Na manhã desta Terça-feira Santa, 07 de abril, o Arcebispo de Florianópolis, Dom Wilson Tadeu Jönck, scj, presidiu a Missa dos Santos Óleos na Catedral Metropolitana de Florianópolis. Está celebração só acontece uma vez no ano, durante a Quinta-feira Santa, contudo diante da realidade da quarentena Dom Wilson a antecipou em dois dias. Nela são consagrados os óleos que serão usados nos sacramentos da Igreja durante todo ano corrente.

O segundo ponto que torna está celebração tão especial é que em sua liturgia se comemora a instituição do sacerdócio. Porém, por conta da pandemia do COVID-19 a celebração não teve a presença dos sacerdotes da Arquidiocese nem de seus fiéis.  Para que os padres e leigos pudessem acompanhar a celebração e manter o isolamento social a Missa foi transmitida através do perfil da Arquidiocese de Florianópolis no Facebook. A Comunidade Divino Oleiro esteve junto a Assessoria de Comunicação da diocese durante a transmissão auxiliando na técnica e imagens.

Em sua homilia, Dom Wilson, lembrou com carinho de todos os sacerdotes da Arquidiocese que não puderam se fazer presentes na celebração e recordou como tal momento é tão importante para todos. “Este é um dia muito importante para a vida de cada um de nós. Todos os anos nos reuníamos aqui na Igreja Catedral e renovávamos as promessas sacerdotais. Trazíamos cada um dos nossos paroquianos em nosso coração e renovávamos a nossa disposição de construir a Igreja arquidiocesana de acordo com desígnios do Coração de Cristo” recordou o Arcebispo.

Confira na íntegra a homilia de Dom Wilson:

MISSA DO CRISMA – 2020

1 – Caros padres, diáconos e seminaristas

Inicialmente quero dirigir uma palavra a todos os padres da nossa Arquidiocese. Este é um dia muito importante para a vida de cada um de nós. Todos os anos nos reuníamos aqui na Igreja Catedral e renovávamos as promessas sacerdotais. Trazíamos cada um dos nossos paroquianos em nosso coração e renovávamos a nossa disposição de construir a Igreja arquidiocesana de acordo com desígnios do Coração de Cristo.

Quero dirigir uma palavra a todos os diáconos da nossa Arquidiocese. São uma presença tão importante na caminhada das nossas comunidades. Agradecemos pelo testemunho e o exercício do ministério em nossas comunidades. Estendo a minha saudação às esposas e aos filhos dos diáconos, presença tão importante na vida deles e que reflete nas ações nas nossas comunidades.

Saúdo também os nossos seminaristas. Estão com as famílias neste período de confinamento. A presença deles na missa do Crisma enchia de juventude e esperança o horizonte da caminhada da nossa diocese. Estão com as famílias, mas recebem lá algumas tarefas do curso de filosofia e teologia e são acompanhados pelos formadores.

2 – Sacerdócio no AT e no NT

No AT o sacerdócio era uma sucessão familiar. Vinha das tribos de Arão e de Levi. Os sacerdotes prestavam um serviço no templo. Exerciam uma função no culto. Sua atividade ia desde o abate dos cordeiros que eram oferecidos em sacrifício, até a incensação do Santo dos Santos. Sabiam o que fazer com o sangue e as carnes e também presidir momentos de oração. Não recebiam um território, viviam de Deus e para Deus, perante Deus.

Já o movimento liderado por Jesus era de leigos. Não havia sacerdotes. Cristo era o único sacerdote. Uma das missões de Cristo era constituir sacerdotes. Cristo destrói o templo. Ele, Cristo, se torna o templo e o sacerdote. Nele Deus é glorificado.

O sacerdote instituído por Cristo é chamado. É um elemento completamente novo e que dá uma outra compreensão de como exercer o sacerdócio. O primeiro passo é se identificar com a pessoa de Cristo e, como Cristo, fazer com que as pessoas sejam um com Cristo.

Mas o que é ser sacerdote de Jesus Cristo? A que coisa, nós sacerdotes, dissemos “sim”? O sacerdote não recebeu um território, uma propriedade. É chamado a estar na presença de Deus e para Deus. É chamado a colocar a Eucaristia no centro de sua vida sacerdotal. O sacerdote deve estar atento às potências do mal. Faz da sua vida uma busca da verdade; se empenha para realizar o bem em todas as situações; deve controlar as correntes do tempo em que vive. O sacerdote é chamado a cuidar de Cristo – da sua Palavra, da sua verdade, do seu amor.

