
A Campanha da Fraternidade (CF) 2026, promovida pela Igreja Católica no Brasil durante o tempo da Quaresma, traz como tema “Fraternidade e Moradia” e como lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). Inspirada no mistério da Encarnação, a campanha propõe uma profunda reflexão sobre a realidade da moradia no país, reafirmando que ter um lugar digno para viver é um direito humano fundamental e uma expressão concreta da fé cristã.
Ao recordar que Deus escolheu habitar entre nós, a CF 2026 convida a sociedade e as comunidades cristãs a reconhecerem Cristo presente na vida das pessoas mais vulneráveis, especialmente aquelas que vivem sem casa ou em condições indignas de moradia.
O significado do tema e do lema
O tema destaca a moradia como espaço essencial de dignidade, proteção e pertencimento. Já o lema bíblico reforça que Deus não permanece distante do sofrimento humano, mas se faz próximo, assumindo nossa realidade. A campanha chama à conversão pessoal e comunitária, estimulando atitudes de solidariedade e compromisso com a justiça social.
Entre os principais gestos concretos está a Coleta Nacional da Solidariedade, que será realizada no dia 29 de março de 2026, destinando recursos à iniciativas sociais que promovem a vida digna.
O cartaz e o símbolo do Cristo sem-teto
A imagem oficial da campanha foi desenvolvida pela Assessoria de Comunicação da CNBB e traz como destaque a escultura “Cristo sem-teto”, do artista canadense Timothy Schmalz. A obra representa Jesus deitado em um banco, coberto por um cobertor, com o rosto oculto, mas com os pés com as chagas visíveis, revelando sua identidade.
O banco possui um espaço vazio, convidando à proximidade e ao encontro. “É preciso se aproximar para reconhecer o Cristo presente nas periferias e entre os empobrecidos”, explica o assessor do Setor de Campanhas da CNBB, padre Jean Poul Hansen. Ao fundo, a silhueta de uma cidade dividida em cores contrastantes simboliza as desigualdades urbanas, enquanto a igreja ao centro recorda a missão da fé como sinal de esperança e transformação.

A realidade da moradia no Brasil
Segundo dados divulgados pela Fundação João Pinheiro (FJP), tendo como base a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PnadC), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e o Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico), cerca de 6 milhões de famílias necessitam de moradia por viverem em condições precárias, coabitação ou com aluguel excessivamente caro. Outras 26 milhões de famílias enfrentam situações inadequadas, como áreas de risco e ausência de infraestrutura básica. Soma-se a isso o crescimento do número de pessoas em situação de rua, que ultrapassa 300 mil em todo o país.
Moradia Primeiro garante acesso imediato à moradia e promove recomeços
O Moradia Primeiro é um modelo de política habitacional voltado a pessoas em situação de rua, desenvolvido a partir da década de 1990 e já adotado em países como Estados Unidos, Canadá, França, Portugal, Espanha, Dinamarca, Chile e Uruguai. A proposta parte de um princípio simples e eficaz: a principal necessidade de quem vive nas ruas é o acesso imediato a uma moradia estável, condição fundamental para que outros desafios, como saúde, trabalho e vínculos familiares, possam ser enfrentados.

A iniciativa busca garantir moradia de forma imediata, criando oportunidades reais de superação da situação de rua e de inserção no mundo do trabalho. Ter um lar significa poder organizar a alimentação, recuperar-se em momentos de doença, cuidar da família, descansar e se preparar para a rotina diária. Sem esse espaço, as dificuldades se multiplicam.
Na Arquidiocese de Florianópolis, a Pastoral do Povo de Rua abraçou essa proposta juntamente com a Ação Social Arquidiocesana (ASA) e, em 2018, iniciou sua primeira experiência com o Moradia Primeiro, investindo na formação e capacitação de seus agentes em eventos nacionais e internacionais. O projeto foi oficialmente inaugurado em 1º de dezembro de 2025, com a entrega de 13 certificados a pessoas que em breve passarão a viver em uma moradia segura, dando início a um novo capítulo de suas vidas.
Da rua ao cuidado com o próximo: a história de superação de Daniel Paz dos Santos
Daniel Paz dos Santos conhece de perto a dureza da vida nas ruas. Foram dez anos vivendo em situação de rua em Florianópolis, enfrentando o frio, a insegurança e a invisibilidade social. Em 2012, sua trajetória começou a mudar quando foi acolhido na Casa de Acolhimento mantida pelo Instituto Vilson Groh, onde encontrou apoio, escuta e a possibilidade de recomeçar.
Em busca de uma vida mais digna, Daniel passou a integrar o assentamento Amarildo em 2014 e, posteriormente, mudou-se para um assentamento em Águas Mornas. No entanto, os desafios não cessaram com a saída das ruas. Em 2016, sua casa foi incendiada, obrigando-o a recomeçar mais uma vez, agora em São José. Dali, seguiu para Antônio Carlos, onde conseguiu alugar um casarão. Foi nesse espaço que uma nova inspiração nasceu: ajudar outros homens que, assim como ele, desejavam se manter longe dos vícios e reconstruir suas vidas em um lar.
Movido pela própria experiência de dor e superação, Daniel transformou sua história em missão. Em 2017, fundou a Casa dos Amigos, um espaço de acolhida e esperança. Com capacidade para atender até 25 pessoas, a casa é dedicada a acolher homens com mais de 50 anos em situação de vulnerabilidade social.
Mais do que oferecer abrigo e refeições diárias, a Casa dos Amigos promove dignidade e autonomia. Os moradores participam de uma rotina de trabalho, que inclui o cultivo de uma horta e atividades em uma oficina de marcenaria, contribuindo para a sustentabilidade do espaço, que também conta com doações.
Oração da Campanha da Fraternidade 2026:
Deus, nosso Pai, em Jesus, vosso Filho, viestes morar entre nós e nos ensinastes o valor da dignidade humana.
Nós vos agradecemos por todas as pessoas e grupos que, sob o impulso do Espírito Santo, se empenham em prol da moradia digna para todos.
Nós vos suplicamos: dai-nos a graça da conversão, para ajudarmos a construir uma sociedade mais justa e fraterna, com terra, teto e trabalho para todas as pessoas, a fim de, um dia, habitarmos, convosco, a casa do céu. Amém.
