Nos cinco primeiros meses de 2017, somente em três semanas foram assassinadas no Brasil mais pessoas do que o total de mortos em todos os ataques terroristas no mundo, os quais envolveram 498 casos, resultando em 3.314 vítimas fatais. Estes dados são do Atlas da Violência 2017, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

O estudo analisa os números e as taxas de homicídio no país entre 2005 e 2015 e detalha os dados por regiões, Unidades da Federação e municípios com mais de 100 mil habitantes.

Neste Atlas se encontram fortes implicações sobre a dinâmica demográfica e o desenvolvimento econômico e social. Ou seja, o homicídio como causa de mortalidade da juventude masculina, na faixa etária de 15 a 29 anos, em 2015, correspondeu a 47,8% do total de óbitos. Se considerar apenas os homens entre 15 a 19 anos, esse indicador atinge o índice de 53,8%.

Eis um dos dados mais surpreendentes do estudo: a Guerra do Vietnã (1955-1975), o conflito mais longo do século XX, teve 1,1 milhão de civis mortos, enquanto os homicídios no Brasil (1995-2015) chegaram à marca de 1.033.813 mortos. Em 2015 foram 59.080 vítimas, o que equivale a 161 mortos por dia no país. O número de pessoas assassinadas diariamente corresponde à queda de um Boeing 737 cheio de passageiros.

Em Santa Catarina, segundo estatística da Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP), no ano de 2017 foram registradas 985 vítimas de homicídio. O que equivale a 14,3 mortes a cada 100 mil habitantes. De 1º a 31 de janeiro de 2018, a SSP contabilizou 79 mortes no Estado.

Na Capital do Estado, foram 150 vítimas de homicídio durante 2017, segundo a SSP, o que corresponde a 31,4 homicídios a cada 100 mil habitantes. De 1º a 30 de janeiro de 2018, foram 13 mortes.

A Campanha

Esta estatística da violência só aumenta em nível local e nacional. Não se leva em conta aqui, o âmbito mundial. Assim, a Campanha da Fraternidade (CF 2018) busca refletir este quadro com o tema “Fraternidade e superação da violência”, e com o lema “Em Cristo somos todos irmãos (Mt 23,8)”.

Coordenada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e realizada no período da Quaresma, a CF envolve todas as comunidades cristãs católicas do Brasil.

Deseja-se refletir a realidade da violência, rezar por todos os que sofrem violência e unir as forças da comunidade para superá-la. Pretende-se, ainda, lançar um olhar para os impasses que, há décadas, dominam as políticas públicas de segurança.

Guerra silenciosa e voraz

O tema da Campanha da Fraternidade está no centro das preocupações de todo brasileiro. A estatística do Mapa da Violência 2016, organizado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), mostra que, no Brasil, cinco pessoas são mortas por arma de fogo a cada hora. Diariamente, 123 pessoas são assassinadas dessa forma. Esses dados mostram que, no país, ocorrem mais mortes por arma de fogo do que nas chacinas e atentados em todo mundo.

De acordo com a pesquisa “A mortalidade por causas violentas no Estado e nas Microrregiões de Santa Catarina”, publicada na Revista Encontros Teológicos, edição nº 03, da Faculdade Católica de Santa Catarina (FACASC), “no Brasil, a violência tem resultado em número de vítimas muito superior àquele verificado em conflitos recentes, como a guerra da Bósnia (176.000 mortos, de 1991 a 1995)”. Este estudo foi produzido pela professora do Campus da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) de Curitibanos, Sonia Corina Hess, que também é Pós-Doutora em Química pela UNICAMP, Università Cattolica del Sacro Cuore (Roma) e Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Apesar de possuir menos de 3% da população mundial, o país responde por quase 13% dos assassinatos no planeta, segundo dados do texto-base da Campanha da Fraternidade 2018.

TAXA DE HOMICÍDIOS NOS MUNICÍPIOS BRASILEIROS EM 2015

CONFIRA MAIS INFORMAÇÕES NO INFOGRÁFICO DO ATLAS DA VIOLÊNCIA 2017

Polícia como mediadora de conflitos

No contexto da violência, os policiais também se tornam vítimas. Segundo o anuário produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, entre 2009 e 2015, o número de policiais mortos em serviço no Brasil foi 113% maior do que o verificado nos Estados Unidos.

Ao apresentar estes números, o texto-base da CF 2018 trata a polícia como mediadora de conflitos. Assim, tem-se a polícia em duas atividades. “Polícia de preservação da ordem – que é uma busca constante, mediadora de conflitos, facilitadora da paz social, promotora de qualidade de vida. E a outra polícia é a da aplicadora de lei. São as atividades policiais de repressão e de prevenção. Na prática é difícil distinguir as duas”, reconheceu o subcomandante-geral da Polícia Militar de Santa Catarina (PMSC), coronel Carlos Alberto de Araújo Gomes Júnior.

