais atenção para as periferias, para quem vive nas encostas e para quem luta diariamente para permanecer na cidade.
A Grande Florianópolis enfrenta um desafio silencioso: encontrar um lugar onde seja possível morar com dignidade. Os preços das moradias aumentam, o custo de vida se eleva e até mesmo trabalhadores que ajudam a construir e sustentar esta cidade encontram dificuldade para permanecer nela. Florianópolis, com toda a sua beleza e desenvolvimento, é chamada a ser mais do que um destino admirado: precisa continuar sendo casa para todos.
Mas essa realidade nos convida à conversão: uma cidade mais justa nasce não apenas das decisões públicas, mas de corações que se deixam tocar pela dor do outro. Não podemos ignorar a dor dos que vivem nas ruas, nem reduzir a fé à emoção, ela exige compromisso concreto.
Moradia digna é mais que um teto: é assegurar saneamento, energia, acesso a serviços públicos e integração social. Sem um lar, não há saúde que resista, educação que floresça ou trabalho que permaneça. A vida em abundância prometida por Cristo é dom e compromisso: Ele veio morar entre nós para que ninguém mais seja invisível e para que cada casa construída seja sinal concreto de justiça, fé e esperança.
Como eu gostaria que, neste momento, corações generosos se deixassem tocar pela dor de tantas famílias sem lar. Talvez Deus esteja, agora mesmo, chamando alguém a transformar aquilo que possui em abrigo. Às vezes, um pequeno gesto é capaz de mudar uma vida. Quem sabe, hoje, alguém se disponha a doar uma casa para quem vive na incerteza do amanhã, um lar onde o Senhor dos Passos e Nossa Senhora das Dores possam entrar, tornando a fé uma verdadeira experiência de partilha.
E, se alguém aqui se sentir verdadeiramente chamado a fazer uma doação como essa, doação de uma casa, venha, aproxime-se, coloque-se ao meu lado. Será um sinal visível e profético de que a fé que professamos não fica apenas nas palavras ou nas procissões, mas se transforma em caridade viva, compromisso concreto e esperança para aqueles que mais necessitam.
Mas talvez muitos estejam pensando neste momento: “Padre, eu não tenho condições de doar uma casa.” E isso é compreensível. Nem todos podem realizar gestos tão grandes ou assumir compromissos dessa dimensão. Mas permitam-me dizer, com carinho e verdade: se nós, que temos um teto, já sentimos que nossas condições são limitadas, imaginemos a realidade daqueles que sequer possuem um lar. Pensemos nas famílias que vivem a insegurança diária de não saber onde dormir, como proteger os filhos da chuva, do frio, da violência, da instabilidade.
Deixo, então, aqui um apelo fraterno e cheio de esperança: no próximo sábado e no Domingo de Ramos, dias 28 e 29 de março, em todas as paróquias e comunidades da nossa Arquidiocese, realizaremos a Coleta da Solidariedade.
Faça a sua oferta. Apresente a sua doação. Contribua com generosidade. Participe deste gesto de amor. Todo valor arrecadado será destinado a projetos sociais que já alcançam tantas vidas, sustentando iniciativas de cuidado, acolhida e promoção humana. Muitas entidades continuam de portas abertas graças à sua partilha fiel e silenciosa.
Que esta oferta seja mais um passo dado com o Senhor dos Passos: um gesto talvez pequeno aos olhos do mundo, mas imenso diante de Deus. Ajude, colabore, envolva-se e permita que a sua generosidade se transforme em casa para quem não tem teto, em esperança para quem desanimou, em dignidade restaurada para quem precisa.
À luz de Nossa Senhora das Dores, recordamos também as mães que sofrem. Mães que não abandonam seus filhos no calvário da vida, mesmo quando as escolhas deles ferem profundamente aquilo que elas sonharam. Ainda assim, continuam rezando, esperando e acreditando.
Quantas vezes uma mãe encontra o filho ferido pelas ruas da vida, perdido nas drogas, no alcoolismo, na pornografia, nas más companhias ou em escolhas que o afastam do bem, caminhos que não nasceram da educação que ela lhe ofereceu, mas das escolhas que ele próprio fez. E, mesmo assim, ela permanece ali, firme, amando, rezando e esperando, como Maria que encontrou Jesus no caminho da cruz e não o deixou sozinho. Há mães que convivem com filhos marcados pela ansiedade, pela depressão, pela agressividade, pela solidão digital e por vícios escondidos; mães que choram em silêncio, perguntando-se onde erraram, carregando culpas que não lhes pertence. Recordamos também as mães que carregam dores profundas dentro de casa: mães que cuidam com amor de filhos com autismo ou fragilidades emocionais, que enfrentam noites difíceis e transformam o cansaço em dedicação; mães que sofrem pelos filhos perdidos para a violência, para as dependências ou para a desesperança, e mães que vivem relações marcadas pela dor e pela agressão, vítimas do feminicídio.
