SALMO 118 (117): O SALMO PASCAL

 

Todo mês, no Jornal da Arquidiocese, você confere a reflexão do Salmo pelo Pe. Ney Brasil Pereira.

Todo mês, no Jornal da Arquidiocese, você confere a reflexão do Salmo pelo Pe. Ney Brasil Pereira.

           Por quê, “salmo pascal”? Assim o interpretou a tradição cristã, desde o Novo Testamento, que, além de lembrar que Jesus o rezou após a última Ceia (cf Mt 26,30), cita vários dos seus versículos. Assim, o v. 22, sobre a “pedra rejeitada”, que em diversas passagens é interpretado cristologicamente. Também, nos quatro evangelhos, a aclamação do domingo de Ramos – bendito o que vem em nome do Senhor – é uma citação do v. 26. De fato, este salmo ajuda-nos a reviver as etapas principais do mistério pascal do Senhor: sua angústia na Paixão, sua confiança no Pai, o assédio dos inimigos,  a superação da morte, a entrada no Templo celeste. Assim, com Jesus glorificado e por Ele, nós também damos graças ao Pai, porque Ele é bom, porque é eterna a sua misericórdia.

            Quanto ao gênero literário do Salmo, que conclui o conjunto chamado “Hallel” (salmos 113-118), podemos classificá-lo como “liturgia de ação de graças”, pois apresenta indicações precisas para a sua execução. O conteúdo é de ação de graças individual. Não sabemos, porém, quem historicamente foi o personagem que fala em primeira pessoa. Em todo caso, é alguém com liderança reconhecida pela comunidade, que superou com a ajuda divina graves perigos e vem dar graças publicamente. Como  foi dito acima, a leitura cristológica impôs-se espontaneamente à comunidade cristã.

Eterna é a sua misericórdia

  • Dai graças ao Senhor porque Ele é bom, pois eterna é a sua misericórdia.

Este convite inicial repete-se integralmente no fim do salmo (v.29), formando uma inclusão literária. O convite é motivado pela proclamação da bondade de Deus – Ele é bom – e da sua misericórdia, termo que em hebraico, hesed, significa também compaixão, solidariedade, lealdade, qualidades das quais se diz que elas são eternas, como o próprio ser de Deus, isto é, perduram para sempre.

Israel, Aarão, os tementes a Deus

  • Que Israel o diga: eterna é a sua misericórdia!
  • Que a casa de Aarão o diga: eterna é a sua misericórdia!
  • Digam os que temem o Senhor: eterna é a sua misericórdia!

O convite é agora dirigido explicitamente a Israel, o povo escolhido; a Aarão, destacando-se no povo os sacerdotes; e, numa dimensão, diríamos, interreligiosa, aos “tementes a Deus”, mesmo se não israelitas. O refrão a ser proclamado – Eterna é a sua misericórdia – aparece, como numa ladainha de louvor, ao longo de todo o Sl 136 (135), que proclama a divina misericórdia na criação, na história de Israel, e na vida quotidiana.

Clamei, Ele me ouviu

  • Na angústia clamei ao Senhor / o Senhor ouviu-me e me libertou.
  • O Senhor está comigo, nada temo: / o que pode contra mim um ser mortal?
  • O Senhor está comigo, é meu auxílio: / eu desafio meus inimigos.

Fala agora o salmista, começando a recordar a angústia pela qual passou e como o Senhor o libertou. A presença do Senhor fá-lo superar o medo e lhe dá, pelo contrário, coragem até para desafiar seus inimigos. No v. 6, é enfática a contraposição entre “o Senhor” e “um ser mortal”.

Refúgio, só no Senhor

  • É melhor buscar refúgio no Senhor, que confiar no ser humano.
  • É melhor buscar refúgio no Senhor, / que confiar nos poderosos.

Estes dois versículos, semelhantes, são como uma confirmação coral, pelos presentes, daquilo que o salmista acabara de proclamar. De fato, não é no ser humano, mesmo se poderoso, que se encontra a segurança, mas em Deus.  Esta convicção chega a ser paradoxal no início da afirmação de Jeremias: “Maldito o que confia no ser humano… e se afasta do Senhor” (cf Jr 17,5)

Todos me cercaram

  • Todos os soberbos me cercaram, / mas no nome do Senhor os rechassei.
  • Eles me rodearam e me cercaram, / mas no nome do Senhor os rechassei.
  • Rodearam-me como abelhas, / arderam como fogo no espinheiro,
    1. / mas no nome do Senhor os rechassei.
  • Empurraram-me com força para derrubar-me, / mas o Senhor me socorreu.

Fala novamente o salmista, recordando com vivacidade, em detalhes, o assédio quase mortal sofrido da parte dos “soberbos” (ou “povos”, segundo a maioria dos tradutores, no v.10). “Todos”  o cercaram, rodearam, empurraram, para derrubá-lo, mas ele, “em nome do Senhor”, os rechassou. No v. 12, as comparações com o enxame de abelhas e o fogo no espinheiro, ambos, enxame e fogo, ferozmente vorazes.

Meu canto é o Senhor

  • Minha força e meu canto é o Senhor, / Ele foi minha salvação.

Ainda o salmista, agora expressando sua libertação, cita o v. 2 do cântico de Moisés, entoado após a travessia do Mar, no Êxodo: Ex 15,2. Ele sente que, na sua vida, o Senhor agiu da mesma forma que ao libertar seu povo. Por isso, o Senhor é o tema, o assunto, alvo, do seu louvor, não apenas falado mas cantado.