O subcomandante-geral afirma que os policiais precisam se ver como protetores daqueles que têm os direitos feridos, e não vigilantes daqueles que tentam ferir os direitos dos outros. Essa é uma mudança de paradigma gigante. “Dentro do texto da Campanha da Fraternidade 2018, temos uma polícia mediadora de direitos. Porque a polícia é, em última instância, um dos pilares da democracia”, complementa o coronel Araújo Gomes.

“Como o policial pode promover a paz social, com mecanismos de mediação e diálogo? Uma resposta está na maior proximidade da polícia com o terceiro setor, mas o principal obstáculo para isso é o preconceito. Ainda somos vistos como truculentos e impotentes. Também procuramos trabalhar a autoestima do policial, para ele ter mais orgulho das ações de proteção do que das de repressão, do crime evitado do que daquele que captura, de ser reconhecido pela comunidade como cara bacana, do que como que repressor. Esse é o tripé que vai nos ajudar a construir a paz”, finaliza o coronel da PM.

Arcebispo Dom Wilson recebe a imprensa para lançamento da Campanha da Fraternidade 2018

No Brasil, 60 mil jovens foram assassinados em 2016

Padre Vilson Groh, há mais de 30 anos, lida diariamente com situações de violência, na região do Morro do Mocotó, em Florianópolis, onde também mora. “De janeiro a novembro de 2017, na Capital, foram assassinados 126 jovens. Outros 60 mil foram assassinados no Brasil, no ano de 2016. Em 2050, teremos no país um milhão e 760 mil jovens assassinados. Precisamos construir no país uma oportunidade da materialização dos sonhos dos jovens”, afirma Pe. Vilson.

O trabalho do padre no Morro do Mocotó iniciou no ano de 1983 e só cresceu.  “Iniciamos o movimento de luta nas periferias. Comecei a entender que se a violência é aprendida, ela pode ser desaprendida”, disse.

Em 2012 foi criado o Instituto Vilson Groh (IVG) que compreende hoje sete organizações com atendimento diário de cinco mil crianças, adolescentes e jovens. “Um jovem na área do preventivo custa para nós R$ 450 reais. E um jovem que é tolhido da sua realidade e liberdade custa para o Estado R$ 4.200. Onde investir o processo, diante desta realidade? Essa juventude passa a mão em uma prancha de surfe, deixa a arma de lado e embrenha outro caminho de vida. Precisamos resgatar a dimensão mais profunda do ser humano que é a solidariedade, que nasce dentro do coração. Evocar a força do Espírito que está dentro de nós, pois é possível transformar o mundo e a realidade das periferias”, conclui Pe. Vilson.

Fenômeno multidimensional

“A violência é um fenômeno multidimensional que se reproduz através das nossas ações, mas também pela falta delas. A ação policial faz parte de uma abordagem democrática na legítima construção da segurança pública, mas essa deve ser construída e sustentada como parte de um esforço mais estratégico e abrangente para dar resultado”. Quem faz tais afirmações é o pesquisador e professor americano, Jared Ordway, com Mestrado em Resolução de Conflitos Internacionais pela American University (Washington).

Ele esteve em Florianópolis, entre os anos de 2012 a 2015, para uma pesquisa de doutorado com foco no Maciço Morro da Cruz. O trabalho mostrou que existem ações e decisões inovadoras para reduzir certas reproduções da violência.

“O comportamento violento (seja qual for o motivo, legítimo ou não) se ensina e se aprende, se permite. Felizmente, isto é um processo que pode ser desconstruído e mudado. Mas, se continuarmos a permitir um ambiente facilitador que alimente a violência, ela vai florescer”, enfatiza Jared.

Ações de superação da violência

No texto-base da Campanha da Fraternidade 2018, sugere-se que a superação da violência será de diversos modos:

– Na relação com o outro.
– No cuidado, no jeito de agir, perdoar, amar, viver e ouvir.
– Na cultura da paz, que acontece em todas as realidades da vida, na relação com todos os seres.
– Na família, o primeiro lugar onde o ser humano aprende a se relacionar.
– Na conversão pessoal e social, nas mudanças de atitudes e comportamentos, na oração e na espiritualidade, principalmente no tempo da Quaresma.

Ninguém nasce violento. Contudo, a pessoa pode vir a ser violenta. O comportamento violento pode ser aprendido na família e reaplicado socialmente nas relações ao longo da vida.

Coleta Nacional da Solidariedade

A arrecadação da Campanha da Fraternidade é o fruto concreto deste período. Busca renovar a consciência da responsabilidade de todos pela ação da Igreja Católica na evangelização e na promoção humana, tendo em vista uma sociedade justa e solidária.

Da arrecadação da Coleta da Solidariedade, 60% vão para o Fundo Arquidiocesano de Solidariedade (FDS), para o apoio de projetos sociais. Os 40% restantes vão para o Fundo Nacional de Solidariedade (FNS), para o fortalecimento da solidariedade em diversas regiões do país.

A Coleta da Solidariedade é feita sempre no Sábado e Domingo de Ramos, este ano, 24 e 25 de março.

 

Seu endereço de email não será publicado. Os campos marcados com * são obrigatórios

*