A sua ação não é só o culto como no AT. O sacrifício que Cristo oferece a Deus é dar-se até o fim aos homens. É servir a Deus colocando-se ao serviço dos homens. Não é demais lembrar o que faz parte da vida sacerdotal:

– Celebrar bem a liturgia, os sacramentos, com participação interior;
– Unir a arte de celebrar com a arte de viver;
– Vida de oração – aprender sempre de novo a estar com o Senhor; separar-se das coisas do mundo;
– Buscar a obediência à vontade de Deus, O desejo do ser humano tende sempre a buscar a sua autonomia. O que leva à indiferença. Não a minha vontade, mas tua. É com esta atitude que Cristo vence a batalha contra o demônio e contra a rebelião do coração decaído.
– Às vezes é ir onde não queríamos. Isto faz parte do nosso servir. É o que torna a ser humano livre.

A oração sacerdotal do capítulo 17 de São João apresenta também algumas atitudes de Jesus que devem tornar-se atitudes nossas.

– O homem se torna santo na medida em que aprende a tomar consciência de que caminha na presença de Deus.
– Os discípulos são consagrados na verdade. Fazia parte da missão de Jesus incluir os discípulos na sua missão, de ordenar-lhes sacerdotes. São chamados a fazer o que Cristo fazia.
– O sacerdote é convidado a ser um homem novo, e o que purifica é a verdade.
– O sacerdote é ordenado a inserir-se em Cristo de tal forma que é Ele que fala e age em nós.
– Tornar-se uma só coisa com Cristo é superar aquilo que é só nosso. Implica um doloroso caminho de libertação e renovação. E dura a vida inteira.

A propósito da verdade – Uma das coisas que o pecado original estragou em nós é a busca da verdade. Ora a buscamos, ora nos afastamos. Não gostamos tanto da verdade. E uma das missões do sacerdote é restaurar no ser humano a busca da verdade. – O Espírito do Senhor nos ungiu para proclamar a liberdade aos presos e aos cegos a vista.

Veja só, o ser humano tem dificuldade com a verdade desde a infância. Para ela o pai é herói, a vida não tem fim, o seu poder é insuperável… É uma visão distorcida que precisa ser corrigida. Sabemos que gera dor e, às vezes, desnorteamentos, a descoberta da verdade. É uma experiência dolorosa. Mas o Evangelho garante: a verdade liberta.

Uma das missões do sacerdote é ajudar os seres humanos a conviver com a verdade das coisas fora de sei, como também da verdade sobre si mesmo. São tantas as pessoas que não conseguem conviver com a verdade. O caminho é uma conquista, e é preciso morrer para tanta coisa, para tanta coisa que é mera aparência. É o caminho da cruz, o mistério que celebramos nesta semana. Foi o caminho trilhado pelo homem Jesus. A nossa fidelidade passa pelo mesmo caminho, o caminho da cruz. Não somos tão santos quanto imaginamos, nem tão puros quanto aparentamos; não somos tão honestos e tão bondosos, nem tão fraternos e disponíveis. Também não temos uma vida de oração quanto deveríamos. Mas Deus conta conosco; somos vasos frágeis. Mas os apóstolos não eram melhores que nós. Foram fiéis na graça do Espírito Santo; a mesma graça que não nos faltará.

Queremos colocar sobre a cruz de Cristo o nosso ministério sacerdotal. Diante da cruz, todas a nossas dificuldades, nossas fraquezas, nossas incertezas recebem um significado. Unidos a Cristo queremos aprender a exercer o ministério sacerdotal. Também esta situação diante do Corona Vírus ganha um sentido na cruz de Cristo.

Ao cumprimentá-los no dia da instituição do sacerdócio, quero expressar o meu agradecimento pelo testemunho de vida e por todas as ações desempenhadas nas nossas comunidades. O tempo de “Coronavírus” pede de nós novas atitudes para exercer o ministério sacerdotal. O Papa Francisco diz que este tempo pede de nós “criatividade do amor” para preparar um tempo melhor. A todos Feliz Páscoa. Seja um tempo de vida nova, a vida conquistada por Cristo ressuscitado.

Dom Wilson Tadeu Jönck

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