Os gregos usavam dois mitos para explicar o tempo: kronos e kairós. Kronos está ligado ao aspecto quantitativo. Deu origem aos termos cronômetro, crônica. É o tempo que pode ser medido – dia, hora, minuto, mês, ano. O seu símbolo é o relógio. Kronos é representado como um monstro que devora os próprios filhos a fim de escapar do mesmo destino. Kronos (tempo) passa continuamente, aniquila tudo o que produz. Vive com medo de ser privado do seu poder, mas não consegue se livrar do seu destino: passar. Nada neste mundo dura para sempre.

O tempo que vivemos como data, prazo, provoca medo. O ser humano domina o tempo (kronos) – mede processos de trabalho, calcula, controla o tempo. Mas da mesma forma é dominado por ele. O homem se torna escravo dos seus planejamentos e datas. Vive sob a pressão do tempo. Há sempre o medo de não conseguir se desvencilhar daquilo que foi estabelecido. É o receio de perder algo, de ter que mudar alguma coisa em sua vida.

Kronos mostra um dos problemas centrais da existência: a tensão entre conservar e mudar. É o que ensina o antigo mito do rei que ouve que o novo rei acaba de nascer e vai lhe tomar o poder. Quer assegurar o poder e por isso procura matar o novo rei. Mas o novo rei acaba se impondo. Encontramos esta história no Evangelho, quando Herodes manda matar as crianças com menos de dois anos, com medo de perder o poder.

O mito apresenta o ensinamento de que ninguém pode impedir as mudanças, nada pode ser conservado para sempre. Os novos reis sempre vão chegar – novas ideias, novas invenções. O antigo deve dar lugar ao novo. A única coisa que permanece é a mudança. Jesus recomenda que não se busque bens ligados a kronos. Tudo que conseguimos no tempo não tem valor permanente. O Reino de Deus, proposto por Jesus, é um lugar espiritual, uma consciência na qual o tempo terrestre (kronos) não tem nenhuma validade.

Há, porém, um outro elemento do tempo que é representado por kairós. É o deus da ocasião propícia, do momento adequado. Kairós não constitui ameaça, não quer o senhorio do mundo. Representa o frescor, a novidade, o emergente. Coloca a pergunta sobre o tempo favorável, o tempo da maturidade, o que é essencial. Trata-se de fazer o que é certo na hora certa. É o momento da decisão.

Kairós é representado por um jovem calvo e de fronte erguida. Ele não pode ser agarrado pelos cabelos. Quando o cavalo encilhado passa, deve ser montado. Não tornará a passar. Kairós não se apresenta na atitude de esperar, hesitação, mas no agir e decidir. Kairós é demorar-se no presente que muda constantemente. É um mergulho no agora e no reconhecimento das oportunidades. É o contrário do pensamento marcado por metas e resultados.

Kairós aponta para metas que só são possíveis agora, tais como o perfume da flor, o sabor da maçã, o sorriso da criança. Quando deixamos escapar estas oportunidades, elas estão irremediavelmente perdidas. E a maior oportunidade é a vida. Podemos nos perder em cálculos e planejamentos enquanto a vida passa. O tempo como Kairós é desfrutado. Assim, podemos viver cada estação com sentimentos diferentes. Podemos saborear cada amanhecer, cada crepúsculo, também o tempo de férias. O Natal é vivido como Kairós, tempo de Deus.

Tanto kronos, quanto kairós deve fazer parte da nossa vida. Sem planejamento e regulamentação não pode surgir nenhuma cultura. Mas o tempo mensurável deve estar em uma sadia relação com o instante, com o usufruir as oportunidades e ocasiões. Estabilidade e transformação são duas faces da mesma moeda.

Artigo publicado na Revista de Verão 2018 da Arquidiocese de Florianópolis, página 02. 

 

 

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