Práticas cristãs ganham novo impulso neste Ano da Misericórdia

 

A oração, a esmola e o jejum eram os atos de piedade do bom judeu (Mt 6,1-18) e diziam respeito à relação com Deus, com o próximo e com o próprio eu. Pela oração, confiamos em Deus. Pela esmola ou caridade, ajudamos o próximo. Pelo jejum, controlamos nossos instintos egoístas. A Quaresma é tempo propício para viver esses valores evangélicos.

Mafalda Pereira Böing: "Viver é orar e orar é viver".

Mafalda Pereira Böing: “Viver é orar e orar é viver”.

Oração é para corajosos

Teresa de Ávila, uma mulher que buscava a verdade, dizia que Deus não se nega àquele que o busca na sinceridade. “Eu preferiria que não tivesse oração a pessoa que não vai a Deus fundamentada, desde o começo, na verdade. Vida de oração é para pessoas corajosas que vão, enfrentam o mar”.

Santa Teresa de Ávila enfrentou muitos mares, principalmente no caminho espiritual, até ser conhecida como mestra da vida de oração. Quinhentos anos após o nascimento dela,  encontra-se uma discípula na Lagoa da Conceição, em Florianópolis. Aos 79 anos de idade (completa 80 em abril), é uma pessoa com desenvoltura, verdadeira, cheia de sabedoria e apurada memória. Casada há 57 anos com Albio Böing, Mafalda Pereira Böing tem a coragem e a determinação semelhantes a Teresa de Ávila. Mãe de sete filhos, sendo dois adotivos, a professora aposentada de geografia já escreveu nove livros, sete dos quais sobre diferentes invocações à Nossa Senhora.

Aos 11 anos de idade, quando foi estudar no internato em Lages (SC), aprendeu que a oração é a própria vida. “Fui uma criança doente e rezava muito para ficar curada”. Na voz de alguém que sabe onde quer ir, Mafalda relata que aprendeu com uma religiosa do internato que Deus está em todos os lugares, mesmo quando a gente está na pior. “Isso me deu a noção da presença de Deus companheiro, amigo”.

E assim já dizia Teresa de Ávila: “a oração é um trato de amizade com Deus”. Nesta experiência mística, Mafalda foi crescendo como amiga de Deus, através das missas dominicais, novenas, ladainhas. Não apenas na Quaresma, mas todos os dias do ano. “Em certos tratamentos, hospitais, consultas, eu sabia que Deus estava em tudo”.

Conversar com esta mulher é como ouvir o bate-papo dela com Deus e com Nossa Senhora, sobre a vida. “Viver é orar e orar é viver. Eu sinto isso. Eu e meu marido fomos descobrindo isso juntos”.

Oração: caminho de mudança

Na firmeza de uma mulher madura que passou por muitos sofrimentos – como, por exemplo, perder um filho aos 12 anos, vítima de um câncer –, Mafalda explica que a oração requer comprometimento. “Se a oração é a própria maneira de viver, não me ocorre dizer um palavrão. Quando dirijo eu canto, porque é como se fosse uma oração e, assim, fico pacificada no trânsito”.

A escritora cita outros exemplos. Nas viagens, reza o terço com a família ou com quem está no carro. Reza com a liturgia diária. “Aí encontro as soluções, sempre tenho uma luz para aquilo que estou procurando com a Palavra de Deus”.

Para esta Quaresma, vai aqui uma sugestão de prática indicada por Dona Mafalda para quando você for dirigir: cantar! “Obrigada, Senhor, porque és meu amigo, porque me escolheste, porque me chamaste. Obrigada, Senhor, porque moras comigo”, ela celebra. Teresa de Ávila também dá a dica: “O Senhor sempre dá oportunidade para a oração quando a queremos ter”.

Eliete Hoffmann Kuhn

Eliete Hoffmann Kuhn

Jejuar sim, desânimo para fazer, não!

Subir pela estrada que leva até a casa desta outra mulher é um convite a contemplar a beleza e simplicidade da natureza. Ao estar de frente com Eliete Hoffmann Kuhn, em São Pedro de Alcântara, nota-se que ela está em sintonia com a bela paisagem ao seu redor. E a primeira impressão é a que fica: de uma pessoa simples, sorriso fácil, que expressa simpatia através dos olhos azuis. Casada há 24 anos, mãe de três filhos, é a coordenadora de catequese da Paróquia São Pedro de Alcântara. Ela é quem conta sobre outra prática quaresmal, o jejum.