Gritos de júbilo

  • Gritos de júbilo e de vitória ressoam nas tendas dos justos:
    1. / A mão direita do Senhor faz maravilhas,
  • A mão direita do Senhor se levantou, / a mão direita do Senhor faz maravilhas.

A assembleia presente faz ressoar seus “gritos de júbilo e de vitória”, que repercutem “nas tendas”, isto é, nas casas, dos justos, cantando as “maravilhas” da mão direita do Senhor. O já citado cântico de Moisés também exalta a “mão direita” do Senhor, “majestosa em poder”, que “destroça o inimigo” (Ex 15,8).

                                                           Não morrerei

  • Não morrerei, mas viverei / para anunciar as obras do Senhor.
  • O Senhor me provou duramente, / mas não me entregou à morte.

Novamente  fala o salmista, destacando o fato de que sua libertação lhe garante a continuação da vida, para que ele possa “anunciar as obras do Senhor”. Isso, apesar de ter sido muito “dura” a provação a que foi submetido, uma provação porém não mortal: Deus “não o entregou à morte”.

Abri-me as portas

  • Abri-me as portas da justiça: / entrarei para dar graças ao Senhor.

Chegado ao limiar do Templo, o salmista pede para entrar, submetendo-se à “liturgia da entrada”, que encontramos nos salmos 15 (“Senhor,quem entrará?”) e 24 (“Levantai, ó portas, vossos frontões…”). “Portas da justiça” são as portas rituais, pelas quais só os justificados, os purificados, podiam passar.

A porta do Senhor

  • Esta é a porta do Senhor, / só os justos entram por ela.

Enquanto o salmista fala de “portas”, no plural, os levitas designam uma porta, a “porta do Senhor”, pela qual “só os justos” podem entrar. Esta “única porta” nos faz lembrar a palavra de Jesus no evangelho segundo João, na passagem onde Ele assim se revela: “Eu sou a porta: quem entrar por mim será salvo…” (Jo 10,9).

Eu te dou graças

  • Eu te dou graças, porque me ouviste, / porque foste a minha salvação.

Respondendo indiretamente  aos levitas, o salmista apresenta-se como credenciado a entrar no Templo, passando pela porta ritual, porque Deus o ouviu e o salvou e, assim, o justificou. É por isso que Ele vem agradecer.

A pedra rejeitada

  • A pedra que os pedreiros rejeitaram / ficou sendo a pedra angular.
  • Foi o Senhor que fez isto: / é maravilhoso aos nossos olhos.

Nova exclamação coral da assembleia, agora em imagem arquitetônica: a pedra rejeitada, porque não servia para ser encaixada nos muros, é aquela que servirá para a função única de “cabeça do ângulo”. Assim é o Senhor, na liberdade de suas escolhas, em relação ao salmista. Da mesma forma, e mais claramente ainda,  em relação a Jesus,  como o lembrará Pedro no discurso perante o Sinédrio: “Este, Jesus, é a pedra que vós, os construtores, rejeitastes, e que se tornou a pedra angular” (At 4,11). E isto, que o Senhor fez, é “maravilhoso aos nossos olhos”.

Este é o dia! Salva-nos! Bendito!

  • Este é o dia que o Senhor fez: / exultemos e alegremo-nos nele.
  • Dá, Senhor, tua salvação! / Dá, Senhor, prosperidade!
  • Bendito em nome do Senhor aquele que vem! / Da casa do Senhor vos bendizemos.

Três exclamações, ainda, da assembleia: a primeira, sobre o “dia especial”, “do Senhor”, que está acontecendo; a segunda, desdobrando-se em pedidos de “salvação” e “prosperidade”; a terceira, bendizendo, “em nome do Senhor”, “aquele que vem”, no caso, o salmista. Essa “bênção” é proferida pelos sacerdotes, “desde a casa do Senhor”, como o lembra o livro dos Números (Nm 6,22).

Formai a procissão

  • O Senhor é Deus, Ele fez brilhar sobre nós sua luz. / Formai a procissão
  1. com ramos frondosos, até os ângulos do altar.

            Agora, pelos sacerdotes, a instrução a “formar a procissão” até o altar do sacrifício. Os “ramos frondosos” nos lembram os ramos da festa das tendas (Lv 23,40) e, nos evangelhos, os ramos da multidão jubilosa, acompanhando Jesus. O “brilho” da luz de Deus é o fulgor da sua face, irradiando sobre seu povo (cf Nm 6,25).

Tu és meu Deus

  • Tu és meu Deus e te rendo graças, / tu és meu Deus e eu te exalto.
  • Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom, eterna é a sua misericórdia.

Antes do convite final, que retoma o do início do salmo, enquadrando  todo o conjunto no louvor à bondade e misericórdia divinas, o salmista fala uma última vez, na primeira pessoa. Em alta voz, proclama a sua fé e gratidão ao Deus único, a quem ele chama de “meu Deus”.

Para refletir: 1) Por que este salmo é o “salmo pascal” por excelência?

                        2) Por que podemos classificá-lo como “liturgia de ação de graças”?

                        3) Em que sentido o salmista pôde dizer: “O Senhor é meu canto”?

                        4) Qual é o sentido da “porta” do Senhor? e da “pedra rejeitada”?

                        5) Qual o sentido das três última exclamações da assembleia (vv.24-26)?

Por: Pe. Ney Brasil Pereira – Professor Emérito de Exegese Bíblica na FACASC/ITESC

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