O ensinamento da vida cristã cumpre um itinerário ao longo da história. Pode-se identificar um desenvolvimento nas várias épocas. Nos inícios foram aprovados os dogmas a respeito da pessoa de Cristo, sobre a Santíssima Trindade, sobre a Igreja. Em outros tempos o acento caiu sobre o ensinamento moral. A espiritualidade e a vivência das virtudes também tiveram o seu tempo de destaque. Cada época deixou a sua marca que permanece até hoje. A partir do final do século 19, a vida social mereceu sempre mais atenção. Surgiu assim o que se chama de Doutrina Social da Igreja.
Doutrina em sentido cristão não consiste em uma série de teorias ou ideias que faz a crença se enrijecer em um pensamento abstrato, distante da vida. Esta é uma redução a ser evitada. A DSI é uma obra de discernimento que impede a reflexão de se cristalizar em doutrina morta e se tornar um juízo sobre a “carne” do ser humano em ação. Trata-se de palavras e significados que nascem da vida e tem por finalidade servir à vida nova que vem de Deus. Desde o início do cristianismo o discernimento voltado à verdade e o bem não temeu desafiar a mentalidade, as modas e os costumes de cada época, porque Jesus Cristo afirmou ser a verdade e não o costume do tempo.
Tal discernimento é exigido pela própria lógica da Encarnação de Deus. Como Deus se fez carne em determinado tempo e lugar, também a fé deve ser encarnada nos diversos tempos e lugares em que o homem vive, para tornar a medida do viver humano sempre mais à altura da sua dignidade. Elevar o velho homem e a velha natureza para o nascimento do novo céu e da nova terra. Assim a fé torna-se “cultura”, i. é , cultivo daquilo que responde às exigências mais profundas da consciência humana e daquilo que é autenticamente humano.
A imagem bíblica que ajuda a entender este processo é o Evangelho da Transfiguração. Jesus transfigura-se diante dos discípulos. O rosto de Jesus se torna resplandecente e as vestes se tornam brancas como a neve. No seu rosto e vestes transfiguradas Jesus revela o destino da criação que retorna a Deus por meio da transfiguração da sua humanidade. O rosto mostra a identidade da pessoa humana que se desenvolve a partir das profundezas de sua consciência. As vestes apresentam o restante da personalidade, nível físico e psíquico.
A DSI ocupa-se com esta transformação em todos os níveis das realidades criadas. É, ao mesmo tempo, dom de Deus e uma possibilidade oferecida ao homem, e um tarefa para os cristãos. São Paulo escreve “a criação aguarda com ardente expectativa a revelação dos filhos de Deus…”(Rm 8,19-21). A DSI se propõe a mudar o mundo na verdade e no bem por meio do testemunho dos filhos de Deus. A mudança dos sistemas e estruturas exige a mudança prévia da consciência das pessoas, apesar da tentação dos homens de construir “sistemas tão perfeitos que ninguém mais precisa ser bom” (T.Eliot, Coros da Fortaleza).