São realidades duras, muitas vezes invisíveis. Por isso, pedimos: Nossa Senhora das Dores, acolhei e fortalecei essas mães feridas, ensinai-nos a olhar para elas com compaixão, reconhecendo, em cada lágrima, um amor que não desiste.
Queridas mães…neste momento, quero falar diretamente ao coração de vocês. Olhem para mim por um instante: Mães, força. Mães, não desanimem. Permaneçam firmes. Quantos filhos deixaram as drogas, o álcool, a violência, se converteram pela oração de vocês. Tenham fé, continuem rezando e acreditando. Seus filhos precisam de vocês. Assim como Nossa Senhora foi ao encontro de Jesus no caminho da cruz, eu vos digo, vão ao encontro dos seus filhos. Eles precisam de vocês.
CANTO: Coração de Mãe
E é desse amor materno, que sofre, reza e nunca desiste, que nasce também o nosso compromisso com os jovens. Muitas das lágrimas das mães têm nome, têm rosto: são os nossos jovens. Ao vê-los nesta procissão, percebemos que também carregam suas cruzes e esperanças. Por isso, como Maria acompanhou Jesus, a Igreja é chamada a caminhar ao lado deles, oferecendo acolhida, escuta e orientação espiritual. É nós, queridos irmãos e irmãs, somos chamados a apoiar, evangelizar e oferecer caminhos, sendo presença segura em meio a um mundo que muitas vezes os confunde e dispersa. Estejamos mais próximos dos nossos jovens.
Muitos jovens hoje se sentem perdidos, sem rumo e sem referências: alguns nas ruas, outros envolvidos em realidades que ferem a própria dignidade, outros ainda presos ao isolamento das telas e das redes sociais; e outros imersos no mundo da inteligência artificial. A inteligência artificial pode informar, mas não pode abraçar; pode organizar palavras, mas não sente lágrimas nem partilha o peso das cruzes humanas; pode responder perguntas, mas não ajoelha em oração; pode analisar dados, mas não conhece o silêncio de quem sofre; pode criar imagens, mas não carrega a dor de uma mãe; pode conectar telas, mas não substitui o calor de uma comunidade reunida na fé.
Por isso, pais e mães, demonstrem diariamente carinho, presença e amor pelos seus filhos, pois o amor vivido em casa é o primeiro anúncio do Evangelho. Pais amem seus filhos. Mães amem seus filhos. Filhos amem seu pais.
Daqui a pouco, as imagens seguirão para a Igreja Menino Deus, como sinal da presença de Deus que vela por seu povo. Que este lugar continue sendo espaço de muitas bênçãos: lugar de batizados que geram vida nova, de casamentos que consagram o amor, de confissões que reconciliam corações, de Eucaristias que alimentam a fé e de sacramentos que fortalecem a caminhada do povo de Deus. Que seja sempre um espaço fecundo de oração, acolhida, missão, caridade, reconciliação e esperança, iluminando as comunidades do Morro do Mocotó, Morro da Queimada, Morro do 25 e tantas outras comunidades vizinhas.
Que as imagens do Senhor dos Passos e de Nossa Senhora das Dores continuem caminhando dentro de nós, inspirando-nos a viver o Evangelho no cotidiano: em nossas famílias, no trabalho, nas decisões e nos gestos simples de cada dia.
E amanhã, ao celebrarmos os 353 anos de Florianópolis, elevemos nossa gratidão a Deus por esta cidade que cresce entre o mar e os morros, entre a memória dos nossos antepassados e os sonhos das novas gerações. Três séculos de história marcados por fé, trabalho, cultura e devoção, em que o Senhor dos Passos continua a caminhar pelas ruas e a escrever, junto com o seu povo, páginas de esperança. Que este aniversário seja um convite à unidade, ao cuidado com a vida, à construção de uma cidade mais justa, fraterna e solidária, onde ninguém se sinta esquecido ou sem moradia.
Que Nossa Senhora das Dores, Mãe que acompanha os passos do seu povo, interceda por Florianópolis, por suas famílias, por seus jovens, por suas mães/pais e por todos aqueles que aqui vivem e trabalham. Que o Senhor dos Passos abençoe esta terra e fortaleça em nós o compromisso de transformar a fé em gestos concretos de amor.
Assim, ao encerrarmos esta procissão, levemos no coração a certeza de que Deus continua caminhando conosco – hoje, amanhã e sempre – conduzindo nossa cidade pelos caminhos da paz, da esperança e da vida nova. Amém.

