A Sagrada Escritura relata com maestria sem igual o nascimento do Menino Jesus, simples, humilde, na manjedoura, mas cercado pelo amor de Maria e de José. Deus que se abaixa e se faz homem para salvar a humanidade. “No presépio de Belém, Deus se humanizou e a humanidade se divinizou. Deus-Trindade, a família eterna, fez-se família humana, no Natal de Jesus”. Nestas palavras do assistente eclesiástico nacional da Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), Pe. Evaristo Debiasi, para o Jornal da Arquidiocese de dezembro de 2014, revela-se um inesquecível e profundo entendimento do real sentido desta data.

No Natal, de um lado, há uma multidão de pessoas que correm aqui e ali à procura do melhor presente material para a pessoa que ama, impulsionadas pelas atrativas propagandas da mídias. Mas, de outro, há uma multidão de pessoas, anônimas, que vivem o verdadeiro sentido do nascimento do Salvador na manjedoura. Este outro grupo não corre à procura de coisas caras, mas oferece presente de dentro para fora, isto é, do seu coração para outros corações que, muitas vezes, não têm sequer um abrigo para passar à noite tão esperada.

São presentes que edificam a alma. Mais para quem dá do que para quem recebe. Fica a pergunta: qual é o seu presente de Natal?

Eis o meu presente de Natal…

As voluntárias Maria Dobeck e Ana Dutra, com uma paciente do HU, em Florianópolis

As voluntárias Maria Dobeck e Ana Dutra, com uma paciente do HU, em Florianópolis

Voluntariado

A vice-presidente da Associação Amigos do Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina (AAHU), Ana Maria Dutra, há 15 anos oferece como presente de Natal o seu trabalho voluntário aos pacientes internados.

Ela relata que em dezembro, os voluntários da associação promovem a festa de Natal na Unidade de Internação Pediátrica, com distribuição de brinquedos para as crianças. E os pacientes internados recebem uma lembrança. Neste ano serão em número de 180.

Casada e mãe de três filhos, Ana conta que nesta época os pacientes também recebem grupos que fazem as tradicionais serenatas natalinas. “Sentimos a emoção das pessoas que foram lembradas. Muitas são do interior do Estado e passam esta noite longe da família, sozinhas no leito do hospital. O voluntariado supre essa ausência e a dor da saudade. Na maioria das vezes, emprestamos nossos ouvidos a eles, que querem apenas desabafar”, afirma Ana Dutra.

Eis o meu presente de Natal…

Dona Irene (D), com Neuzeli, Juraci e Silvana, integrantes da Equipe Solidária, de Itajaí

Dona Irene (D), com Neuzeli, Juraci e Silvana, integrantes da Equipe Solidária, de Itajaí

Solidariedade

Em uma das noites de Natal, um carroceiro de Itajaí andava aparentemente sozinho pelas ruas do município de Itajaí. Foi abordado pela viúva Irene Furtado e um grupo de amigas aposentadas. Uma delas perguntou: “o senhor aceita um bombom”? Ele, muito feliz, levantou a lona da carroceria e lá estavam os filhos, a esposa e a sogra. “Para nós, aquela imagem era a representação da Sagrada Família de Nazaré. A alegria deste carroceiro com a família ao receber aquelas simples guloseimas, a felicidade era tamanha, que transmitiram toda a graça para nós. Sem dúvida, há mais alegria em dar do que receber”, comemorou a aposentada Irene, que faz parte da Paróquia São João Batista, bairro São João, em Itajaí.

O grupo de amigas aposentadas de Itajaí, “Equipe da Solidariedade”, há mais de 15 anos desenvolve este tipo de trabalho, silencioso, mas com muita dedicação, junto aos doentes e necessitados, não somente em dezembro, mas em todos os meses do ano.

Exatamente no próximo dia 24 de dezembro, logo após o almoço, Irene e as integrantes desta equipe vão levar cestas com alimentos especiais, já prontos, para 50 famílias de bairros com maior número de pessoas carentes. E à meia-noite, estas voluntárias ainda encontram disposição para sair em carreata distribuindo sanduíches e doces aos moradores de rua. “Mais do que alimento, levamos um abraço e um ‘feliz e santo Natal’”, admite.

Entre as muitas histórias, uma vez entregaram um bolo para um morador de rua, em uma noite natalina. E veio a surpresa: “Como vocês sabiam que eu fazia aniversário hoje?”, disse o jovem emocionado. “Passamos a entender que é o Espírito Santo que nos conduz. Não tem cansaço, vamos em grupo, uma abraçada na outra e, assim, abraçamos aos mais necessitados. Solidariedade é isso: sair para servir alguém que nunca foi servido”, conclui a viúva de 69 anos.

