Em diferentes histórias, o amor de um Deus que não se cansa de manifestar compaixão

Misericórdia, segundo o Papa Francisco, é o ato último e supremo de Deus que vem ao encontro de cada pessoa. É o percurso que une Deus e o homem, porque abre o coração do homem à esperança de ser amado para sempre, apesar da limitação do próprio pecado.

No dia 08 de dezembro, o Pontífice abre oficialmente o Ano Santo. Na bula, que proclamou sobre este Jubileu Extraordinário, observa-se que “a misericórdia será sempre maior do que qualquer pecado. Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai. Com a sua palavra, os seus gestos e toda a sua pessoa, Jesus de Nazaré revela a misericórdia de Deus”.

Rosilene Alves, Instituto Pe. Vilson Groh

Rosilene Alves, Instituto Pe. Vilson Groh

“É com eles estar em família, quando muitos não têm mais”

A coordenadora da Casa de Acolhimento para Pessoas em situação de rua, Rosilene Maria Alves, vive diariamente, e não apenas no Natal, a misericórdia.

“O cara recaiu, mas vamos escutar e perceber o tempo das pessoas. É triste para alguém reconhecer a dor do vício e que é aquilo que o colocou na rua. Não só a drogadição, mas outras dores ele carrega”, afirma Rosilene, da casa no Monte Serrat, em Florianópolis. O local tem capacidade para abrigar 20 pessoas, homens e mulheres que perderam tudo e hoje vivem na rua. O foco deste trabalho que faz parte do Instituto Padre Vilson Groh é a possibilidade de inserção no mercado de trabalho e de devolução da dignidade perdida.

A teóloga explica que a misericórdia é a chance de dar acesso àquilo que as pessoas em situação de rua perderam pelo caminho. Hoje elas estão sem nada, até sem relacionamentos, pois a grande maioria apresenta problemas com a família.

“O Pai nos permite conviver com ele na forma humana, na pessoa de Jesus. Aqui falamos desse Deus feito homem. É com eles estar em família, quando muitos não têm mais. É saber que neste Natal eles não vão estar sós, mas com as pessoas daqui. Aquilo que tenho em mim e divido com eles. É se colocar nesse humano que sou eu e é ele”, comenta Rosilene, mais conhecida por Leninha.

Na Bula do Ano Santo, Francisco afirma isso em outras palavras. “Há momentos em que somos chamados, de maneira ainda mais intensa, a fixar o olhar na misericórdia, para nos tornarmos nós mesmos sinal eficaz do agir do Pai”.

“Quando vim para cá estava abandonado, desorientado. Aos poucos fui resgatando meus valores, minha dignidade”

Aldo Manoel de Amorim, Instituto Kairós - Centro de Tratamento Recanto Silvestre, Biguaçu

Aldo Manoel de Amorim, Instituto Kairós – Centro de Tratamento Recanto Silvestre, Biguaçu

O colaborador voluntário do Instituto Kairós, no Centro de Tratamento Recanto Silvestre, em Biguaçu, viu o rosto da dor e ao mesmo tempo, da esperança, no dia 08 de outubro de 2012, quando foi diagnosticado com câncer maligno de laringe. Começava então o tratamento com rádio e quimioterapia. Na época, Aldo Manoel de Amorim também colaborava com o Pe. Luiz Prim, no Centro de Tratamento Paz e Bem, Morro dos Cavalos, em Palhoça – atualmente as atividades daquele local estão centralizadas no Recanto Silvestre. No dia de São Brás do ano seguinte, 03 de fevereiro de 2013, Aldo fazia mais uma sessão de quimio no Centro de Pesquisas Oncológicas (Cepon), enquanto na mesma hora, Pe. Prim presidia uma Missa para os adictos. Em determinado momento, o padre pediu para todos intercederem pela cura do paciente. “A verdadeira graça aconteceu. Eu vi o rosto da misericórdia lá no Cepon. Com a agulha na veia, senti algo diferente. Fui saber dessa intercessão uma semana depois”, explica Aldo.

Alcoólatra desde os 13 anos, parou de beber em 2011, quando se internou no Recanto Silvestre. Hoje, aos 59 anos, ele faz exames regularmente e não tem mais o câncer. “O adicto chega destruído, deixado pela família, como foi meu caso, porque a dependência química é algo doloroso. Quando vim para cá estava abandonado, desorientado. Aos poucos fui resgatando meus valores, minha dignidade. Fiquei oito anos sem ver meus filhos. Hoje eles me chamam de pai novamente. Eu vejo a mão de Deus aginda todo dia aqui dentro. A cada passo, você vê o homem novamente em um lar, trabalhando, reerguendo-se”.

No próximo dia 08 de dezembro, o Papa Francisco vai abrir a Porta Santa, “será então uma Porta da Misericórdia, onde qualquer pessoa que entre poderá experimentar o amor de Deus que consola, perdoa e dá esperança”. Ele continua ao dizer que com a Porta Santa, temos “plena confiança de ser acompanhados pela força do Senhor Ressuscitado”.

Rosilene e Aldo tomaram a decisão de um dia adentrar também por uma porta: a da misericórdia e confiança em um Deus que ama e intervém, sempre em favor do ser humano.

Leondina de Souza Sônego, Lar Santa Maria da Paz, Tijucas.

Leondina de Souza Sônego, Lar Santa Maria da Paz, Tijucas.

