Isto é Corpus Christi: corpo, sinal e presença

Caros irmãos, infelizmente o cristianismo foi por vezes compreendido como uma religião que opõe o espírito à carne, que despreza o corpo e rejeita a dimensão corporal. Na verdade, o desprezo estóico do corpo se opõe à inspiração de Jesus e da Igreja, que proclamaram e continuam proclamando a religião do “corpo”, ou seja, do Deus encarnado na história dos homens. Por ser corpo, cristianismo torna-se um sinal e oferece presença. A ideia de “corpo”, “sinal” e “presença” nos ajuda a compreender a festa de Corpus Christi.

Corpus Christi é a festa do Corpo histórico e humano de Jesus, que amou, foi amado por muitos e também rejeitado, sofreu, foi crucificado, morto e ressuscitado. Corpo que se faz presente no meio de nós e por isso é também a festa do grande Corpo de Cristo que é a humanidade inteira, especialmente os que amam e sofrem como Ele no mundo: os enfermos e famintos, os rejeitados e encarcerados, os pobres e excluídos.

O “como Ele”, “com Ele”, “N’Ele” e “por Ele” nos faz estar e ser em comunhão com Ele. Assim Jesus, na Ceia, ao tomar o pão e o vinho em suas mãos, se oferece como comunhão de amor, por amor, no amor com cada pessoa que se coloca no seu caminho, como seu seguidor, como Cristão – alter Christus. Em comunhão somos sinais D’Ele no mundo.

Jesus, em toda sua vida, não anuncia um caminho separado da vida do mundo, não nos apresenta uma lei puramente social ou um novo princípio religioso. Ao contrário, em todo seu Evangelho, Jesus se revela a nós como corpo expansivo, sentido, compartilhado – Ele a videira e nós os ramos. Os Evangelhos nos apresentam Jesus no nível da corporalidade próxima: Ele olha, toca, acaricia, cura, ri, chora. Em Jesus vemos com maior profundidade nossa própria humanidade como espelho do seu corpo. Contemplando o corpo de Jesus, descobrimos sua presença e sua provocação em cada pessoa. N’Ele somos um corpo “cristificado” – somos seus sinais.

“Tomai, isto é o meu corpo”. O verbo aqui é mais do que aceitar e receber algo. Trata-se de uma íntima união na qual nos unimos ao Corpo e o Sangue do Senhor, nos  aderimos à sua pessoa e à sua mensagem, experimentamos sua intimidade e somos transformados por Ele. Por isso, comungar com Jesus é comungar com todos, porque Jesus nunca vem só: ele vem “corporativamente” como Igreja, como um único corpo no qual Ele é a cabeça.

O corpo é a primeira condição de “existir no mundo”, único modo disponível para nos relacionar-nos com o mundo, com os outros e com o que nos transcende. Como corpo oferecemos presença. Como corpo de Cristo no mundo, oferecemos sua presença no mundo. Podemos estar presentes de muitas maneiras, mas principalmente devemos ser presença, pois ainda que presentes realmente, podemos estar totalmente ausentes. A presença do Senhor é sempre total, pois sua dinâmica interior é sempre de entrega total por nós e cabe a nós acolhermos essa presença – física, real, espiritual, virtual, total!

Por: Pe. Luiz Harding Chang Fraternidade Santo Ivo

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