Há pelo menos seis anos na Quaresma, Eliete se anima e faz jejum nas quartas e sextas-feiras, e troca a carne por peixe ou ovos. “O Pe. Jorge Gelatti incentiva o jejum. O que tem de excesso na nossa mesa, vai para a de outro que não tem”. Os filhos e o esposo também vivem esse jejum quando almoçam em casa.

A catequista de Primeira Eucaristia afirma que aprendeu dos pais o jejum do alimento, mas com o incentivo do padre e a caminhada na Igreja, conheceu outros tipos de abstinência. E dá um exemplo: “deixar de ver um programa de TV”. Também procura não falar mal dos outros e incentiva as pessoas a rezar mais. Ela está em unidade com o evangelista Mateus que diz: “Quanto a esta espécie de demônio, só se pode expulsar à força de oração e de jejum” (Mt 17,20).

A penitência é um ato de união às dores de Cristo. Eliete explica: “Na verdade, a gente se policia com relação à língua, a reclamar e julgar menos. Me sinto mais renovada e perto do sofrimento de Jesus, na minha carne. Se chegássemos a passar um pouco o que Jesus viveu, o mundo seria um paraíso”.

Como catequista, a senhora Kuhn procura ensinar aos catequizandos a importância do jejum. “Jejum do vídeo game, do celular, do Whatsapp. Aquele dinheiro do picolé que ganham dos pais, incentivo a doarem na Coleta da Solidariedade, na Quaresma. Esta é uma forma de jejum e, ao mesmo tempo, de caridade”.

No período quaresmal, os três filhos de Eliete ainda fazem outro jejum. Deixam de tomar refrigerante, além de se comprometerem a participar de todas as missas aos domingos.

Misericórdia

Eliete Kuhn cita que o “jejum combina com a misericórdia, porque a partir do momento em que deixamos a misericórdia agir, passamos a jejuar mais e de diferentes formas, não só do alimento”. Para ela, “muita gente perdeu o sentido da misericórdia. O ano jubilar está aí para nos ensinar a ser misericordiosos”. E conclui: “O jejum purifica nossa vida. O Calvário de Jesus foi de fome e sede. E quando pediu água, o que deram? Vinagre. Custa jejuar uma hora, um dia? Se você fizer penitência e jejuar, vai sentir uma grande obra de purificação”.

Fernando Kirchner Souza

Fernando Kirchner Souza

Exemplo de caridade

Cada pessoa tem a sua personalidade. Tem quem seja tímido; há outros mais agitados. Porém, ao falar com Fernando Kirchner Souza, a sensação é de que a gente o conhece há muito tempo. Comunicativo, o contador de 27 anos é o coordenador dos Ministros Extraordinários da Sagrada Eucaristia e da Pastoral Juvenil, da Paróquia São Sebastião, em Anitápolis.

Estar atento ao próximo que necessita de ajuda material e espiritual, de uma palavra amiga ou um ombro para chorar ou, mesmo, para sorrir juntos, é meta frequente na vida do rapaz. Mais do que fazer caridade, para Fernando, essas situações significam um complemento para a vida. “Não é só sucesso profissional, mas a pequena coisa que falta. É a peça que se encaixa para preencher a minha vida e, mais ainda, a do outro”, cita.

Para este jovem, a caridade não se retém aos 40 dias da Quaresma, mas é vivida o ano inteiro. Toda semana, leva a Eucaristia para aproximadamente 30 doentes da paróquia. Afinal, esse é o serviço ao qual foi chamado. Mas Fernando, atento, vai além. Ele conta que, recentemente, uma senhora de uma das comunidades, de quase 80 anos, sozinha, não tinha televisão. O sonho dela era um aparelho de TV para assistir as missas. Ele doou uma TV que estava sem uso na sua casa e, ainda, conseguiu a doação de uma antena parabólica. “Não é só levar a comunhão, mas atender também a outras necessidades”.

Bombeiro voluntário, ele igualmente ajuda na Campanha Natal Solidário, para arrecadar brinquedos para crianças carentes de Anitápolis. Porém, a doação ao próximo não é só material. Ele observa que “muitas pessoas o procuram para pedir um conselho, principalmente, jovens com problemas familiares. Eu procuro cuidar do jovem, pastoreá-los”.

“Se cada um fizesse sua parte, muita coisa seria diferente, haveria menos desigualdade, pessoas vivendo melhor, mais felizes. Uma pequena coisa proporciona uma grande alegria”, enfatiza. Para Fernando Souza, a prática da caridade requer boa vontade, acima de tudo.

Matéria de capa do Jornal da Arquidiocese, de fevereiro de 2015, páginas 06 e 07.

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