Sinal de unidade e de nova esperança para a Igreja

 

Na última Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em abril, foi aprovado o Documento 105 “Cristãos Leigos e Leigas na Igreja e na Sociedade”, que tem o subtítulo: “Sal da Terra e Luz do Mundo (Mt 5,13-14)”. Na comissão central do tema participaram cinco bispos, dois teólogos e três leigos. O vigário geral da Arquidiocese, Pe. Vitor Feller, fez parte da comissão que ajudou a elaborar o texto.

Distribuído em 151 páginas, o conteúdo está formatado em três grandes partes. O “ver” – sobre a realidade dos leigos na Igreja e no mundo; o “julgar” – o lugar, a dignidade e a missão dos leigos – e, por fim, o “agir” – a missão dos leigos na Igreja e, principalmente, no mundo.

Padre Vitor destaca que uma novidade do Documento 105 é apresentar o cristão leigo como sujeito, no sentido de ter identidade, vocação, espiritualidade e missão próprias dentro da Igreja. “Leigos e leigas não são cristãos de segunda categoria, de menos dignidade em relação aos bispos e aos padres. Aquilo que diz respeito à dignidade e igualdade é comum a todos. Uma só missão, que é a evangelização. A diferença vem depois, nas funções, nos serviços, nos ministérios que cada um ocupa”, frisou o vigário geral.

Ainda segundo Pe. Vitor Feller, “leigo e leiga é um sujeito eclesial, alguém que tem dignidade própria, específica no interior da Igreja”. Assim, “inúmeros leigos e leigas competentes nos diversos setores da sociedade – professores, médicos, cientistas, psicólogos, comunicadores, profissionais em diferentes áreas – brilham com sua competência, sua fé e seu humanismo” (Doc. 105, 33).

O leigo na gestão pública e como agente cultural

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Carlos Eduardo de Souza

Convicto do papel do leigo na Igreja e na sociedade, o jornalista Carlos Eduardo de Souza Martins, 34, morador de São José e ex-superintendente da Fundação Municipal de Cultura e Turismo do município, é um exemplo de cristão leigo. Solteiro, ele participa da liturgia e do grupo de oração da Renovação Carismática Católica (RCC), da Paróquia de São José.

O jovem explica que “o cristão leigo é enviado a ser ‘sal da terra e luz do mundo’, para que assim, toda sua ação e intervenção na sociedade seja orientada por essa ordem e envio de Jesus”.

Enquanto gestor público e agente cultural, ele tem consciência e se empenha para a manutenção das identidades culturais que formam o povo peregrino. “Sempre que tive o dever de gerir ações culturais, levei em consideração o ensinamento de São Luiz Orione: ‘a unidade na multiplicidade constitui a força de um povo, a força da sociedade e da comunidade’. Essa força passa pela cultura e sua multiplicidade”, constata.

Ainda de acordo com Carlos Eduardo, “a vida pública precisa ser encarada realmente como serviço. É o nosso verdadeiro testemunho cristão no cotidiano, permeado e orientado pelos nossos valores e pela Doutrina Social da Igreja, que pode dar tais respostas à sociedade. Conscientes de que compomos um Estado laico, nos inserimos nos espaços públicos, não como doutrinadores, mas como agentes públicos a serviço da casa comum, promovendo ações e propostas esperadas pela sociedade sofrida”, conclui.

Na educação, o testemunho da fé

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Nilcéa Lemos Pelandré

“O cristão leigo é verdadeiro sujeito na medida em que cresce na consciência de sua dignidade de batizado, assume de maneira pessoal e livre as interpelações da sua fé, abre-se de maneira integrada às relações fundamentais – com Deus, com o mundo, consigo mesmo e com os outros – e contribui efetivamente na humanização do mundo, rumo a um futuro em que Deus seja tudo em todos” (Doc. 105, 124).

Um relato da área da educação vem da professora universitária aposentada, Nilcéa Lemos Pelandré, 65. Casada há 42 anos com Miguel Pelandré Perez, ela tem como princípio básico que sua responsabilidade como educadora não pode ter outro fundamento senão o de humanizar ainda mais o humano, por meio da formação profissional e dos ensinamentos que desenvolve. “Todas as minhas ações como formadora de professores seguem essa linha, na especificidade dos conteúdos com os quais trabalhamos. Ensinar e educar pelo respeito ao próximo, pela valorização das pessoas”, observa.

“Como procuro ver o rosto de Deus em meus semelhantes, não há outro modo de agir profissional e nas interações sociais que não pelo respeito e valorização à dignidade de cada pessoa, pelo respeito à natureza, pela valorização do trabalho e do esforço do próximo”, expõe a professora que participou das equipes de Nossa Senhora, durante mais de 35 anos.

