Leia o Sermão do Encontro da 257ª Procissão do Senhor dos Passos

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Leia o Sermão do Encontro da 257ª Procissão do Senhor dos Passos

Por Pe. Hélio Luciano

Querido Arcebispo, Dom Wilson, sacerdotes e diáconos, irmãos da Irmandade do Senhor Jesus dos Passos, demais autoridades e fiéis todos aqui presentes. Estamos aqui reunidos nesta Procissão do Senhor dos Passos, nesta Procissão do Encontro, promovida pela Irmandade do Senhor Jesus dos Passos na sua 257ª (ducentésima quinquagésima sétima edição) – realiza-se há mais de dois séculos e meio.

Nesta procissão do Encontro estamos chamados a ver, nesta cena aqui presente diante de nós, não somente um evento cultural já secular…não somente duas imagens históricas que se encontram…nem mesmo somente uma devoção popular. Somos chamados a ver – e a viver – nesta cena, nesta procissão, uma expressão profunda do amor de Cristo…do amor da Cruz… e da resposta de amor de Nossa Senhora. Aqui, diante dos nossos olhos, manifesta-se a encarnação mesma do Amor em um momento histórico em que o Deus do Universo expressa, de forma material e encarnada, o seu amor. Aqui se dá uma das grandes manifestações daquelas palavras tão profundas do evangelista São João quando diz: Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim (Jo 13, 1) – que não é até o fim temporal da sua vida terrena, mas o fim aqui significa que amou até o extremo de que um Deus é capaz de amar. Qual poderia ser o limite do amor de Deus?

E Deus não quis que este amor infinito fosse vivido somente como uma ideia, um sentimento. Nesta cena em que não somente os olhos, mas o coração de um filho e de uma mãe se encontram, Jesus deixa claro que nos ama de modo real, concreto, histórico, material. Um amor que dói…um amor que sente…um amor que vive até a última gota de sangue. Para dizer a ti e a mim, que somos amados e que este é o modo verdadeiro de amar. Cristo não morreu pela humanidade, mas morreu numa cruz por ti e por mim…por cada um de nós. Santo Agostinho dizia: quer saber o que vale um cristão…um cristão vale um Cristo crucificado! Tu e eu valemos o amor de Cristo na cruz. E sim, sabemos que este amor de Cristo venceu! Proclamamos em alta e sonora voz: O AMOR DE CRISTO VENCEU A MORTE, VENCEU O PECADO! Mas este amor de Cristo que venceu a morte, deve agora ser vivido por nós também de modo encarnado, como o fez o próprio Senhor. Cristo se encarnou no seio de Nossa Senhora –mistério que lembrávamos ontem–, nasceu de modo físico, morreu numa cruz e ressuscitou, transformando a vida de cada um de nós em vida de amor de Deus –se assim o quisermos–. Esse querer viver o amor de Deus se trata da nossa resposta amorosa a um Deus que nos ama. Se trata de viver o amor, assim como Ele o fez. Portanto, se trata de viver um amor que também passará pela Cruz… um amor que também se encarnará na vida concreta de cada dia…um amor que também ressuscitará.

Nesta cena de amor, que vivemos aqui em forma de procissão, vemos também esta resposta de um modo perfeito. Vemos plasmada esta resposta amorosa neste encontro do coração de Nossa Senhora com o coração de seu filho Deus. Neste coração que se derrama de modo doloroso…nesta dor de amor de quem sabia, pela profecia de Simeão, que uma espada traspassaria a sua alma (Lc 2, 35) –manifestada nesta imagem de Nossa Senhora com essa espada que atravessa o seu coração amoroso e dolorido. Uma alma que sofre profundamente, mas que sabe onde está o amor… que sabe onde está a razão da sua vida…que sabe que ela é a mãe de Deus… que ela é mãe de Nosso Senhor e que, por mais que lhe doa, precisa se encontrar com o seu Filho. Caríssimos irmãos, não nos enganemos… o AMOR DE CRISTO VALE A PENA, VALE MUITO A PENA, MAS CUSTA! Esta resposta encarnada de amor de Nossa Senhora é também vista aqui, hoje, no coração de tantas e tantas mães aqui presentes… que dormem com os pecados, os problemas e as penas dos seus filhos e de suas famílias, mas que decidem, sobretudo, amar!