“Eu aprendi a misericórdia de um ponto de vista religioso, mais profundo”

É por uma porta no Lar Santa Maria da Paz, em Tijucas, que todos os dias entra Leondina Fatima de Souza Sônego. Ao adentrar, Dina, como é conhecida, vê a misericórdia de Deus no rosto do idoso com ou sem dor, alegre ou triste, mas que a acolhe com um bom dia, “como se a gente fosse a própria família deles”.

A assistente administrativa do Lar em Tijucas cuidou do Monsenhor Afonso Emmerdoerfer durante um ano e oito meses, na fase terminal. Ele faleceu no dia 11 de dezembro de 2013. “Eu aprendi a misericórdia de um ponto de vista religioso, mais profundo. Eu como filha e ele como um pai espiritual. Como padre, ninguém sabia acolher como ele”, relata.

Dina diz que vê o rosto da misericórdia também nos olhos das pessoas que contrata para trabalhar. “Você nunca conhece uma pessoa quando oferece um trabalho. Depois você vai descobrindo que é uma vida muito sofrida. E, com o olhar de fé, você a acolhe com um trabalho e descobre que há uma história muito triste por trás”.

No Lar Santa Maria da Paz, Dina vive na prática o que cita o papa na Bula do Jubileu: “somos chamados a viver de misericórdia, porque, primeiro, foi usada misericórdia para conosco”.

São João Paulo II, na Encíclica “Dives in misericórdia” (sobre a misericórdia divina), indica que “o próprio mistério de Cristo obriga-me a proclamar a misericórdia como amor misericordioso de Deus”.

“O amor misericordioso de Deus realmente me alcançou, foi um consolo diante da perda do meu pai”

Cleonice Feller Ribeiro e a filha Eduarda, Itajaí.

Cleonice Feller Ribeiro e a filha Eduarda, Itajaí.

E no mistério do nascimento de Jesus nascia a única filha do casal Cleonice Feller Ribeiro e Giovane Ribeiro. Pertencentes à Paróquia São Vicente, em Itajaí, Cleonice conta que viu concretamente o rosto da misericórdia em 2011. Com três meses de gravidez, perdia o pai, em junho daquele ano. Porém, no dia 24 de dezembro nascia a Eduarda, com 3,1 kg e 49 centímetros.

“O amor misericordioso de Deus realmente me alcançou, foi um consolo diante da perda do meu pai. Não tem alegria maior do que o nascimento de um filho. Ainda mais, na véspera do nascimento do nosso Salvador”, descreve a mãe.

O modo como Deus ama

“Misericórdia”! É esse o modo de amar de Deus, segundo o Arcebispo de Florianópolis. Ele explica que, às vezes, o ser humano ama aquilo que é amável, que tem uma resposta gratificante. “Amar quando não vem nada em troca. Esse é o amor misericordioso. É desse jeito que devemos aprender, porque é assim que Deus nos ama. Se não aprendermos esse amor misericordioso, não aprenderemos o que é o cristianismo”, comenta Dom Wilson Tadeu Jönck.

“Deus é amor” (1 Jo 4,8.16), sinaliza Francisco na Bula do Jubileu do Ano Santo. Um amor que se tornou concreto em toda a vida de Jesus. Tudo em Jesus expressa misericórdia. “A sua pessoa não é senão amor, um amor que se dá gratuitamente. Os sinais que realiza, sobretudo para com os pecadores, as pessoas pobres, marginalizadas, doentes e atribuladas, são caracterizados pela misericórdia. Nele, nada há que seja desprovido de compaixão”.

images (1)Manjedoura da misericórdia

A palavra misericórdia tem origem no latim e é composta pelos termos latinos “miseratio”, derivado de “miserere” que significa “compaixão”. E “cordis”, derivado de “cor”, “coração”.   Em outras palavras, é a compaixão do coração. Ser misericordioso como Deus que é a eterna misericórdia e, assim, dar espaço no coração ao próximo e acolhê-lo em compaixão, apesar dos seus limites e fraquezas.

Deus, em sua infinita misericórdia para com a humanidade, enviou o Verbo para nascer do coração imaculado e compassivo de Maria Santíssima. Jesus Cristo, o Filho de Deus, nasceu na mais pequena simplicidade, uma manjedoura.

Para construir a manjedoura da misericórdia dentro de si, o ser humano precisa de pouca coisa física, mas de uma enorme montanha desta “compaixão do coração”. No Natal, mas também em todos os dias, Jesus nasce no coração de cada homem e mulher. E este coração precisa estar livre de tudo aquilo que possa impedir o nascimento do Filho de Deus. Jesus vai nascer, nada mais importa. É tempo de evangelizar, de ser e agir com misericórdia.

Segundo o Papa Francisco, há três modos de viver o Natal de forma digna: rezar, agradecer a Deus e ajudar os outros. “Rezemos nestes dias, demos graças a Deus e depois pensemos: como levar alívio a quem sofre? Ajudar os outros. Assim, chegaremos ungidos ao nascimento de Cristo, o Ungido”, afirmou Francisco.

Com oração, gratidão e misericórdia, a manjedoura estará pronta para receber Jesus Menino, o Filho do Deus vivo.

Matéria especial publicada na edição de dezembro de 2015, do Jornal da Arquidiocese, páginas 06 e 07.

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