A professora de cursos de graduação e de pós na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), hoje, aposentada, continua o trabalho, mas como professora voluntária em cursos de formação continuada de professores. No tempo em que lecionou e, ainda agora, tem oportunidades de expressar e testemunhar sua fé: “Aprendi com o professor Carlos Martendal que se pode também dar testemunho do nosso amor a Deus e ao próximo, em gestos muito pequenos, corriqueiros de nossa existência. Entendo que ao se exercer a cidadania, pensando-se no bem comum e no amor ao próximo, se está vivendo o Evangelho”.

Essa cristã leiga, que participa também do Movimento de Emaús e, com o esposo Miguel, da Irmandade da Nossa Senhora da Imaculada Conceição, procura “animar e alimentar a fé participando de grupos de estudo, reflexão e oração”. E acrescenta: “Hoje, sempre que possível, procuro colaborar com obras de formação e sociais da Igreja”.

Nos bastidores da notícia, a prevalência dos valores cristãos

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Sonia Marisa de Campos

Outro exemplo de cristão leigo, agora na área da comunicação. A jornalista Sonia Marisa de Campos, 37, é casada com Alessandro e tem um filho de um ano e 11 meses. Frequenta a Paróquia Santo Antônio, centro da Capital, e diz que busca em todos os momentos da vida levar uma rotina que seja coerente com a fé que tem. “Tento demonstrá-la não só quando vou à igreja, mas também na minha casa, no meu trabalho e no meu lazer. Busco mostrar com minhas atitudes que Jesus é o centro da nossa vida. No meu trabalho, ao noticiar os fatos, deixo sempre prevalecer os meus valores cristãos. Dessa forma, acredito chegar mais perto da imparcialidade e da verdade”, argumenta a comunciadora nascida em Lages (SC).

Como cristã leiga no meio secular em que trabalha, Sonia Campos acredita na força da Igreja missionária e evangelizadora na qual todos têm uma função. “Todos somos Igreja e devemos agir assim não só dentro dela, mas, principalmente, quando estamos em outros locais. No meu trabalho, busco na minha convivência com os colegas, levar os ensinamentos do Evangelho. E nas minhas reportagens faço ecoar valores universais que têm como princípios o amor, o respeito e a solidariedade com o próximo”, assegura a jornalista.

O papel do leigo nos Conselhos de Direitos

“É nosso dever como cristão desempenhar na sociedade, nosso papel como evangelizador. Viver no Reino de Deus, um reino de paz, amor, verdade, justiça e de liberdade”.

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Osvaldina Zucco Weber

Com essas palavras, a coordenadora da Pastoral da Pessoa Idosa (PPI), Osvaldina Zucco Weber, se aproxima dos idosos mais necessitados, daqueles menos lembrados e assistidos.

A principal atividade da PPI é a realização de visitas domiciliares mensais às pessoas idosas, preferencialmente as mais vulnerabilizadas. “O tempo nos mostrou que os idosos que visitamos nos ajudam a experimentar a proximidade da sabedoria de Deus”, afirmou Osvaldina.

“Nos Conselhos de Direitos há um grande espaço para os cristãos leigos se empenharem por políticas públicas em favor da saúde e da educação, do emprego e da segurança, dentre outras áreas. São espaços para defender políticas públicas em favor das mulheres e dos idosos” (Doc. 105, 265). Assim, os voluntários da pastoral participam, também, nos Conselhos Estaduais do Idoso, da Saúde e da Assistência Social. E, no município de Florianópolis, têm cadeira no Conselho do Idoso e no da Saúde.

Como Conselheira Titular da PPI, já na segunda gestão, Osvaldina Weber representa a CNBB no Conselho Estadual do Idoso. “A participação nesses espaços contribui para a efetivação de políticas públicas, na defesa e construção dos direitos, somando esforços no enfrentamento de questões relacionadas à violência e maus tratos”, conclui a coordenadora.

Carlos Eduardo, Nilcéa, Sonia, Osvaldina, e tantos milhares de cristãos se ofertam na Igreja e na sociedade, para que Cristo seja reconhecido. Para os leigos, o Papa Francisco deixa a dica: “Peçamos ao Senhor a graça de ser batizados corajosos e confiantes em que o Espírito, que temos em nós, recebido no Batismo, nos incentive sempre a proclamar Jesus Cristo com nossa vida, com o nosso testemunho e também com as nossas palavras”.


SERVIÇO

O Documento 105 da CNBB –  “Cristãos Leigos e Leigas na Igreja e na Sociedade” pode ser adquirido em livrarias católicas ou na Coordenação Arquidiocesana de Pastoral.

 

Matéria publicada no Jornal da Arquidiocese, edição 225, julho de 2016

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