Caríssimos irmãos, como dizíamos antes, não é somente uma procissão… uma devoção popular… estamos diante de uma grande manifestação do próprio amor de Deus na entrega de toda a sua vida… estamos diante do amor de Deus que se encarna, que morre e historicamente ressuscita por amor a ti e a mim. Estamos diante da resposta amorosa da entrega total de Nossa Senhora, que ama até o ponto de parecer que não tem mais forças para amar.

E o que significa isso para nós! Não significa somente que fomos salvos pelo amor de Cristo. Este Amor se manifesta pra nós como uma necessidade de resposta, de modo muito concreto, na vida de cada um de nós. Isso significa que devemos corresponder também nós a este amor…que devemos também nós viver a encarnação de um amor real, de um amor verdadeiro, de um amor que passa pela cruz, mas que também vive da Ressurreição. De encarnar nas nossas vidas um amor que vive tristezas, mas que também vive alegrias…de um amor que se realiza de modo concreto e profundo na vida de cada um de nós.

Meus queridos irmãos sacerdotes, aqui presentes. Na nossa vida sacerdotal, presbiteral, esse amor se plasma na vivência profunda da palavra de Deus e, principalmente, da Eucaristia. Este amor se encarna no viver bem esta graça imerecida de trazer Jesus Cristo a este mundo. De entrar na vida eucarística e celebrar, como dizia São João Maria Vianney, cada missa como se fosse a primeira e como se fosse a última… de viver dessa Eucaristia…de transformar a nossa vida nessa Eucaristia…e de transformar a vida de todos aqueles que se aproximam de nós nessa intimidade profunda com o Senhor. Nosso zelo pastoral não vem das nossas ações, nem mesmo de projetos muito bem elaborados…nosso zelo pastoral é apenas uma consequência de um coração apaixonado por Cristo na Eucaristia. Deste coração tão enamorado por Cristo, é que o sacerdote busca, com todas as suas forças, conduzir aos fiéis a que também eles se encontrem com este amor…a que também eles se sintam amados por Deus…a que também eles transformem as suas vidas de modo radical e concreta neste amor. Um sacerdote vive para a Eucaristia e se mede por este amor. Meus caros irmãos sacerdotes, que sejamos almas eucarísticas…que sejamos vidas eucarísticas…que sejamos essa presença verdadeira de Deus neste mundo fazendo as vezes de Cristo na terra. Sim, com as nossas misérias…todos as possuímos…mas pedindo perdão a Deus por elas e levantando quantas vezes sejam necessárias, e depois amando profundamente e intimamente a Nosso Senhor na Eucaristia e na vida de cada uma das pessoas que o próprio Senhor nos confia.

Caríssimos irmãos da Irmandade de Nosso Senhor dos Passos. É uma grande graça de Deus poder contar com esta Irmandade histórica, já bissecular, na nossa Arquidiocese. Contar também com a promoção dessa grande manifestação da nossa fé –desta procissão de tantos anos e que atrai a tantos milhares de pessoas de todo nosso Estado– e com a grande obra que Deus os encarregou –o Hospital de Caridade–. Meus caros irmãos, vocês possuem uma responsabilidade muito grande. O chamado de vocês não é somente a de ser parte de uma Irmandade, não é somente na organização desta Procissão…não somente à administração de um Hospital. Sois chamados a algo muito maior. A missão de vocês é a de transmitir este amor de Deus manifestado nessas imagens, neste Encontro. Certamente tudo isso se trata de um elemento cultural –tanto as imagens, como a procissão– mas o amor de Deus pede que nem essa procissão, nem essas imagens e nem a Irmandade se convertam em museu. Soube que através do Pe. Willian a Irmandade tem vivido um lema nestes últimos meses: convém que Ele cresça e que eu diminua (Jo 3, 30). Trata-se exatamente de viver este lema de modo profundo. Caros irmãos, que cada irmão carregue no seu coração esta missão profunda –levar a todos o amor de Deus–…a Irmandade é e continuará sendo grande sempre que este ideal de levar o amor de Deus à nossa sociedade seja a finalidade da vossa missão e do vosso esforço. Que o amor de Cristo e a resposta amorosa de Nossa Senhora, representados nestas imagens seculares, sejam o retrato da vossa missão mais profunda. Encarnar o amor de Deus levando a tantas pessoas ao encontro com Cristo nesta procissão…encarnar o amor de Deus nesta missão tão concreta e viva que é o Hospital –marcadamente chamado de Hospital do Amor…Hospital de Caridade– que o próprio Deus os confiou como missão. Essa é a missão que Deus vos confia, meus irmãos, transformar o mundo em amor de Deus!

