Assumir e implantar o espírito da comunidade eclesial missionária é compromisso de todo batizado

Padre Leandro Rech

Em sua última assembleia geral, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) aprovou as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil para os anos de 2019 à 2023. Em seu objetivo geral, aparece uma novidade, Comunidades Eclesiais Missionárias, como uma característica da Igreja no Brasil.

Vivemos num mundo urbano, muito abrangente, diverso e complexo. Este mundo é a casa (lar) de todos nós. Nesta “casa”, somos convidados a testemunhar a nossa fé cristã, sustentados pela Palavra, pelo Pão (Eucaristia) e pela caridade em um estado permanente de missão. Não esquecendo que tudo deve ter início num encontro pessoal com Jesus Cristo.

A comunidade eclesial missionária é a Igreja nas casas, ou seja, comunidades que se formam em ruas, condomínios, aglomerados, edifícios, unidades habitacionais, bairros populares, povoados, aldeias e grupos por afinidade. São pessoas que se reúnem, movidas pela fé em Jesus Cristo, para escutar a Palavra, para viver a fé cristã, numa sociedade de contrastes; pessoas que vencem o anonimato e a solidão, promovem a mútua-ajuda e se abrem para a sociedade e para o cuidado da casa comum (meio ambiente); pessoas que não querem viver “cada um no seu quadrado” e sim, como viviam os primeiros cristãos (cf. Atos 2,42-47).

A comunidade eclesial missionária deve viver os quatro pilares que sustentam a vida cristã. A Palavra de Deus, através da Iniciação à Vida Cristã, da leitura orante da Palavra e da animação e formação bíblica. O Pão, vivendo e celebrando bem a Eucaristia, buscando ter uma profunda espiritualidade eucarística em todas as comunidades. A Caridade, servindo aos necessitados, promovendo a vida digna aos que estão à margem da sociedade. A Ação Missionária, em um estado permanente de missão, ou seja, estar em missão no dia-a-dia, testemunhando nossa fé, levando o Cristo aos que não o conhecem, sendo sinal do amor de Deus a todos.

A Igreja deseja que nossas comunidades, a partir da experiência pessoal com Cristo e do anúncio do querigma (cf. Atos 2,14-41), testemunhem o Evangelho a todas as pessoas e em todos os lugares (residências, comércio, hospitais, escolas, universidades e outros), para que todos tenham vida plena!

Por Pe. Leandro José Rech
Pároco da Paróquia Senhor Bom Jesus de Nazaré, em Palhoça.

Em São José, a missão como temática na vivência paroquial

Grupo de missionários que realiza visita nas casas

A Paróquia Nossa Senhora do Rosário, em São José, definiu na assembleia paroquial de 2011, que as Santas Missões Populares (SMP) estariam entre as prioridades pastorais de todos os grupos. “Naquela época, olhando para nossa realidade urbana, vendo quantas pessoas atingíamos nas pastorais, quantos iam às missas e o tamanho de nossos bairros, sentimos que precisávamos mudar a forma de agir e evangelizar. Atendemos ao que o Evangelho nos inspirava e ouvimos o que os documentos da Igreja nos falavam. Desse olhar, saiu a decisão de viver as SMP”, comenta o integrante da animação missionária da paróquia, Marciel Linhares.

Novena em preparação à festa do Divino Espírito Santo, no Roçado

Para este trabalho, foi criada uma equipe paroquial de animação missionária, constituída por pessoas das quatro comunidades, que passou a se reunir todos os meses para planejar e motivar o espírito missionário na paróquia.

Outra decisão: missão não pode ser mais uma pastoral, movimento ou grupo. Missão tem que ser a vivência que é preciso ter em todos os lugares. “Não importa se sou da catequese ou do Terço dos Homens. Onde estou tenho que viver minha vocação missionária. Fazer visitas missionárias ou ir para as missões na Bahia ou Amapá são consequências desse ‘assumir o batismo’”, relata Marciel.

Assim, passou-se a praticar e a viver a missão em todos os momentos. “Se vamos fazer uma semana de formação, ali tem um espaço sobre missão. Se vamos vivenciar a semana da família, aí tem também algo de missão. Fizemos encontros de formação, preparamos banner com logotipo, tema, oração, camisetas. Tudo para ajudar as pessoas a perceberem que o espírito missionário antes de ser falado, deve ser vivido”, aponta o coordenador. E acrescenta que, por exemplo, na comunidade onde ele mora, Igreja Nossa Senhora Aparecida, no Roçado, “incluímos o tema missionário na novena em preparação à festa do Divino Espírito Santo e no tríduo da festa de Nossa Senhora Aparecida. Quando organizamos a novena, já planejamos com a temática missionária. Os nove encontros acontecem sempre nas casas, em ruas diferentes, pois a orientação é sair. Essa dinâmica dos encontros pelas ruas e casas já temos há algum tempo. O que adicionamos foi o pano de fundo da missão”.

