"Deus nos deu a maravilha da criação não para explorá-la, mas sim, para amá-la e levá-la a sua perfeição". Papa Francisco

“Deus nos deu a maravilha da criação não para explorá-la, mas sim, para amá-la e levá-la a sua perfeição”. Papa Francisco

A Campanha da Fraternidade (CF) de 2017 teve início no país na Quarta-feira de Cinzas, 1º de março. Na Arquidiocese, na mesma data, o Arcebispo concedeu uma coletiva de imprensa para apresentar a campanha, cujo tema é: “Fraternidade: Biomas brasileiros e defesa da vida”, e o lema: “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2,15).

O objetivo geral é cuidar da criação, de modo especial, dos biomas brasileiros, dons de Deus, e promover relações fraternas com a vida e a cultura dos povos, à luz do Evangelho. São seis biomas a serem preservados: Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pantanal e Pampa.

O que é Bioma?

Eunice Antunes Kerexu Yxapyry

Eunice Antunes Kerexu Yxapyry

É o conjunto de ecossistemas, uma comunidade de plantas e animais, geralmente de uma mesma formação. O cristão acredita que todos os biomas foram criados por Deus e foram dados como dons a cultivar.

Ele é o responsável por regular o fluxo dos mananciais hídricos, assegurar a fertilidade do solo, controlar o equilíbrio climático, e proteger escarpas e encostas de serras. “O importante em um bioma é que cada espécie de vida depende das outras para se desenvolver. Para nós catarinenses é importante conhecer o bioma da Mata Atlântica, onde estamos situados”, ressaltou o Arcebispo, Dom Wilson Tadeu Jönck.

A maior biodiversidade da América do Sul

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Jaci e o povo Laklano/Xokleng partilham saberes

A Mata Atlântica é uma faixa que acompanha o litoral brasileiro, desde o Rio Grande do Norte até o sul do Brasil. A maior biodiversidade da América do Sul está presente neste bioma. Vivem na Mata Atlântica, 20 mil espécies de plantas (7,2% do total mundial), 263 espécies de mamíferos (5,2%), 963 espécies de aves (9,5%), 475 espécies de anfíbios (8,6%), 306 espécies de répteis (3,7%) e 350 espécies de peixes de água doce (3,1%).

Aproximadamente 120 milhões de brasileiros vivem na porção do território correspondente à área original deste bioma. Hoje, a Mata Atlântica é o segundo bioma mais ameaçado do mundo.

Santa Catarina

O Estado está localizado dentro do bioma da Mata Atlântica. A vegetação desta mata apresenta aspectos distintos, como floresta, araucária e mangue. Nela, os rios, que exercem um papel importante, foram os mais maltratados.

Em Santa Catarina há os rios que correm para o oeste e ajudam a formar a bacia do Rio da Prata. Formado pelo Pelotas e pelo Canoas, o rio Uruguai recebe vários afluentes. O outro é o rio Iguaçu, que recebe águas do rio Negro e outros. Os outros rios se dirigem ao leste, diretamente ao Oceano Atlântico. Os principais são os rios Itapocu, Itajaí, Tijucas, Cubatão, Tubarão, Araranguá e Mampituba.

Kerexu e professor Jaci animam debate internacional sobre medicinas, no Centro Cultural Tataendy Rupa

Kerexu e professor Jaci animam debate internacional sobre medicinas, no Centro Cultural Tataendy Rupa

O povo guarani explica a Mata por si mesma

Eunice Antunes Kerexu Yxapyry, 37 anos, é indígena do povo Guarani e mora em uma aldeia localizada no Morro dos Cavalos, em Palhoça. Casada, mãe de dois filhos biológicos e outros dois adotivos, nasceu em uma aldeia do município de Entre Rios (SC).

Ela cursou licenciatura intercultural indígena do sul da Mata Atlântica, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), no eixo Gestão Ambiental. Atualmente trabalha na coordenação da Escola Itaty, voltada para os indígenas, no Morro dos Cavalos.

                O bioma da Mata Atlântica é muito rico e importante para os índios. “Tudo no mundo tem vida, porque foi criado pelo mesmo Deus e sustentado pela Mãe Terra. Nossa relação com tudo que tem vida é nesse sentido de respeitar e proteger, é a nossa família. Ao proteger a natureza, você se protege. Destruindo-a, você se destroi. Ao se destruir uma vida, vai ter consequências”, adverte.

Protetores e protegidos pelos biomas

Coleta de materiais no Rio Canoas em ambiente de Floresta Ombrófila Mista, em Urubici.

Josiane na coleta de materiais no Rio Canoas em ambiente de Floresta Ombrófila Mista, em Urubici.

O doutor em Teologia e Culturas e coordenador do Programa UNISUL/Revitalizando Culturas, Jaci Rocha Gonçalves, relata que a lembrança dos povos originários na Campanha da Fraternidade de 2017 sobre biomas brasileiros e defesa da vida é uma opção sábia e necessária. “Sábia porque é um abraço aos 900 mil indígenas atuais restantes. Necessária, porque todos, de certa forma, são protetores dos biomas e protegidos pelos biomas”, sustenta Jaci.

