O Tempo do Natal nos convida a voltar-nos ao centro de nossa fé: o mistério de um Deus que se fez homem, igual a nós em tudo, menos no desumano do pecado (Hb 4,15). Desde o momento em que o Filho de Deus assumiu a carne humana, até a morte na cruz, não é possível imaginar a espiritualidade cristã fora do mundo. Na verdade, fora do mundo não há salvação. Os padres da Igreja, primeiros teólogos cristãos, diziam que a carne é o eixo, a dobradiça da salvação. Não há salvação que não passe pela carne, pelo engajamento nas coisas materiais, pela presença e ação no mundo.

 

Desafio à razão e á prática

O mistério da encarnação continua a ser um desafio para nossa razão e, sobretudo, para a nossa prática. É difícil para a razão assimilar a grandiosidade que se revela nessa pequenez: o Senhor de todas as coisas fez-se um bebê, carente e frágil, que escolheu como berço a manjedoura. O infinito quis conter-se na finitude da história. Mais difícil é para a prática cristã tornar-se simples como esse Deus. Ser seguidor de Jesus implica em assumir a espiritualidade encarnada, característica específica da fé cristã. Ser cristão é buscar nas realidades do mundo e da história os sinais da presença e da ação salvadora de Deus.

 

A lógica da carne e da cruz 

O documento 105 da CNBB – Cristãos leigos e leigas na Igreja e na sociedade – nos adverte que “não podemos querer um Cristo sem carne e sem cruz” (Doc. 105, n. 184). Frequentemente o Papa Francisco alerta para a necessidade de ver nos pobres e necessitados a carne de Cristo. Na carta para o início do novo milênio, São João Paulo II convidava a rejeitar a “tentação de uma espiritualidade intimista e individualista, que dificilmente se coaduna com as exigências da caridade, com a lógica da encarnação” (NMI, n. 52).

 

Nem materialista nem espiritualista

Duas grandes tentações acompanham o cristianismo. O espiritualismo, que foge do mundo, do engajamento político-social, do empenho na solução dos conflitos históricos, pretendendo uma fé voltada só para as realidades celestes e divinas, uma fé medrosa diante das grandes questões que afligem as pessoas e a humanidade. O materialismo, que se insere de tal modo na realidade material a ponto de reduzir tudo ao fenômeno físico, à ação humana, às questões sociais, esquecendo da dimensão da graça divina e fechando-se ao mistério.

Por Pe. Vitor Galdino Feller

Publicado na edição de dezembro de 2018, do Jornal da Arquidiocese, página 05.

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