Todo mês, no Jornal da Arquidiocese, você confere a reflexão do Salmo pelo Pe. Ney Brasil Pereira.

Todo mês, no Jornal da Arquidiocese, você confere a reflexão do Salmo pelo Pe. Ney Brasil Pereira.

Este salmo começa com um pedido que, aparentemente, não é em favor do orante, mas do próprio Deus: como só Ele é capaz de glorificar-se devidamente, que Ele o faça, respondendo à provocação dos que não o conhecem. E o faça, manifestando sua misericórdia e fidelidade, suas características essenciais (cf Ex 34,6). Glorificando-se, porém, Ele não deixará de favorecer os que nele confiam, de certo modo “glorificando-os” também, com a sua bênção. Com esse objetivo, o salmista primeiro desenvolve a polêmica contra a idolatria (vv. 2-8); depois, faz uma tríplice profissão de confiança (vv. 9-11), à qual corresponde a tríplice bênção divina (vv. 12-14), ampliada com a recordação da criação (vv. 15-16); enfim, conclui com o louvor dos vivos, em contraste com o silêncio dos mortos.

A situação histórica de onde emerge este salmo, que podemos considerar como ação litúrgica, parece a do pós-exílio. Não se pode comprovar, porém, uma cerimônia particular conhecida. O autor parte do primeiro mandamento, completado com o segundo, quase fundidos em unidade. A isso acrescenta a recordação do Deus criador e “abençoador” do início do Gênesis.

Não a nós, mas a teu Nome!

  1. Não a nós, Senhor, não a nós, / mas a teu Nome dá glória,

 / por tua misericórdia e fidelidade.

“Dar glória”, ou glorificar, é um verbo de louvor. O orante sente-se incapaz de fazê-lo, e também não considera suficiente a assembleia nem qualquer outra pessoa. E ainda, humildemente, nada pede para seu povo. Por isso, pede que o próprio Deus “se glorifique”, mostrando sua glória naquele momento e lugar. Já o fez em suas intervenções históricas, como quando derrotou o Faraó e seu exército (cf Ex 14,4.17). Pode fazê-lo agora, não mostrando sua imagem ou figura, mas a sua ação, em favor do seu povo, ação marcada por sua misericórdia e fidelidade.

Nosso Deus está nos céus

  1. Por que os povos deveriam dizer: “Onde está o Deus deles?”
  2. Nosso Deus está nos céus, / realiza tudo quanto quer.

A pergunta, provocadora, é a mesma que fazem espectadores triunfantes a um israelita desterrado, como lemos no Sl 42,4: As lágrimas são meu pão dia e noite, enquanto me repetem o tempo inteiro: “Onde está o teu Deus?” Ou a que fazem os invasores, ao conquistarem Jerusalém: “Onde está o Deus deles?” (Sl 79,10). Com fé inabalável, o salmista afronta a pergunta ímpia e proclama a existência e o poder incontrastado do Deus de Israel: Ele “está nos céus”, sim, e “realiza tudo quanto quer”.

A inanidade dos ídolos

  1. Os ídolos das nações são prata e ouro, / feitos por mãos humanas;
  2. Têm boca e não falam, / têm olhos e não veem.
  3. Têm ouvidos e não ouvem, / têm nariz e não cheiram.
  4. Têm mãos e não palpam, / têm pés e não andam;

/ da garganta não emitem sons.

  1. Sejam como eles os que os fabricam / e todos os que nele confiam.

Contrastando com a realidade e o poder do Deus de Israel, o salmista, a exemplo de Oseias (4,17; 8,4), Isaías (46,1-7), Jeremias (10,1-16) e outros autores bíblicos, argumenta polemicamente contra os ídolos. Evidentemente, ele conhece os dois primeiros mandamentos do Decálogo: o primeiro, sobre a afirmação do Deus único, YHWH; e o segundo, sobre a proibição das imagens, de YHWH ou de qualquer outra suposta divindade. Sobre a “inanidade”, ou seja, o vazio, a inutilidade, dos ídolos, o salmista insiste em que eles são “feitos por mãos humanas”, são “coisas”, inferiores aos artesãos ou artistas que os fizeram. Por isso, nada podem fazer: não falam, não veem, não ouvem, não cheiram, não palpam, não andam, não falam… Quanto aos “nossos” ídolos de hoje – o ter, o prazer, o poder –  devemos levar em conta, atualizando-a, a grave advertência final da 1ª carta de São João: Filhinhos, guardai-vos dos ídolos! (1Jo 5,21). No v. 8, o salmista faz uma imprecação contra os fazedores de  ídolos e os que neles confiam: tornem-se eles mesmos inúteis, vazios, sem valor.

É no Senhor que confiamos

  1. É no Senhor que Israel confia: / Ele é seu auxílio e seu escudo.
  2. É no Senhor que a casa de Aarão confia? / Ele é seu auxílio e escudo.
  3. É no Senhor que confia quem o teme: / Ele é seu auxílio e escudo.

