
Chegamos ao Mês da Bíblia, e neste mês a Igreja no Brasil percorre o livro de Daniel sob o lema: “Seu reino jamais será destruído” (Dn 7,14). Daniel fala a um povo cercado por impérios que pareciam invencíveis. Contudo, os poderes que dominam, exploram e devoram são passageiros; somente o Reino de Deus permanece. Crer nesse Reino é viver, já agora, segundo a sua lógica. É aqui que compreendemos o sentido bíblico do dízimo.
Na Escritura, o dízimo nunca começa no bolso, mas no reconhecimento. Quando Abraão entrega a Melquisedec “o dízimo de tudo” (Gn 14,18-20), não tenta comprar uma bênção; responde à bênção recebida. O dízimo é uma confissão de fé: Deus é o Senhor da vida, do tempo e de tudo o que somos. Não damos para sermos abençoados; damos porque já fomos alcançados pela bondade de Deus.
A Lei afirmava: “Todo dízimo da terra pertence ao Senhor” (Lv 27,30). Mas a oferta não se destinava somente ao culto. Ela também colocava à mesa o levita, o estrangeiro, o órfão e a viúva (Dt 14,28-29). Aquilo que era consagrado a Deus precisava alcançar os irmãos. Um dízimo que mantém estruturas, mas não toca a dor humana, perdeu parte de sua verdade bíblica.
Jesus declara: “Não vim abolir, mas dar pleno cumprimento” (Mt 5,17). Isso também ilumina o dízimo. Cristo não destrói a oferta, mas a conduz à plenitude. Aos que entregavam a décima parte, mas esqueciam “a justiça, a misericórdia e a fidelidade”, Ele adverte que era necessário praticar estas coisas “sem omitir aquelas” (Mt 23,23). O problema não era oferecer o dízimo, mas imaginar que uma porcentagem pudesse substituir a entrega do coração.
Na Igreja nascente, essa lógica alcança nova profundidade. Os cristãos “tinham tudo em comum” e repartiam segundo a necessidade de cada um (At 2,44-45; 4,32-35). O dízimo deixa de ser vivido como limite matemático e passa a integrar uma espiritualidade de generosidade, pertença e corresponsabilidade. Paulo resume: “Cada um dê conforme decidiu em seu coração, sem pesar nem constrangimento, pois Deus ama quem dá com alegria” (2Cor 9,7).
O dízimo não é taxa, mensalidade religiosa ou pagamento por sacramentos. É sinal de que não pertencemos aos reinos passageiros do egoísmo e da acumulação. Sustentando a evangelização, a liturgia, a caridade e a missão, anunciamos com a própria vida que o Reino de Deus já está entre nós. E esse Reino, tecido pela gratuidade, pela justiça e pela partilha, jamais será destruído.
