Representantes de igrejas brasileiras e palestinas se encontraram na sede da Comunidade Evangélica de Confissão Luterana, em Brasília, no dia 28 de janeiro. Este encontro, mediado pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC), teve como temas, a possível transferência da Embaixada Brasileira de Israel para Jerusalém, o fortalecimento das relações entre Igrejas do Brasil e da Palestina e a questão das peregrinações à Terra Santa.

Integram a delegação de igrejas palestinas as seguintes autoridades: Rev. Dr. Mitri Raheb, ex-presidente do Sínodo do Evangélico da Igreja Luterana na Jordânia e na Terra Santa; fundador e presidente da Universidade de Artes e Cultura Dar al-Kalima (Belém); membro do Conselho Nacional Palestino e do Conselho Central Palestino; Pe. Ibrahim Faltas, representante Franciscano do Estado da Palestina; Rev. Jack Sara, presidente da Bethlehem Bible College e ex-pastor sênior da Igreja da Aliança de Jerusalém; Pe. Bruno Varriano, sacerdote da Igreja Católica da Anunciação, em Nazaré; Ibrahim Alzeben, embaixador da Palestina no Brasil; Amirah Hannania, diretora do Comitê Superior Presidencial para Assuntos da Igreja; Sr. Emad Elsus, representante da comunidade palestina na América Latina.

Cristãos palestinos são contra a transferência da embaixada brasileira

A segunda-feira (28/01) foi de agenda cheia para as lideranças de igrejas brasileiras e palestinas reunidas em Brasília. Encontro com autoridades, reuniões estratégicas e um momento de bate-papo na Comunidade Luterana da Asa Sul foram algumas das ações. Na pauta, um assunto chamou mais a atenção: a tão anunciada mudança da embaixada brasileira em Israel, que hoje fica em Tel Aviv e, de acordo com o novo governo, pode ser transferida para Jerusalém.

A delegação de cristãos palestinos chegou ao Brasil na quinta-feira (24/01). Desde então, eles têm destacado que a mudança do status de Jerusalém para um só povo traz um imenso risco para a comunidade de cristãos palestinos, que reúne milhares de habitantes em Jerusalém, e que em sua maioria habitam a histórica e milenar Jerusalém Oriental, de maioria árabe palestina.

“Nós viemos principalmente para falar de paz e somos representantes de todas as igrejas de Jerusalém”, disse à Agência de Notícias Brasil-Árabe (ANBA) o Padre Ibrahim Faltas, franciscano de Jerusalém, secretário-geral da organização Custódia da Terra Santa e líder da delegação. “Falaremos também sobre encontrar uma solução para Jerusalém, pois é um problema que já dura 70 anos, entre palestinos e israelenses, e pedimos ao povo brasileiro que ajude neste processo pelo bem de todos os povos do Oriente Médio e de todo o mundo”, destacou Faltas.

O Pastor Jack Sara, que dirige a Faculdade da Bíblia de Belém, afirmou em entrevista à imprensa que um dos objetivos da vinda deles ao Brasil foi informar comunidades evangélicas brasileiras sobre a realidade da Palestina. “Sou evangélico e dirijo um seminário para treinamento de pastores em Belém e Nazaré. Vim falar com a comunidade evangélica aqui sobre nossa presença na Palestina, pois muitos não sabem nem que existimos”, disse. Para Jack, existem no Brasil denominações evangélicas “que têm um ponto de vista teológico e político que algumas vezes é destrutivo”, referindo-se a quem defende a segregação de Jerusalém como capital de Israel.

Brasília

Na capital federal, um dos compromissos foi na Comunidade Luterana da Asa Sul. Eles foram recepcionados pelo CONIC – Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil, na pessoa da secretária-geral Romi Bencke, e pelo Pastor daquela comunidade, Carlos Alberto Radinz.