Em Santa Catarina restam os Kaingang (região oeste), Laklaño/Xokleng (Alto Vale do Itajaí) e Guarani (Litoral). “Desde 1991, tenho aprendido, especialmente com o Guarani, eu, os alunos da Unisul e muitos visitantes das aldeias, a ter uma relação sujeito-sujeito, relação filial com a Mãe Terra, com os biomas e não mais de sujeito-objeto”, salienta.

O professor da Unisul e filósofo confirma que duas heranças residuais mostram qual a relação desses povos com os biomas do ecossistema: a primeira são os nomes com que chamam as montanhas (Cambirela), rios (Biguaçu, Maciambu), pássaros (anu), peixes (cará), animais (tatu), árvores (guarapuvu), plantas medicinais, frutos (tucum). A outra é a herança cultural, exemplo, os nomes que conferem aos povoados: Biguaçu, Palhoça, Garopaba, Aririú etc. “Mexeu com o bioma, mexeu com a Mãe Terra, a mãe do indígena”.

Nas oito aldeias Guarani da Arquidiocese “há uma reciprocidade de amor: o indígena cuida de sua mãe e ela, no caso nosso, a Mata Atlântica, foi sua salvação. Também aqui foi no interior da floresta que mantiveram a resistência e os segredos culturais, linguagem e símbolos”, exemplifica Jaci Gonçalves, que trabalha com o povo Guarani há 30 anos.

Relação com o sagrado e outros comportamentos

O doutor em Teologia e Culturas aprendeu com eles que toda relação com o bioma passa pelo conceito de relação com o sagrado. “O Guarani não admite cerca na terra, porque ela é mãe; pede licença para cortar árvores, sempre e só na lua certa. Não admite separação entre os seres da mata: exige que a convivência no bioma seja respeitada como família. Não admite a propriedade particular: tudo é de todos; o uso depende da necessidade”, concluiu Jaci.

Ameaças do ecossistena em Santa Catarina

A professora do quadro permanente do Departamento de Engenharia Ambiental e Sanitária, da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), em Lages, Josiane Teresinha Cardoso, enumera as principais ameaças do bioma da Mata Atlântica em Santa Catarina:

– Supressão de áreas nativas para fins de expansão urbana, com destaque para a região litorânea e do Vale do Itajaí;

– Substituição da vegetação nativa por espécies exóticas, seja através do plantio de monoculturas para fins madeireiros ou agrícolas, ou para expansão pecuária, observados principalmente nas regiões serranas e no oeste.

– Construção de represas para a produção de energia elétrica, associada a várias bacias hidrográficas.

– Cultura da caça ilegal, prática essa ainda bastante comum em várias regiões.

– Grande deficiência em termos de saneamento básico, o qual gera resíduos que produzem aumento da poluição e degradação de rios e do solo em todo o Estado.

Organizações e trabalhos de preservação

Josiane Cardoso, também doutora em Entomologia pela Universidade Federal do Paraná, constata que várias organizações e universidade desenvolvem estudos e práticas a fim de aumentar o conhecimento da Mata Atlântica ou garantir-lhe a preservação:

– Instituições de Ensino e Pesquisa como UDESC, UFSC e FURB, entre outras, têm conduzido projetos de levantamento e estudos da flora, fauna e demais componentes dos ecossistemas.

– A recuperação ambiental feita pela Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida (APREMAVI), a qual se destaca no desenvolvimento e aplicação de estratégias para recuperação de florestas, além de dar suporte aos proprietários rurais, empresas e prefeituras em projetos de desenvolvimento sustentável.

Como cuidar da Mata Atlântica

A professora Josiane enumera atitudes do dia-a-dia que podem e devem ser adotadas pelas pessoas, a fim de contribuir para a preservação do bioma da Mata Atlântica:

NÃO FAZER LIGAÇÕES CLANDESTINAS DE ESGOTO DOMÉSTICO EM CÓRREGOS OU ECOSSISTEMAS MARINHOS, COMO PRAIAS E MANGUEZAIS. 

RACIONAR O CONSUMO E REAPROVEITAR MATERIAIS EM CASA PARA DIMUNUIR A EXTRAÇÃO DE MATÉRIA PRIMA. 

ECONOMIZAR ÁGUAS E ENERGIA ELÉTRICA, O QUE DIMUNUI A DEMANDA E A NECESSIDADE DA CONSTRUÇÃO DE NOVAS HIDRELÉTRICAS E CENTRAIS DE TRATAMENTO. 

DAR PREFERÊNCIA AS ESPÉCIAS NATIVAS DE PLANTAS FRUTÍFERAS E ORNAMENTAIS NAS CASAS.

Matéria publicada no Jornal da Arquidiocese, edição de março de 2017, páginas centrais, 06 e 07.

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