Esta cena do amor de Cristo e de Nossa Senhora também se encarna na missão daqueles que tem nas suas mãos o poder de governar…o poder de legislar…o poder de julgar. Assim que, a todos aqueles que se dedicam à promoção do bem comum e a todos aqueles que representam a nossa sociedade, a vossa missão também é a de transformar a realidade do vosso trabalho em amor de Deus. O Senhor confia nas vossas mãos a encarnação deste amor na promoção do bem comum…na organização da vida de tantas pessoas de todas as classes sociais…no transformar a realidade concreta de tantas pessoas necessitadas…na busca real de construir o bem comum. Que a vossa presença nesta procissão seja um desejo de viver este amor de Deus encarnado nesta missão que vos foi confiada. Que as colunas do Pálio, este pano que cobre ao nosso Arcebispo durante a procissão, carregados aqui por tantos políticos, não sejam simplesmente a materialidade de um Pálio físico. Que esses pilares frágeis, que sustentam este pálio, sejam imagem e símbolo da missão que o Senhor lhes confia na promoção do bem comum, principalmente daqueles que mais necessitam do vosso trabalho. Que represente a decisão de amar…de levar o amor encarnado de Cristo na melhoria de vida de tantas pessoas que necessitam. Que o poder, a polarização política, o bem pessoal não sejam o ideal desta nobre missão que Deus vos confia. Que o amor de Deus vos ajude a que vossas vidas não se limitem a um desejo de influir na sociedade, mas que o vosso poder seja para servir…para servir com amor…servir transformando a realidade concreta na radicalidade desse amor encarnado, sangrento e cruento que vemos aqui na imagem desta cena, a transformar o mundo em verdadeiro amor de Deus, ajudando essas pessoas que sangram no seu coração e nas suas vidas. Que a miséria seja banida…que a liberdade seja respeitada…que não matem as nossas crianças por políticas abortivas…nem permitam que confundam suas cabeças e a intimidade da sua vida afetiva pela ideologia de gênero. Rezamos nesta procissão – talvez aquela com maior participação de políticos do nosso Estado – para que esta missão que vos foi confiada seja vivida no amor de Cristo e respondida com amor nesta busca real pelo bem comum. No céu não apresentaremos cargos e nem conquistas políticas, mas sim aquelas obras de amor encarnado que vivemos e construímos nesta terra.

Por fim o amor de Deus manifestado nesta cena do Encontro de Maria Santíssima com Nosso Senhor, convoca também a todos os milhares de fiéis aqui presentes. Caríssimos fieis de tantas cidades…não fiquemos presos simplesmente a uma imagem e procissão históricas…nem mesmo no carinho que temos a estas imagens. Os milagres não são das imagens, mas do amor de Deus que se derrama em nossos corações (Rom 5, 5). Que a cena e as imagens desta procissão nos façam entender este amor de Deus plasmado no momento histórico em que Cristo se encontra com a sua Mãe, e que deve ser encarnado, também historicamente, na vida de cada um de nós. Que sigamos esta procissão, mas principalmente que voltemos depois para nossas casas, com a decisão de encarnar este amor. Que a dureza de um Filho que dá a vida por amor e de uma mãe que se encontra com a dor do seu filho nos ajude a entender que nosso amor a Deus não é um sentimento, mas uma decisão de transformar o mundo em amor de Deus. De entender que essa transformação do mundo em amor não se realiza em grandes obras, mas se manifesta na simplicidade da nossa vida corrente, na realidade mais concreta do nosso dia-a-dia. O amor de Deus se encarna sim na nossa vida de oração, de intimidade com Cristo na Eucaristia… mas também no amor de uma mãe acordando às 3h da manhã pra cuidar do seu filho que chora… também no trabalho de cada um de nós – seja varrendo uma casa, seja como um grande empresário – mas de entender que nosso trabalho bem feito transforma o mundo em amor de Deus. Caríssimos fieis, o amor de Deus não quer um pedaço da nossa vida, mas quer a nossa vida toda. Que encarnemos de verdade este amor de Deus nas 24h de cada um de nossos dias e que vivamos, de modo decidido, esta resposta de amor a um Deus que nos ama, mas uma resposta, assim como a deste Encontro, encarnada, real e verdadeira na vida de cada um de nós.

Que Nossa Senhora Santíssima, aqui representada na advocação de Nossa Senhora das Dores, nos ajude a que possamos, todos nós, assim como ela o fez, viver do amor de Deus e responder, de modo concreto e vivo, a este amor de Deus que nos ama.

Procissão do Senhor dos Passos

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