Pe. Valter Goedert

A Quaresma é o tempo que precede e dispõe à celebração da Páscoa. Tempo de escuta da Palavra de Deus e de conversão, de preparação e de memória do Batismo, de reconciliação com Deus e com os irmãos, de recurso mais frequente às “armas da penitência cristã”: a oração, o jejum e a esmola (ver Mt 6,1-6.16-18).

De maneira semelhante ao antigo povo de Israel, que caminhou durante 40 anos pelo deserto para ingressar na terra prometida, a Igreja, o novo povo de Deus, prepara-se durante 40 dias para celebrar a Páscoa do Senhor. Embora seja um tempo penitencial, não é um período triste e depressivo. Trata-se de um ciclo especial de purificação e de renovação da vida cristã, para poder participar com maior plenitude e gozo do mistério pascal do Senhor.

A Quaresma é um tempo privilegiado para intensificar o caminho da própria conversão. A Quaresma é um tempo forte do ano litúrgico e isso deve ver-se refletido com intensidade em cada um dos detalhes de sua celebração. Quanto mais forem acentuadas suas particularidades, mais frutuosamente poderemos viver toda sua riqueza espiritual.


Sentido da Quaresma

O primeiro que devemos dizer é que a finalidade da Quaresma é ser um período de preparação à Páscoa. Por isso se está acostumado a definir a Quaresma, “como caminho para a Páscoa”. A Quaresma não é, portanto, fechada em si mesma ou apenas um tempo “forte” na espiritualidade. É, antes, um período de preparação, um tempo “forte” que prepara para um tempo ainda “mais forte”, que é a Páscoa.

Ainda como preparação para a Páscoa, a Quaresma se apoia em dois pilares: por uma parte, a contemplação da Páscoa de Jesus; e por outra, a participação pessoal na Páscoa do Senhor, através da penitência e da celebração ou preparação dos sacramentos pascais – Batismo, Confirmação, Reconciliação, Eucaristia.

A Quaresma é apropriada para cuidar da catequese e da oração das crianças e jovens que se preparam à Confirmação e à Primeira Comunhão; e para que toda a Igreja ore pela conversão dos pecadores.

 Devemos nos converter da visão de um Deus comum a todo ser humano à visão do Deus vivo e verdadeiro que se revelou plenamente em seu único Filho, Cristo Jesus, e em sua vitória pascal presente nos sacramentos de sua Igreja: “Tanto amou Deus ao mundo que deu o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha vida eterna” (Jo 3,16).

 A abstinência e o jejum

O jejum, tão característico da antiguidade neste tempo litúrgico, é um “exercício” que liberta voluntariamente das necessidades da vida terrena para redescobrir a necessidade da vida que vem do céu: “Não só de pão vive o homem, mas também de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4,4; ver Dt 8,3; Lc 4,4; antífona de comunhão do 1º Domingo de Quaresma).         

A abstinência proíbe o uso de carnes, mas não de ovos, laticínios e qualquer condimento à base de gordura de animais. São dias de abstinência todas as sextas-feiras. Devem fazer abstinência de carne: os maiores de 14 anos.

O jejum implica em fazer uma só refeição durante o dia, mas não proíbe tomar um pouco de alimento pela manhã e de noite, atendo-se aos costumes de cada povo e cultura, no que respeita à qualidade e quantidade. Devem fazer jejum os maiores de idade (18 anos) até os 59 anos.

A Confissão

A Quaresma é tempo penitencial por excelência e, portanto, propício para impulsionar a prática deste sacramento, já que a confissão sacramental é a via ordinária para alcançar o perdão e a remissão dos pecados graves cometidos depois do Batismo.

A Quaresma e a Piedade Popular

No Tríduo Pascal, a Sexta-feira Santa é dedicada a celebrar a Paixão do Senhor, é o dia por excelência para a “Adoração da Santa Cruz”. Entretanto, a piedade popular deseja antecipar a veneração cultual da Cruz. De fato, ao longo de todo o tempo quaresmal, nas sextas-feiras, que por uma antiquíssima tradição cristã é o dia comemorativo da Paixão de Cristo, os fiéis dirigem com gosto sua piedade para o mistério da Cruz.

