Salmo 108(107): Vamos, minha glória!

Todo mês, no Jornal da Arquidiocese, você confere a reflexão do Salmo pelo Pe. Ney Brasil Pereira.

Todo mês, no Jornal da Arquidiocese, você confere a reflexão do Salmo pelo Pe. Ney Brasil Pereira.

Este breve salmo não é plenamente original, pois o seu texto é constituído de partes de dois salmos anteriores. Os versículos 02 a 07 são a parte final do Salmo 57 (Sl 57,8-12), e os versículos 08 a 14 são a parte final do Salmo 60 (Sl 60,7-14), ambos já comentados anteriormente. Sua originalidade está na junção dos dois textos e na positividade e urgência da prece do salmista. Inspirado por seus predecessores, ele adapta, para novas circunstâncias, textos antigos. O resultado é uma composição de grande amplitude, embora breve, que impressiona pela variedade das imagens e das alusões e pessoas envolvidas.

Na primeira parte do salmo (vv. 2 a 7), o salmista volta-se quase exclusivamente para Deus, expressando sua confiança absoluta nele e se determinando a louvá-lo, inclusive ao som de instrumentos musicais. Conclui, porém, esta parte, com um pedido, por si mesmo e por seu povo (v. 7).

A segunda parte (vv. 8 a 14), começa com um oráculo antigo (vv. 8-10), continua com uma interpelação a Deus, o único que pode derrotar o inimigo (vv. 11-12) e termina, após um premente pedido (v.13), com a certeza da vitória (v.14).

Estou pronto

  1. Meu coração está pronto, ó Deus, / meu coração está pronto.

Impressiona esta prontidão do salmista, expressa assim de repente, logo no início do salmo, prontidão aberta a várias possibilidades. Prontidão, aliás, não pedida, diferente da prontidão de Isaías, que responde à pergunta do Senhor: “A quem enviaremos?” E o profeta apresenta-se: “Estou pronto, envia-me!” (Is 6,8) Da mesma forma, a prontidão de Maria, que responde ao anúncio do Anjo, dizendo: “Eis aqui a serva do Senhor: faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38).

A prontidão do salmista, espontânea, não pedida, parece-me prenunciar a do próprio Senhor Jesus, ao iniciar-se a sua Paixão,  declarando-se pronto a realizar a vontade do Pai, apesar da resistência interior da natureza: “Se é possível, passe de mim este cálice… mas não se  faça a minha vontade, ó Pai, e sim a tua! Estou pronto…” (cf Mt 26,39). Esta prontidão foi expressa no filme de Mel Gibson, sobre a Paixão, no momento em que Jesus é desnudado, antes de começar a terrível flagelação. Tem sido esta, também, a prontidão de tantos mártires…

Vamos, minha Glória!

Quero cantar, a ti quero salmodiar. / Vamos, minha Glória!

                Aqui, a “prontidão” é expressa pelo propósito de louvar e salmodiar a Deus. Para isso, porém, é preciso que Ele manifeste a sua glória, o seu poder salvador, melhor, que Ele se revele como  a própria “ glória de Jacó” (Sl 47,4), a “glória de Israel” (1Sm 15,29)”, a “glória do seu povo” (cf Jr 2,11). Por isso, o salmista ousa provocá-lo, apropriando-se desse título e interpelando e urgindo o próprio Deus, em nome do seu povo, para que se mostre e atue, como “minha” glória.

Acordar a aurora

  1. Despertai, harpa e cítara, / quero acordar a aurora.

                Além de empenhar-se a si mesmo, declarando-se pronto a louvar, o salmista mobiliza “harpa e cítara” para reforçar-lhe a voz, e convoca a própria aurora, o nascer do sol, para acompanhá-lo. Essa aurora é apenas o alvorecer da luz criada, do astro-rei, dormitando o último sono da noite? Ou é o alvorecer da Luz incriada, o próprio Deus, aparentemente dormindo (cf Sl 44,23: “Desperta! Por que dormes, Senhor?”), mas cujo despertar o salmista invoca?

Darei graças

  1. Eu te darei graças entre os povos, Senhor, / a ti salmodiarei entre as nações.

                Imediatamente, antes de qualquer resposta divina, o  salmista já se compromete ao louvor, à ação de graças. E isso, não apenas na intimidade do seu coração, em nível pessoal, mas “entre os povos”, “entre as nações”, isto é, em nível internacional. O que ele espera de Deus, portanto, é algo grandioso, algo que deverá ser divulgado amplamente, sem fronteiras.

Misericórdia e fidelidade

  1. Pois a tua misericórdia se eleva até os céus, / e tua fidelidade chega até as nuvens.

                A razão do louvor é a misericórdia e a fidelidade sem limites – “até os céus”, “até as nuvens” – do próprio Deus.  São os atributos essenciais desse Deus aliado do seu povo, que assim se revelou a Moisés no  alto do monte Sinai: “Deus misericordioso e clemente, rico em misericórdia e fidelidade…” (Ex 34,6) No Novo Testamento, João traduzirá esses atributos como graça e verdade e os encontrará no próprio Lógos, o Filho, a Palavra encarnada que veio morar entre nós (cf Jo 1,14).

