O salmo 139 manifesta com maturidade, profundidade e beleza a onipresença, onisciência e onipotência de Deus. O tema da onipresença divina é recorrente na literatura sapiencial (cf. Jó 5,9; 11,7-8; 23,8-17; 25,2-3; 26,6-7; 36,26; Is 40,28; Sir 43,31-32). Esses elementos sugerem situá-lo em um contexto pós-exílico, onde se lutava para reconstruir o patrimônio de fé e manter a identidade. Nosso salmista não pretende apresentar atributos filosóficos de Deus, e nem mostrá-lo como um “big brother” que tudo observa, muito menos um controlador imperial nos moldes de Senaqueribe (cf. 2Rs 19,27), mas sim como uma participação afetiva e paterna que possui por objeto a salvação e a libertação do ser humano. O salmo é uma contemplação, uma meditação de cunho sapiencial bíblico sobre Deus e sua relação com a humanidade.

Ele se estrutura em quatro partes: a) 1-6 (o conhecimento divino): nada escapa a Deus! “Sentar-se” e “levantar-se” são dois extremos que englobam a vida humana, reforçados por outros elementos, como “pensar”, “caminhar”, “repousar”; b) 7-12 (espaço e tempo): atrás, adiante, acima, altura, profundidade, dia e noite; nada escapa ao olhar perscrutador de Deus. c) 13-18 (criação-conhecimento do ser humano): o salmista descreve a existência humana desde sua concepção, formada no ventre materno e destinada ao ventre da terra, e conclui com uma aclamação à grandeza inalcançável de Deus; d) 19-24 (Juízo divino): os últimos versículos fazem uma aplicação dessa realidade. Deus, que tudo perscruta, não pode permanecer indiferente diante da injustiça, manifestando sua cólera contra o ímpio e sua salvação para o justo.

No Novo Testamento, também Natanel se admira com a “onisciência” de Jesus que já o conhecia (Jo 1,48); e Paulo também exclama a grandeza inalcançável dos desígnios de Deus (Rm 11,33).

 

Leia o salmo e reflita:

 

1) Quais os grandes atributos de Deus que o salmista sublinha?

2) Quais sentimentos ele deseja suscitar no leitor?

3) Considerando um contexto pós-exílico, qual atitude deve tomar o leitor?

Por Pe. Gilson Meurer

Artigo publicado na edição de junho/2017, nº 235, do Jornal da Arquidiocese

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