A leitura da Paixão, de grande sentido doutrinal, atrai a atenção dos fiéis tanto pelo conteúdo como pela estrutura narrativa, e suscita neles sentimentos de autêntica piedade e o arrependimento das culpas cometidas, porque os fiéis percebem que a morte de Cristo aconteceu para remissão dos pecados de todo o gênero humano

Entre os exercícios de piedade com que os fiéis veneram a Paixão do Senhor, há poucos que sejam tão estimados como a Via Sacra. Através deste exercício, os fiéis percorrem, participando com afeto, a última parte do caminho trilhado por Jesus durante sua vida terrena.

A Virgem Maria na Quaresma

No plano salvífico de Deus (ver Lc 2,34-35) estão associados Cristo crucificado e a Virgem dolorosa. Como Cristo é o “homem de dores” (Is 53,3), por meio do qual se agradou Deus em “reconciliar consigo todos os seres, os do céu e os da terra, fazendo a paz pelo sangue de sua cruz” (Col 1,20), assim Maria é a “mulher da dor”, que Deus quis associar a seu Filho, como mãe e partícipe de sua Paixão. Dos dias da infância de Cristo, toda a vida da Virgem, participando do rechaço de que era objeto seu Filho, transcorreu sob o sinal da espada (ver Lc 2,35).

Por Pe. Valter Goedert
Diretor da Escola Diaconal São Francisco de Assis

A vivência do tempo quaresmal

O Jornal da Arquidiocese buscou depoimentos de alguns leitores acerca de propósitos práticos que assumem a partir da Quaresma, para a vida toda.


André de Oliveira
Engenheiro de controle e automação
Participa da Renovação Carismática Católica
Paróquia Santo Antônio, Itapema


“Faço o propósito de cuidar mais da família, da nossa casa e aumentar a intimidade com Deus, através da oração pessoal. Impulsionado pela palavra do Evangelho de Mateus que diz: “Todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, se faça vosso servo” (Mt 20,26b), assumi o compromisso de servir minha casa, minha família e ao Senhor. Como jovem recém-casado com a Micaela, muitas responsabilidades surgem. Então, assumi o compromisso de ajudar na faxina, na organização, cozinhando, entre outras atividades. E, por fim, assumi o propósito de ser fiel à minha vida de oração, aproximando-me mais de Deus”.

Eliane Andrade Antunes
Aposentada
Coordenadora da Pastoral Litúrgica da Matriz
Paróquia Nossa da Imaculada Conceição, Angelina

“O tempo da Quaresma me chama e convida a mudanças de atitudes, e a gestos concretos de vida. Faz um apelo constante para a conversão, é um despertar para o projeto de Jesus! É ouvindo e acolhendo sua Palavra, que me coloco a serviço da missão. Meu compromisso é de viver a fé, o amor e a caridade, não somete nos 40 dias da Quaresma, mas o ano todo. Busco tomar uma atitude real de escutar o Evangelho e levá-lo para a prática. Como exemplo prático, rezo o terço todos os dias subindo a gruta de Angelina, observando a via-sacra. Também sempre busco ajudar meu próximo. Estou à disposição de quem precisar, não devemos deixar que o próximo se sinta só. Sempre estou à disposição das pessoas e da Igreja na missão, para quem vier em meu auxílio”.


Marcos Pinotti
Professor de geografia e história
Participa do Movimento Ovisa
Paróquia São Judas Tadeu, Brusque

“Quaresma, tempo de reflexão e recolhimento. Um momento que nos leva à reflexão sobre nossas atitudes, não esquecendo de nossas raízes no cristianismo, mas interligando as experiências vividas desde nossa infância com a sociedade atual. Em nosso dia a dia deveremos tomar cuidado em compartilhar esse momento, sem defender partido ou credo, onde o importante está centrado na valorização do ser humano buscando a união, o respeito, a inclusão, a harmonia, a esperança, a fraternidade, a justiça, a compreensão. Caminhando juntos em busca do amor. Por isso, no que se refere às políticas públicas atualmente, requer uma reflexão mais profunda, em prol de uma sociedade mais justa e fraterna”.


Matéria publicada no Jornal da Arquidiocese, edição 254, março de 2019, páginas 6 e 7

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