Animação missionária em Balneário Camboriú

COMIPA da Paróquia Nossa Senhora Aparecida

A Paróquia Nossa Senhora Aparecida, do bairro Vila Real, em Balneário Camboriú, também vive esta alegria de uma Igreja missionária. Em 2016 teve início o projeto missionário, quando a paróquia assumiu como prioridade pastoral, a primeira urgência da ação evangelizadora paroquial: Igreja em estado permanente de missão. Desde então, já são mais de três anos que a missão acontece nas nove comunidades que formam a paróquia.

Comunidade Nossa Senhora da Esperança

Posteriormente, foi criado o Conselho Missionário Paroquial (COMIPA). “Neste ano, com a dinâmica da comunidade eclesial missionária, pretendemos nos empenhar para que os Grupos Bíblicos em Família (GBF), a Igreja nas casas, ganhem um novo vigor’”, afirma a coordenadora paroquial do COMIPA, Verônica Velho Haas.

Missão na Comunidade Quilombola

Verônica explica ainda que “o COMIPA já deu o pontapé inicial para o Mês Missionário Extraordinário, promovendo a animação missionária com visitas às comunidades, que agora passaremos a chamar de ‘comunidades eclesiais missionárias’”.

Pastoral da Criança em missão

Através do COMIPA, os missionários passam por formação permanente, visitam as casas e fazem o cadastramento e o levantamento das famílias do bairro, com o objetivo de acompanhar e conhecer a realidade da paróquia. Nestas visitas, busca-se motivar e incentivar a criação de novos Grupos Bíblicos em Família (GBF). E na rua que não tem GBF, a orientação é que ali tenha um “missionário referencial”.

Missão Juvenil

O que faz o “missionário referencial”?

• Ser o rosto da Igreja missionária naquela rua;
• Ser um ponto de ligação com o COMIPA e a Igreja como um todo;
• Estar atento às necessidades das famílias;
• Informar sobre as pastorais e atividades existentes na paróquia;
• Orientar ou encaminhar os casos especiais (situações do casal, pobreza, doenças);
• Indicar o Posto de Saúde da comunidade, a Ação Social da Igreja e outras entidades que resolvam as necessidades da família;
• Estar atento aos moradores novos.
• Ir ao encontro das muitas famílias que não participam da Igreja ou vivem uma situação difícil, por falta de acolhimento e informação.

Celebrações na Pedra Branca, em Palhoça

Missa de acolhida dos catequizandos, no bairro Pedra Branca

Na Arquidiocese de Florianópolis, muitas paróquias trabalham nesta dinâmica da comunidade eclesial missionária. Um exemplo prático vem justamente da Paróquia Senhor Bom Jesus de Nazaré, mais especificamente, da Comunidade Sagrada Família, no bairro Pedra Branca, em Palhoça.

Uma população de 12 mil pessoas que ainda não conta com uma capela para as missas, para a Iniciação à Vida Cristã e para as outras atividades pastorais, mas que não faz disso um impedimento para evangelizar. Pelo contrário, as missas acontecem no primeiro, terceiro e quinto domingo de cada mês, na praça de alimentação do Passeio Pedra Branca. A comunidade ajuda a montar e desmontar o espaço da celebração. Em outro local, uma sala improvisada, as crianças participam da Iniciação à Vida Cristã. As casas, apartamentos e empresas do bairro são visitadas por fiéis da comunidade, que recentemente passaram com as bandeiras do Divino. É uma comunidade eclesial missionária que faz a Igreja nas casas, no comércio, onde a evangelização necessitar.

Há três anos, a Ministra Extraordinária da Sagrada Comunhão da comunidade, Rose Mirian Peres Ramos, foi convidada a iniciar o trabalho voluntário de passar nas casas com a bandeira do Divino. Hoje, ela conta que são dez mulheres nesta evangelização. Neste ano, as missionárias resolveram deixar um bilhete com telefones de contato, nas casas em que as famílias não estavam.

Crianças e pais na Iniciação à Vida Cristã

Nessa ida com a bandeira é apresentada a comunidade, há o momento para tirar dúvidas e os doentes recebem assistência. “Nosso desafio deste ano era entrar nas indústrias. Para nossa surpresa, 80% da área industrial foi alcançada, e os funcionários nos recebiam na maior alegria. A caminhada e a bandeira não cansam, porque colocamos todo nosso amor para evangelizar. Não é porque não temos ainda a igreja-templo, que vamos fazer de qualquer jeito, mas tem a Igreja povo de Deus, que precisa ser acolhida com todo respeito, carinho e alegria”, explica Rose Ramos.

Entre os frutos desta comunidade eclesial missionária nascente, que foi fundada há quatro anos, já ocorreram batizados e crianças fizeram a Primeira Eucaristia.

Matéria publicada na edição de julho de 2019 do Jornal da Arquidiocese, páginas centrais, 6 e 7.

1 Comentários, RSS

  • Inês Maria Battisti Archer Guesser

    diz em:
    9 de agosto de 2019 às 18:54

    Parabéns a todas as Paróquias e comunidades,pelo belo trabalho realizado. Continuem firmes sempre. Que Deus vos abençoe.

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