“Confiar” é sinônimo de “crer”, “acreditar”, um dos verbos mais importantes para expressar nosso relacionamento para com Deus. Em momentos dramáticos da história, a confiança é posta à prova. Assim, na passagem do mar Vermelho e na travessia do deserto (cf Ex 14-17); na invasão de Senaquerib, o emissário dos assírios debochou da confiança de Jerusalém sitiada (Is 36); o profeta Jeremias, aos judeus reunidos no Templo, denunciou a confiança inútil numa  religião só de palavras e ritos (Jr 7,1-15); ainda Jeremias, denuncia a falsa confiança do seu povo na “carne”, enquanto seu coração fica longe de Deus (Jr 17,5-6)… Aqui, o salmista reafirma a verdadeira confiança do seu povo, quer na sua totalidade (“Israel), quer na pessoa dos seus sacerdotes (a “casa de Aarão”), quer em todo aquele que é “temente a Deus”. Por três vezes, a razão dessa confiança é expressa em termos militares: Deus é nosso “auxílio” e “escudo”. Veja-se, a propósito, um versículo do Sl 27: “Se contra mim acampar um exército, meu coração não temerá; se contra mim ferver o combate, mesmo então não se abalará a minha confiança” (Sl 27,3).

O Senhor nos abençoe

  1. Que o Senhor se lembre de nós e nos abençoe: / abençoe a casa de Israel,

 / abençoe a casa de Aarão.

  1. Abençoe os que temem o Senhor, / pequenos e grandes.
  2. Que o Senhor vos multiplique / a vós e vossos filhos.
  3. Vós sois benditos do Senhor /  que fez o céu e a terra.

À confiança do povo corresponde a bênção de Deus, aqui pronunciada em forma de súplica. Destinatários dessa bênção são os mesmos que, segundo os três versículos anteriores, demonstram confiança: a totalidade de Israel, a casa de Aarão, e os “tementes a Deus”. Mas há um quarto destinatário, com sentido inclusivo: “pequenos e grandes”, inclusão que lembra as bênçãos patriarcais, dadas não só ao filho maior, mas também ao menor: Jacó e Esaú (Gn 27); Efraim e Manassés (Gn 48). No salmo não há distinção: pelo contrário, os “pequenos” são mencionados antes dos “grandes”.

Efeito clássico da bênção é “crescer e multiplicar-se”, como na primeira bênção do livro do Gênesis, nas palavras de Deus ao homem e à mulher: “Sede fecundos e multiplicai-vos…” (Gn 1,28) Ou no livro do Deuteronômio: “Que Deus vos faça crescer mil vezes mais, abençoando-vos como vos prometeu” (Dt 1,11).

A bênção divina é eficaz, porque é a bênção daquele que  com a sua palavra fez os céus e a terra (cf Sl 33,6), e é essa bênção que torna “benditos”, “abençoados”, aqueles que dela são destinatários. A propósito, notar a diferença entre o “Bendito” com maiúscula, que é o próprio Deus, destinatário da nossa “bênção” – o louvor dirigido a Ele (cf o cântico de Zacarias, em Lc 1,68) – e os “benditos” com minúscula, que somos nós, agraciados com a sua bênção. Lembrar ainda a chamada “bênção sacerdotal”, do livro dos Números: “O Senhor te abençoe e te guarde…” (Nm 6,24, mas veja todo o conjunto dos vv. 22-27).

A terra, aos filhos de Adão

  1. Os céus são os céus do Senhor, / mas a terra, Ele a deu aos filhos de Adão.

O Senhor reserva-se o céu como morada, e não a compartilha com outras divindades; a terra, Ele a dá ao ser humano, o “filho de Adão”, como morada e tarefa, assim como deu a Adão o jardim do Éden, para que o cultivasse e o guardasse (Gn 2,15). No contexto da Aliança, Deus dá a seu povo a “terra prometida”, o território de Canaã. O salmo elimina fronteiras, abarcando a terra inteira e toda a humanidade. É, portanto, tarefa nossa, cuidar da Casa comum, a mãe-terra, como tão oportunamente nos indicou o papa Francisco com a sua encíclica “Laudato Si’ ”.

Não os mortos, mas os vivos

  1. Não são os mortos que louvam o Senhor, / nem os que descem

            à região do silêncio.

  1. Mas nós, os vivos, bendizemos o Senhor / desde agora e para sempre.

Estes dois versículos conclusivos do salmo nos causam certa estranheza, pela contraposição entre mortos e vivos. Ainda mais pelo afeto e a saudade que nos ligam aos mortos, especialmente se parentes e amigos, e pela nossa fé de que eles, na outra vida, podem, sim, louvar a Deus. Aliás, segundo São Paulo, de certo modo até “nos precederão”, como se expressa  o Apóstolo, escrevendo aos tessalonicenses (1Ts 4,13-14). Acontece, porém, que o salmista, na concepção do Antigo Testamento, não conseguia conceber vida e louvor nos que haviam descido ao Xeol. Importava, portanto, viver, para poder louvar! Assim, este “nós” designa a comunidade presente, que, tendo sobrevivido, tinha a capacidade e o privilégio de “bendizer o Senhor, desde agora e para sempre”. Em todo caso, em certo sentido não importa o passado nem o futuro: é o “hoje”, que tem dimensão de eternidade.

Pe. Ney Brasil Pereira

Professor emérito da FACASC/ITESC – email: [email protected]

Para refletir: 1) Por que é que o salmista não pede a glória para si e sua comunidade?

            2) Como o salmista afronta a pergunta ímpia dos que não creem?

            3) Quanto aos “ídolos”, como entendê-los hoje?

            4) Em que sentido Deus é “bendito”, e nós também somos “benditos”?

5) Em que sentido os mortos “não louvam”, enquanto nós, os vivos, podemos louvar?

Pe. Ney Brasil Pereira – professor de Exegese Bíblica na FACASC/ITESC

Email: [email protected]

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