Exalta-te, Senhor!

  1. Ó Deus, exalta-te acima dos céus, / sobre toda a terra se estenda a tua glória!

                Nova expressão de ousadia do salmista, que já provocara o Senhor, clamando: “Vamos, minha Glória!” (v.2b). Agora, ele urge para que o Senhor se manifeste, se “exalte acima dos céus” e estenda sobre toda a terra a sua glória, isto é, o seu poder salvador. Em âmbito internacional, portanto, assim como o louvor prometido no v. 4.

Teus amados sejam libertados

  1. Para que teus amados sejam libertados, / salva-me com a tua mão direita

e escuta-me.

Só agora se concretiza o pedido do salmista, preocupado com o seu povo, esse povo “amado” que, no entanto, precisa ser “libertado”… Em que circunstâncias? O salmista não o esclarece. Entretanto, pede salvação para si mesmo, certamente para que, libertado, ele possa liderar essa libertação.

Oráculo divino

  1. Deus falou no seu santuário: Exultante, vou dividir Siquém, / vou

medir o vale de Sucot.

  1. Meu é Galaad, meu é Manassés, / Efraim é o capacete da minha cabeça,

 / Judá é meu cetro de comando.

  1. Moab é a bacia em que me lavo, / sobre Edom lanço minhas sandálias,

 / sobre a Filisteia canto vitória.

Neste momento, a memória do povo, verbalizada pelo salmista, concentra-se não no Êxodo, mas na tomada e posse da Terra, a terra prometida. O salmista está vivendo a situação do pós-Exílio, no período persa, quando a “herança de Israel” está  reduzida a Jerusalém e seus contornos. Por isso, a sua memória evoca o  oráculo, pronunciado no Templo, em que as várias regiões do país são nomeadas, seis ao todo (vv. 8-9), inclusive os três povos inimigos que, ao longo da história, atacaram e oprimiram o povo de Deus: os moabitas, edomitas e filisteus O oráculo é positivo: canta o senhorio integral de Deus sobre a sua Terra, ao mesmo tempo que afirma a repressão dos povos adversários.

Quem, se não Tu?

  1. Quem me conduzirá à cidade fortificada, / quem me guiará para atacar Edom,
  2. se não Tu, ó Deus, que nos rejeitaste? / Não sairás, ó Deus, com as nossas tropas?

                De repente, várias perguntas, entremeadas de queixas, contrastando com o entusiasmo inicial do salmo. O salmista, em primeira pessoa, assume a liderança do seu povo e, reconhecendo que ninguém mais poderá fazê-lo, relembra a Deus que somente Ele poderá guiar o seu povo, “com suas tropas”,  “no ataque a Edom”. Por que “Edom”? Porque, segundo o Sl 137,7 e a profecia de Abdias, os edomitas participaram ativamente na destruição de Jerusalém pelos babilônios, e isso não lhes pode ser perdoado… Ora, a “cidade fortificada” é Bosra, capital de Edom, mencionada por Isaías (34,6 e 63,1) e outros profetas.

Vem em nosso auxílio!

  1. Vem em nosso auxílio no meio da angústia, / pois é vão o auxílio humano.

                Após as perguntas insistentes, o salmista expressa com clareza e circunstância o seu pedido, em nome do seu povo. A circunstância é, sem mais explicações, a “angústia”, na qual seu povo se encontra. E a justificativa  é igualmente sucinta: “é vão o auxílio humano”, o que quer dizer que será eficaz somente o auxílio divino, como tantas vezes insistiram os profetas, de modo especial Isaías e Oseias.

Faremos proezas!

  1. Com Deus, porém, faremos proezas, / Ele esmagará os nossos inimigos.

                Volta, no último versículo do salmo, a positividade que caracteriza seus versículos iniciais. É interessante notar que o salmista mantém, nesta conclusão, a primeira pessoa plural, o “nós”, que começou a emergir no final do v. 12. E, apesar de a última afirmação realçar a ação divina – Ele esmagará… – não se dispensa o esforço humano, embora valorizado pela graça de Deus. Pois é “com Deus” que nós, o seu povo, “faremos proezas!” Cabe aqui  lembrar-nos, parece-me, da palavra do Senhor Jesus no evangelho de João: “Quem crê em mim fará as obras que eu faço, e até maiores – até “proezas”, embora não belicosas! – pois Eu vou para o Pai” (Jo 14,12). E assim, afinal, “acordou-se a aurora”, e “a Glória pôs-se em ação” (vv. 2 e 3).

 Leia o salmo e medite:

  • Como entender o título dado ao salmo: “Vamos, minha Glória!”?

2) De que “prontidão” se trata, no início do salmo?

3) Que sabe você da “misericórdia” e “fidelidade” do Senhor?

4) Como entender o oráculo divino dos vv. 8-10?

                               5) De que “proezas” se trata, no final do salmo? Como as realizaremos?

Por: Pe. Ney Brasil Pereira – Professor de Exegese Bíblica na FACASC/ITESC

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