Todo mês, no Jornal da Arquidiocese, você confere a reflexão do Salmo pelo Pe. Ney Brasil Pereira.

Todo mês, no Jornal da Arquidiocese, você confere a reflexão do Salmo pelo Pe. Ney Brasil Pereira.

Estes dois pequenos salmos constituem a abertura do conjunto dos salmos que se cantam na ceia pascal, chamados de “grande Hallel” ou “Hallel egípcio”, celebrando a Páscoa anual. Só o segundo deles fala diretamente do Êxodo, mas o tema de reerguer os humilhados (Sl 113), o louvor em conjunto (Sl 115), a ação de graças pessoal (Sl 116), o louvor universal (Sl 117), a procissão festiva (Sl 118), tudo faz com que seja uma  série apropriada para celebrar a salvação que começou no Egito e que se espalhará entre as nações e ao longo da história. Estes dois primeiros salmos cantam-se antes da ceia pascal, entoando-se depois os outros quatro: os evangelistas aludem a esse canto, na noite da última Ceia (cf Mc 14,26; Mt 26,30).

 

SALMO 113 (112):  ELE EXALTA OS HUMILHADOS

 

            Os nove versículos deste salmo, que é um hino de louvor, distribuem-se equitativamente em três partes: a primeira (vv. 1-3) é o invitatório, o convite a louvar, expressamente, o “nome” do Senhor; a segunda (vv. 4-6) é a proclamação do ser de Deus,  excelso acima das criaturas, mas que não se dedigna de “inclinar-se”, e “olhar para a terra”; e  a terceira (vv. 7-9), a descrição da sua atividade benéfica, do seu poder  salvador.

O nome do Senhor

  1. Aleluia! Louvai, servos do Senhor / louvai o nome do Senhor.
  2. Seja bendito o nome do Senhor, / desde agora e para sempre.
  3. Do nascer do sol ao seu ocaso, / seja louvado o nome do Senhor!

O nome é a pessoa, e vice-versa. O nome comum não serve para identificar o indivíduo, a pessoa: é preciso um nome próprio, pessoal. Assim também o nome próprio de Deus, às vezes deixado em segredo (Gn 32,30), enfim é revelado a Moisés (Ex 3,14): primeiro numa frase, Eu sou quem sou, depois num nome de quatro letras, o tetragrama, YHWH, cuja pronúncia provável é Yahvé. Ao comunicar seu nome, porém,  Deus acrescenta um mandamento – o segundo, no Decálogo – protegendo-o contra seu falso uso. Esse, aliás, é o motivo pelo qual as traduções da Bíblia, a partir da primeira delas, a versão grega, não reproduzem o tetragrama como tal mas apenas o seu equivalente, “Senhor”. Neste salmo, os três versículos iniciais concentram-se no louvor do nome divino: os “servos do Senhor” devem louvar e bendizer esse Nome, “desde agora e para sempre”, isto é, em todo o tempo, e “do nascente ao poente”, isto é, em todo o espaço.

O Senhor no céu

  1. O Senhor é excelso sobre todos os povos, / mais alta que os céus é a sua glória.
  2. Quem é igual ao Senhor, nosso Deus / que mora no alto
  3. E se inclina a olhar / para os céus e para a terra?

O salmista dedica agora três versículos ao próprio ser de Deus, à sua grandeza excelsa, incomparável, “mais alta que os céus”, “acima de todos os povos”, e faz a pergunta retórica: “Quem é igual” a Ele? A seguir, introduzindo a parte final do salmo sobre a ação de Deus na terra, observa que Ele não se dedigna de inclinar-se para olhar para baixo, para o nosso mundo dos seres humanos.

Ele exalta os humilhados

  1. Ele ergue da poeira o indigente, / do monturo levanta o pobre,
  2. Para fazê-lo sentar-se entre os príncipes, / entre os príncipes do seu povo.
  3. Faz a estéril morar na sua casa / como alegre mãe de filhos!

Em apenas três versículos, o salmista resume a grandeza do que fora amplamente exposto no cântico de Ana (1Sm 2,1-8) e que, depois, o será no cântico de Maria (Lc 1,47-53). O autor seleciona duas situações de inferioridade e humilhação, e apresenta Deus mudando a inferioridade em superioridade, e a humilhação em exaltação. O indigente é nomeado conselheiro ou senador, e a estéril dá à luz e reina no lar! Notar também que o salmo silencia quanto à “merecida” humilhação dos exaltados, enquanto, por outro lado, mostra Alguém exaltado (v. 5) que, por própria iniciativa e bondade, “abaixa-se” para elevar os humilhados… Quanto ao sentido do salmo, além da perspectiva individual, podemos rezá-lo em perspectiva nacional: “pobre e desvalido” é o povo submetido e explorado, e “estéril” é a comunidade diminuída. Deus se volta para eles para mudar-lhes a sorte. Tal é o estilo do Deus que se chama YHWH, um de cujos títulos é “Altíssimo”.

