O que é indulgência?

A indulgência é a remissão da pena temporal devida aos pecados já perdoados quanto à culpa. Por ex., quando um assassino se confessa sinceramente arrependido ele é perdoado de sua culpa. Mas seu crime tem consequências negativas para ele mesmo, para os familiares da vítima e para toda a sociedade. Ele deverá prestar contas de tudo isso no julgamento diante de Deus, na purificação a ser feita quer aqui na terra, quer depois da morte, no estado do chamado purgatório. A Igreja, que é a comunhão dos santos, como rezamos no Credo, administra os bens da salvação, adquiridos por Cristo e ampliados pela santidade dos fiéis, e os distribui em favor de todos, sobretudo dos mais necessitados. Todos os fiéis, seguindo as determinações específicas dadas pela autoridade da Igreja, podem adquirir indulgências para si mesmos ou aplicá-las aos fiéis defuntos (ver Catecismo da Igreja Católica, n.1471-1472).

Indulgência para os doentes e os que se dedicam a cuidar deles

Um Decreto da Penitenciaria Apostólica, publicado no último dia 20/03, declara que, diante da emergência do Coronavírus, a Igreja oferece a possibilidade de obter a indulgência plenária para os fiéis enfermos com Coronavírus, para os profissionais de saúde, familiares e todos aqueles que cuidam deles, até mesmo com a oração. 

Para obter a Indulgência plenária, os doentes de Coronavírus, os que estão em quarentena, os profissionais de saúde e familiares que se expõem ao risco de contágio para ajudar quem foi afetado pelo Covid-19, também poderão simplesmente recitar o Credo, o Pai-Nosso e uma oração a Maria.

A indulgência plenária também pode ser obtida pelos fiéis que, no momento de morte, não tiveram a possibilidade de receber o sacramento da Unção dos Enfermos e do Viático: neste caso, recomenda-se o uso do crucifixo ou da cruz.

Indulgência para todos os fiéis

Também os fiéis que não estão afetados pelo Coronavírus, nem estão voltados aos cuidados deles, mas que estão, de qualquer modo, afetados pela situação de calamidade por causa desse mal, poderão alcançar indulgência plenária. A eles se pede que escolham entre várias opções: visitar o Santíssimo Sacramento ou a adoração eucarística ou ler as Sagradas Escrituras por pelo menos meia hora, ou rezar o Terço, a Via-Sacra ou o Terço da Divina Misericórdia, pedindo Deus, a cessação da epidemia, o alívio para os doentes e a salvação eterna daqueles a quem o Senhor chamou a si.

Normalmente para se alcançar a indulgência plenária é preciso participar da Missa e celebrar o sacramento da Reconciliação por meio da confissão dos pecados junto a um sacerdote. Desta vez, por causa da dificuldade e às vezes até mesmo a impossibilidade de participar da Missa e de encontrar um padre para confessar-se, a Santa Sé, por meio da Penitenciaria Apostólica, favorece que o fiel possa alcançar a indulgência assistindo, ao vivo, a Missa pela TV ou alguma rede social e fazendo sua comunhão espiritual e, no caso da confissão, servindo-se do recurso da contrição perfeita.

A comunhão espiritual

Na impossibilidade de comungar sacramentalmente o Cristo na Eucaristia, o fiel pode fazer sua comunhão espiritual. Nesse caso, é preciso que ele esteja em estado de graça, ou tenha, pelo menos, o desejo sincero de estar em comunhão com Deus e com a Igreja. Faz-se uma oração de arrependimento, seguida de uma oração de entrega da própria vida ao Senhor, de comprometimento em viver a comunhão com Cristo e com sua Igreja. A comunhão espiritual com o Cristo eucarístico pode ser expressa pela comunhão com Cristo presente na Palavra (por ex., na leitura orante da Palavra), em cada irmão, sobretudo o necessitado (por ex., no exercício da caridade fraterna e da solidariedade) e na própria cruz (por ex., na dor de não poder comungar o sacramento). São muitas as presenças do Senhor, que sempre nos acompanha em todos os momentos de nossa vida.

A contrição perfeita

Pode acontecer, como é o caso na situação atual, que os fiéis se encontrem na dolorosa impossibilidade de encontrar um padre, para confessar-lhe os pecados e receber dele a absolvição sacramental. Neste caso, recorre-se à contrição perfeita, isto é, a manifestação real de arrependimento, o desejo sincero de conversão e de mudança de vida, a confissão dos pecados diretamente a Deus e um sincero pedido de perdão. A contrição perfeita deve estar acompanhada pelo votum confessionis, ou seja, o desejo de confessar-se a um padre, a firme resolução de recorrer, o quanto antes, à confissão sacramental. Nesses casos, a contrição perfeita perdoa os pecados veniais e obtém também o perdão dos pecados mortais (ver Catecismo da Igreja Católica, n. 1452).

A companhia da Igreja

Nestes tempos de sofrimento, a Igreja oferece a todos a sua oração, sua comunhão e companhia. “O momento atual vivido por toda a humanidade, ameaçada por uma doença invisível e insidiosa, que há algum tempo entrou com prepotência na vida de todos”, afirma a Penitenciaria, “é marcado dia após dia pelo medo angustiado, novas incertezas e sobretudo pelo sofrimento físico e moral generalizado”. E conclui: “Nunca, como neste tempo a Igreja experimenta a força da comunhão dos santos, eleva votos e orações ao seu Senhor Crucificado e Ressuscitado, em particular o sacrifício da Santa Missa, celebrado diariamente, mesmo sem o povo, pelos sacerdotes” e como “boa mãe, a Igreja implora ao Senhor para que a humanidade se liberte desse flagelo, invocando a intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe da Misericórdia e Saúde dos Enfermos, e de seu Esposo São José, sob cuja proteção a Igreja sempre caminha no mundo”.

A celebração diante do Crucificado

Uma rica expressão desta companhia da Igreja foi o rito litúrgico do último dia 27 de março. Momento que ficará marcado na memória dos que acompanharam esta celebração: a liturgia da Palavra, a leitura do Evangelho da tempestade na barca, a homilia do Papa insistindo na presença de Cristo no meio de seu povo, as orações diante da imagem do Crucificado e de Maria, a adoração ao Santíssimo Sacramento e o clamor de súplicas e intercessões diante dele e, por fim, a Bênção Urbi et Orbi (para a cidade (de Roma) e para o mundo). Nesta ocasião o Papa concedeu indulgência plenária para todos os participantes, mesmo que a distância, deste evento de recolhimento e confiança, de humildade e graça.

Matéria publicada no Jornal da Arquidiocese no mês de abril

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