Eis o meu presente de Natal…

"Quem não conhece o perdão, não vive em paz", Pe. Francisco Wloch

“Quem não conhece o perdão, não vive em paz”, Pe. Francisco Wloch.

Perdão

O presente de Natal é de coração para outros corações, como já se afirmou. E para isto, o coração deve estar limpo de sentimentos ruins e disposto a amar. Na primeira carta de São Paulo aos Coríntios 13,1-13, sãp descritas de forma simples as características do amor e uma delas é o perdão. “Quem ama é paciente, tudo perdoa”, comenta o reitor do Seminário Menor Metropolitano Nossa Senhora de Lourdes e vigário paroquial do Santuário de Azambuja, em Brusque, Pe. Francisco de Assis Wloch, sobre esta passagem bíblica. “Crescer no amor é um processo que acontece a cada dia”.

Padre Chico, como é conhecido, ensina: “Quem não consegue perdoar, não vive em paz. Como recito diariamente na oração do Pai Nosso, peço perdão dos meus pecados, mas não receberei se não perdoar o meu irmão”.

É um exercício praticado durante toda a vida. “Perdoar o irmão, para também poder ser perdoado dos meus muitos pecados e fraquezas. Pecados pessoais, morais e pastorais. Considero pecado pastoral: não praticar o plano de pastoral da igreja, não participar da vida do clero, não por em ação as diretrizes pastorais. Não fazendo isso, prejudico a caminhada da Igreja e faço o corpo sofrer. Se um membro do corpo está doente, todo corpo sofre”, constata.

E para este Natal, o padre ordenado há 41 anos deixa a dica. “Nunca diga que não pode perdoar, mas sempre em seu coração: ainda não consegui perdoar, mas haverei de vencer essa batalha”.

Eis o meu presente de Natal…

Para Vandir, o amor não tem limite.

Para Vandir, o amor não tem limite.

Amor

O agente penitenciário Vandir Luz trabalha há 24 anos no Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico, em Florianópolis. Foram muitas noites de Natal em que ele deixou a família para cumprir a escala de trabalho em um ambiente com pessoas que cometeram delitos em ocasiões específicas, devido a problemas psicológicos ou sob o efeito do álcool e drogas.

Ele relata que é preciso muito amor para cuidar de pessoas assim. “Doamos o melhor de nós. Tem hora que a gente é psicólogo, pai, amigo, irmão, enfermeiro. Ajudamos o paciente a ver a vida de maneira diferente, que não é turbulência o tempo todo”.

Vandir, casado há 26 anos com Bazelícia, diz que viu muitos pacientes chorarem na noite de 24 para 25 de dezembro, de saudade da família, pela dor da solidão. “Isso nos entristece. Não estamos ali para julgar, isso cabe ao judiciário. Estamos ali para cuidar deles, garantir condição de sobrevivência e agir com misericórdia”.

Presentear o próximo com amor é o ano todo. Vandir salienta que “Natal é todo dia, porque devemos fazer coisas boas sempre. A gente pensa só neste período. E o resto do ano, você faz o que de bom e com amor? A vida é uma faca de dois gumes. Hoje você está de um lado, amanhã pode estar do outro. O segredo é o amor que muda todas as vicissitudes”.

Eis o meu presente de Natal…

Respeito

Denair (D) diz que é preciso se preparar espiritualmente para receber Jesus no Natal.

Denair (D) diz que é preciso se preparar espiritualmente para receber Jesus no Natal.

São muitos os presentes do coração que o ser humano pode oferecer ao próximo, em todos os momentos da vida. A secretária da Paróquia São Virgílio, em Nova Trento, Denair Scalvin da Costa, observa que o presente por ela oferecido é o respeito. “Respeito pelo verdadeiro espírito do Natal, data em que celebramos o nascimento do nosso Senhor Jesus. Devemos nos preparar espiritualmente para recebê-lo. Vê-se muita gente postando nas redes sociais, dizendo que a casa já está pronta para o Natal. Mas o que se encontra são papais noéis espalhados por todos os lugares. E o presépio, onde está”?, questiona Denair.

A secretária paroquial explica que orienta os três filhos jovens a se preparem espiritualmente através da confissão e da celebração da misericórdia, na Matriz de Nova Trento. A família também faz a coroa do Advento, a cada semana acende uma vela e reza em família. “Às vezes a filha não está, porque estuda e trabalha em Florianópolis, então meu esposo liga no celular dela, coloca no viva voz e ela participa. Isso é respeito para com esta data tão importante que para nós não é troca de presentes, mas Cristo que nasce em nossos corações”, cita Denair.

Feliz e abençoado Natal!!!

Matéria publicada na edição de número 230 do Jornal da Arquidiocese, dezembro de 2016, páginas centrais, 06 e 07

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