 

 

SALMO 114 (113): QUANDO ISRAEL SAIU…

 

            Certamente um dos salmos mais conhecidos e mais originais de todo o saltério. Seu propósito é evidente: fazer memória poética do acontecimento fundamental da fé de Israel, o Êxodo, concentrando-se nos dois momentos extremos, saída do Egito e entrada na Terra. Não recorre, porém, à forma do hino: não há convite a participantes, nem dedicatória ao Senhor, nem fórmula de motivação. O salmista apenas evoca as duas etapas, exprimindo-as porém com original criatividade poética. Quanto ao conjunto dos oito versículos, pode-se facilmente distribuí-los em quatro estrofes.

Judá tornou-se santuário

  1. Quando Israel saiu do Egito, / a casa de Jacó, de um povo balbuciante,
  2. Judá se tornou seu santuário, / Israel, o seu domínio.

Judá sai do meio de “um povo balbuciante”, isto é, do meio de um povo de língua incompreensível,  incapaz de comunicar-se e de entrar em comunhão e, por isso, opressor (cf Is 28,11 e 33,19). E se torna “santuário” de Deus, “domínio” de Deus… em que sentido? Não só ao chegar à terra prometida, mas já no caminho da saída, o povo eleito era o “santuário móvel”, o reino itinerante do Senhor. Uma massa de escravos, ao serem libertados, converte-se em santuário móvel da presença divina. E é essa presença que explodirá em prodígios na sua passagem.

Mar e rio, montes e colinas

  1. O mar viu e recuou, / o Jordão voltou atrás.
  2. Os montes saltaram como carneiros, / as colinas como cordeiros.

O mar Vermelho bate em retirada, como um exército derrotado. Nem se faz menção do exército do Faraó: o inimigo é o próprio mar, que se põe em fuga. O Jordão estaciona para que o povo, não a Arca, possa passar. O “tremor da montanha” do Sinai, segundo Ex 19,18, transforma-se poeticamente em movimentos de dança de carneiros e de ovelhas…

O que há convosco? Por que esta dança?

  1. O que há contigo, ó mar, para fugires, / e tu, Jordão, por que voltas para trás?
  2. Por que vós, ó montes, saltais como carneiros / e vós, colinas, como ovelhas?

Os movimentos inusitados provocam espanto, suscitando perguntas. No Antigo Testamento, é rara essa figura poética de apostrofar seres inertes. Mas temos, no Sl 68,17, a apóstrofe às montanhas de Basã, invejosas da exaltação do monte de Sião, “que Deus escolheu para morar”… As criaturas inertes não respondem: é o poeta que descobre o dinamismo colossal nelas desencadeado pela presença de Deus.

Treme, ó terra, diante do Soberano!

  1. Treme, ó terra, diante do Soberano, / diante do Deus de Jacó,
  2. Que muda o rochedo em lago, / a pedreira, em fontes de água.

A apóstrofe agora é para a terra, diante do seu “Soberano”, seu dono, o “Deus de Jacó”. Que ela estremeça, quem sabe até de parto, diante do Poder capaz de tudo transformar, inclusive rochedo e pedreira. Deus é capaz de transformar o elemento mais renitente e estéril em fonte de vida: cf Is 35. Lagos e mananciais transformam o deserto em terra de cultivo. Por isso, o último versículo inaugura uma era de felicidade e abundância. Perspectiva semelhante é a do final do Livro da Sabedoria, que exalta o poder transformador de Deus em benefício do seu povo (Sb 19,18-22). A propósito, não é difícil transpor a perspectiva do poeta para o Novo Testamento: novo Êxodo, nova Páscoa, nova terra, novas fontes de água…

Pe. Ney Brasil Pereira

Professor de Exegese Bíblica da FACASC/ITESC

Email: [email protected]

Para refletir: 1) Que salmos constituem o “grande Hallel”? Qual a função dos salmos 113 e 114?  2) Por que o Sl 113 dedica três versículos ao “nome” do Senhor?

3) Compare o final do Sl 113 com o cântico de Ana e com o Magníficat de Maria.

4) Como os seres inanimados reagem à passagem do povo hebreu pelo deserto?

5) Que significa a transformação dos elementos da natureza, pelo poder de Deus?

 

Pe. Ney Brasil Pereira – professor de Exegese Bíblica na FACASC/ITESC

Email: [email protected]

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