No encontro, as lideranças religiosas palestinas e brasileiras falaram sobre como a ocupação israelense na região e a violência constante impacta na vida de cristãos e cristãs palestinos. “Os integrantes da delegação destacaram o alto índice de imigração de cristãos palestinos em função da violência. Um dado que expressa o sentimento de que a região não tem apresentado alternativas para os moradores é que, hoje, 55% dos jovens querem deixar o país”, disse Romi.

Atualmente, 1% da população da palestina é cristã. No entanto, o impacto da presença cristã na região é alto. Por exemplo, 30% de escolas e hospitais são mantidos por organizações cristãs.

Diplomacia brasileira

Os irmãos palestinos chamaram a atenção do relevante papel que a diplomacia brasileira desempenhou ao longo dos anos naquela região, sempre reconhecendo os dois Estados e até tempos recentes não se pronunciando ou tendo atitude hostil em relação aos palestinos.

Eles também destacaram a necessidade de superar o pensamento que Jerusalém foi escolhida para um único povo. “Se reconhecemos que Deus escolheu apenas um povo” – argumentaram – “o outro povo pensa que Deus não o escolheu”. O desafio maior está em somar esforços para que todos construam uma Jerusalém segura e acolhedora para todas as tradições e povos.

Peregrinações e teologia

Sobre as peregrinações a Jerusalém, a comitiva frisou que elas não deveriam focar unicamente nos monumentos e locais arqueológicos, mas também no convívio com a população local para que todos os peregrinos possam saber como é o dia-a-dia na região. A ideia é reforçar um protagonismo profético no sentido de que as vozes do povo palestino possam ser ouvidas.

No âmbito teológico, os membros da delegação foram unânimes em destacar que os teólogos e teólogas da Palestina têm elaborado uma teologia e hermenêutica bíblicas contextual. Neste sentido, reafirmando que a bíblia não é um livro de ocupação, mas de libertação.

“A reunião foi um momento muito importante por vários motivos. Em especial, porque foi a primeira vez que se conseguiu reunir lideranças cristãs palestinas e brasileiras para falar temas que desafiam. É nossa tarefa nos envolvermos em processos de paz. A cidade de Jerusalém é simbólica e importante para as três religiões do livro: Judaísmo, Cristianismo e Islã. Esta pluralidade religiosa é a beleza que caracteriza a cidade. Neste sentido, fazer da cidade um símbolo de coexistência pacífica entre religiões é um desafio que temos que assumir”, concluiu Romi.

Ao final do encontro em Brasília, o CONIC foi presenteado com uma cruz artesanal feita por cristãos palestinos. Cada participante da reunião também recebeu uma pequena a cruz artesanal.

Embaixada e economia

Além de complicações no Oriente Médio, para o Brasil, a mudança de embaixada traria inúmeros prejuízos econômicos. Não por acaso, até a bancada ruralista tem trabalhado fortemente para dissuadir o governo dessa medida tão ideológica – quanto é a mudança da embaixada.

Só para se ter uma ideia da dimensão dos prejuízos, os países árabes são o 5º principal destino de produtos brasileiros. Hoje, o Brasil também é o maior produtor e exportador mundial de carne halal – procedimento em que os animais são abatidos de acordo com normas e preceitos do islamismo. Falando em nações muçulmanas, nosso comércio passa da casa dos US$ 22 bilhões ao ano. E a balança é favorável ao Brasil em US$ 8,8 bilhões, já que exportamos mais do que importamos. Com o Irã, outro grande parceiro comercial – destino de 6% das nossas exportações – as relações também podem azedar. Por outro lado, o as transações comerciais com Israel representam menos que 1% da fatia do comércio exterior brasileiro. E o Brasil compra mais do que vende. Em 2018, por exemplo, a balança comercial com Israel fechou com déficit de US$ 847,8 milhões.

Comunidade internacional

Vale lembrar que a comunidade internacional não reconhece Jerusalém como capital de Israel. Prova concreta disso é que a maioria das embaixadas está em Tel Aviv, entre elas a brasileira.

Por: CONIC
Fotos: Elianildo Nascimento

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