Todo mês, no Jornal da Arquidiocese, você confere a reflexão do Salmo pelo Pe. Ney Brasil Pereira.

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Salmo 110 (109): Rei e Sacerdote guerreiro

Este salmo é um dos mais breves, dos mais misteriosos, o salmo mais citado no Novo Testamento. Só a Carta aos Hebreus, que atribui a Cristo o título e a dignidade de Sacerdote por excelência, o único verdadeiro Sacerdote da nova Aliança, dedica ao v. 4 – “Tu és sacerdote para sempre” – um capítulo inteiro, o capítulo 7º. Mas já cita esse versículo algumas vezes nos capítulos 5 e 6, sempre levando em conta o texto de Gn 14 sobre Melquisedec.

Quanto ao v. 1 – “Senta-te à minha direita” – encontramo-lo citado pelo próprio Senhor Jesus em Mc 12,35-37, em discussão com os escribas, e em Mc 14,61-64, diante de Caifás, no Sinédrio, num texto combinado com Dn 7,13. Também Pedro cita esse versículo no dia de Pentecostes, diante de todo o povo. E temos ainda, além de outras citações nas cartas paulinas, o texto da 1ª carta aos Coríntios 15,25-26. E não esqueçamos que este salmo é rezado ou cantado cada domingo e solenidade, na Liturgia das Horas, como o primeiro salmo das Vésperas.

Salmo importantíssimo, portanto, que desperta, com razão, a nossa curiosidade.

O título que escolhi – “Rei e Sacerdote guerreiro” – quer de propósito chamar a atenção do leitor: como conciliar Jesus, o Jesus “manso e humilde” dos Evangelhos (cf. Mt 11,29), com o “Rei e Messias guerreiro”?

Senta-te à minha direita

  1. Oráculo do Senhor ao meu senhor: / “Senta-te à minha direita, / até que eu

 ponha teus inimigos como estrado de teus pés”.

O salmo começa com uma palavra, um oráculo, do próprio Deus, o “Senhor” com maiúscula, ao “meu senhor”, isto é, alguém superior ao profeta que profere o oráculo. Esse “alguém” é convidado por Deus, o Rei celeste, a assentar-se “à sua direita”, no lugar de honra, dando a entender a sua entronização como a do novo rei. Temos aqui, portanto, um salmo “real”, como o Sl 2, o Sl 45, o Sl 72. A segunda parte do oráculo já é duramente belicosa: anuncia a derrota e a humilhação dos “inimigos” (reis vizinhos?), cujas costas servirão de estrado para os pés do rei agora entronizado.

O  cetro do teu poder

  1. De Sião, o Senhor estende o cetro do teu poder: / “Domina em meio

a teus inimigos!

O profeta anuncia ao novo rei o alargamento do seu poder, simbolizado pelo “cetro”, que se estende desde Sião, Jerusalém. E prossegue na proclamação do oráculo, novamente belicoso, insistindo no “domínio em meio aos inimigos”. Não há, portanto, sequer um aceno ao “direito” e à “justiça” que, segundo o Sl 72, são as bases do trono de um verdadeiro rei, cujo primeiro cuidado é “salvar os filhos dos pobres” (Sl 72,4) .

Do seio da aurora

  1. Contigo está o principado no dia do teu poder entre santos esplendores;

 / do seio da aurora, como orvalho, eu te gerei”.

Esta tradução, segundo o texto latino da Nova Vulgata, alude ao nascimento misterioso do novo rei, acentuado nos comentários cristológicos, mas de certo modo destoando do anúncio belicoso do versículo anterior. Por isso, os tradutores modernos, esforçando-se por interpretar o texto original sem recorrer às versões antigas, propõem  traduções que mantêm e detalham, neste v. 3, o tom guerreiro do v. 2. Vejam, por exemplo, uma dessas traduções:

[Com vestes santas, teu povo se apresentará de livre vontade no dia da tua batalha; / teus jovens serão como as gotas de orvalho do seio da aurora].

Tu és sacerdote

  1. O Senhor jurou e não se arrependerá: / “Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec”.

Aqui temos o segundo oráculo, em forma  de juramento irrevogável. Aparentemente,  dirigido à mesma pessoa à qual se refere o oráculo do início do salmo. A dignidade aqui é o sacerdócio, do qual se diz que é um sacerdócio “perpétuo”, mais que o de Aarão e seus filhos, segundo Ex 40,15, e o de Fineias, segundo Nm 25,13. De fato, historicamente, o sacerdócio aaronida passou para Sadoc, quando o rei Salomão destituiu o sacerdote Abiatar (cf 1Rs 1,38s e 2,26s). E, na época dos Asmoneus, em meados do século II aC, foi usurpado pelo monarca reinante!

Quanto à “ordem” de Melquisedec, não se trata de uma “ordenação”, mas de um tipo diferente de sacerdócio, como insistirá a carta aos Hebreus. É um sacerdócio, portanto, que nada tem a ver com o sacerdócio “segundo a ordem” de Aarão, transmitido de pais a filhos e exercido no Templo. O novo sacerdote, cuja função essencial é a da mediação entre Deus e o seu povo, apresenta alguma semelhança com Melquisedec, o misterioso rei e sacerdote que aparece na história de Abraão, em Gn 14,18-20, e que inspira o autor da carta aos Hebreus na sua reivindicação do sacerdócio eterno do Cristo.

