A segunda carta a Timóteo (2Tm) traz a assinatura de Paulo e o cenário descrito ambienta os últimos dias do apóstolo na cidade de Roma, onde estava preso, aguardando o julgamento que o levaria ao martírio. Uma cela escura, degradante, com outros prisioneiros, certamente provava a temperança do apóstolo e sua confiança. Da parte do Senhor ele nunca se sentira abandonado, mas o mesmo não pôde dizer de outros companheiros e comunidades, que praticamente o esqueceram à sua sorte. A idade avançada, nesse contexto degradante, suscitou no ancião recordações saudosas e pressentimentos nada alvissareiros. Essa última missiva revela, então, seus íntimos sentimentos, sua preocupação pelo “filho amado”, Timóteo, seu zelo pelos cristãos, e, acima de tudo, deixa-nos o testamento espiritual de um combatente da fé.

Após a saudação inicial (1,1-2), o apóstolo admoesta um dos seus mais queridos colaboradores, Timóteo, a ser testemunha incansável de Cristo. “Testemunha” traduz a palavra grega “mártyr”, que indica alguém que revive e professa existencialmente a fé que recebe até o derramamento de sangue, se necessário. Por isso, não se deve ter vergonha do Evangelho, e nem de Paulo, prisioneiro por causa do Evangelho, mas fortalecer-se pela graça recebida na ordenação de confirmar os irmãos na fé. Paulo utiliza a imagem do soldado, do atleta e do agricultor para se referir ao empenho, à disciplina e à esperança que Timóteo deve possuir para também receber a Vida do Reino (1,6–2,13).

Em meio aos tormentos da prisão, o apóstolo desvela seu zelo amoroso pelo rebanho de Jesus Cristo. Adverte Timóteo para os falsos pastores e mestres que desviam da verdadeira fé. Entre eles estavam Himeneu e Fileto que afirmavam que a ressurreição “já se realizou” (negando a ressurreição futura da carne). Paulo aconselha Timóteo a evitar discussões insensatas, educando com suavidade até mesmo os opositores, na esperança de conversão e do retorno à sensatez. Certamente que as dissensões prejudicam a unidade da Igreja, influenciam pessoas menos preparadas e desviam pessoas mais susceptíveis. É com a Palavra que Timóteo deve proclamar a verdade, sempre útil para refutar, ameaçar, exortar com toda a paciência (cf. 2,14–4,8).

Na parte final da epístola, Paulo descreve sua situação pessoal, revelando a clara consciência de que seu fim está próximo. Faz um retrospecto de sua vida cristã, missionária, e se convence de ter empreendido um “bom combate”, uma “bem sucedida corrida”, esperando receber os louros da vitória, reservados para os que esperaram com amor a vinda do Senhor. Anseia rever seu caro discípulo ainda uma vez e, assim, suplica que ele venha logo a Roma, trazendo consigo: um manto, para enfrentar o inverno romano, livros e os pergaminhos (textos bíblicos), ou seja, os tesouros da Palavra da qual o apóstolo tantas vezes se alimentou e nos alimentou. Uma das últimas, senão a última, carta do apóstolo é um testamento espiritual de um verdadeiro amor a Cristo, à Palavra, à verdade e aos irmãos.

Artigo publicado na edição de julho do Jornal da Arquidiocese, pág. 8.

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