O versículo como tal, extraído do seu contexto no salmo, é sem dúvida inspirador. Acontece, porém, que esse “rei e sacerdote”, segundo os versículos que precedem e os que seguem, parece ter como missão característica a de lutar contra e debelar seus inimigos… como entender?

Aniquilará os reis

  1. O Senhor está à tua direita: / aniquilará os reis no dia da sua ira.

O sujeito da frase, ao qual se atribui diretamente a ação de “aniquilar os reis”, evidentemente inimigos, é o próprio Deus, que agora muda de posição em relação ao seu escolhido. No começo do salmo, Ele convida o eleito a sentar-se “à sua direita”. Agora, é Ele mesmo quem, para fortalecê-lo na batalha, põe-se à direita do seu escolhido. Isso, dando vazão à sua justiça vindicativa, “no dia da sua ira”.

Amontoará cadáveres

  1. Ele julgará as nações e amontoará cadáveres, / esmagando cabeças

 pela imensidão da terra.

O “julgamento” condenatório do Senhor – dEle pessoalmente ou do seu rei –  é implacável: “amontoa cadáveres, esmagando cabeças”… Versículo terrível, que não é o único desse feitio na Bíblia: vejam-se outros salmos, vários oráculos proféticos “contra as nações”, algumas passagens do Apocalipse (cf Ap 19,11-21), muitos textos da literatura extrabíblica, todos eivados desse espírito belicista que se compraz em contar e descrever as baixas inimigas. Novamente a pergunta: Como entender?

Ao longo do caminho

  1. Ao longo do caminho, bebe da torrente. / Por isso, levantará a cabeça.

O versículo final é enigmático. Quem é esse que, sedento, bebe da torrente – qual torrente? – ao longo do caminho? E que caminho? O da perseguição aos inimigos fugitivos? Só ele, no meio de “cabeças esmagadas”, pode “levantar a cabeça”? O texto, pelo próprio fato de ser enigmático, se abre a várias interpretações, mesmo alegóricas, dependendo das respostas às perguntas. Não deixa de chamar a atenção esse momento de aparente paz, essa pausa de tranquilidade, numa visão de guerra.

Como entender?

É curioso que um salmo tão militarista seja um dos preferidos do Novo Testamento e da Liturgia cristã. Para isso fez-se necessária uma dupla operação: selecionar alguns versículos e, mais importante, mudar a identificação dos inimigos. Já o advertiu São Paulo, na carta aos Efésios: “Nossa  luta não é contra pessoas de carne e sangue, mas contra os principados e potestades, os dominadores deste mundo de trevas, os espíritos da maldade nas regiões celestes” (Ef 6,12). Quem seriam, porém, esses “principados”, “dominadores”, “espíritos da maldade”, que naturalmente atuam através de “pessoas de carne e sangue”, mas delas devem ser distinguidos? O Apocalipse, com seu estilo próprio, identifica esses “inimigos” como o “Dragão”, a “Besta do mar” e a “Besta da terra” (Ap 12 e 13) ), os quais pretendem o domínio do mundo mas são fadados a desaparecer no “lago de fogo e enxofre” (Ap 19,19-21 e 20,10), aniquilados pelo Cavaleiro cujo nome é “Palavra de Deus” e “Rei dos reis e Senhor dos senhores” (Ap 19,13-16).

Rei e Sacerdote “guerreiro”?

O leitor vê que este breve salmo, no conjunto de seus versículos, não é fácil de entender. As perguntas que suscita são numerosas. E as respostas dadas suscitam novas perguntas. O essencial, no entanto, é perceber que o Senhor Jesus, que se identificou como “Rei” (cf Jo 18,37) e sacrificou sua vida como “Sacerdote” (cf Jo 10,18 e 17,19), optou por ser ambas as coisas de modo diferente. É essa diferença, essencial, que seus próprios discípulos só vieram a entender após a experiência pascal, iluminados pelo Espírito que os guiou – e nos guia – à Verdade plena (Jo 16,13). Captar essa diferença, porém, é tão difícil, que a própria Igreja, ao longo da história, o confundiu com o Imperador bizantino e o adornou com os paramentos do sumo sacerdote Aarão. Ele, porém, quer ser reconhecido como o Rei “manso e humilde” (Mt 11,29 e 21,5) e como Sacerdote “segundo a ordem de Melquisedec”, não segundo a ordem de Aarão (cf Hb 7,15-17).

 Leia o salmo e medite: 

1) Por que este Salmo é tantas vezes citado no Novo Testamento?

                               2) Como entender o título escolhido: “Rei e Sacerdote guerreiro”?

                               3) Que significa esse sacerdócio “segundo a ordem de Melquisedec”?

                               4) Como entender a ação desse Rei e Sacerdote que “amontoa cadáveres”?

                               5) Quem são os “inimigos” contra os quais devemos lutar?

 Por: Pe. Ney Brasil Pereira – Professor de Exegese Bíblica na FACASC/ITESC

 

 

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