Salmo 102 (101):  tu és o mesmo!

 

Todo mês, no Jornal da Arquidiocese, você confere a reflexão do Salmo pelo Pe. Ney Brasil Pereira.

Todo mês, no Jornal da Arquidiocese, você confere a reflexão do Salmo pelo Pe. Ney Brasil Pereira.

Entre outras, duas são as características deste salmo. A que mais impressiona é o fato de que o orante, que começa partindo da sua desgraça pessoal, declara-se também envolvido pela destruição da sua cidade. É um salmo, portanto, do tempo do exílio. Qual será o ponto de partida: a desgraça pessoal, ou a desgraça nacional? Ele começa com a experiência pessoal, mas a transcende em duas dimensões: a comunitária, porque é membro do seu povo e sente como própria a dor da capital arrasada; e a temporal, porque sua vida curta é um segmento na série das gerações que continuam, e quer deixar um legado escrito  para os vindouros (v. 19), como testemunho do Deus libertador. No entanto, ele suplica com insistência: por si, para que não malogre a sua vida; e pela cidade, porque já é tempo de restaurá-la. A segunda característica, que menos chama a atenção, mas é importante na leitura cristológica, é a citação que a carta aos hebreus faz dos seus três penúltimos versículos, aplicando-os ao próprio Cristo, associado ao Pai na obra criadora: “Tu, Senhor, no início colocaste os fundamentos da terra…” (Hb 1,10, citando o v. 26 do salmo). E ainda, a eternidade de Deus, afirmada no v. 28: “Tu és o mesmo, e teus anos jamais terminarão”, também aplicada a Cristo, que é “o mesmo, ontem, hoje, e sempre” (Hb 13,8).

Senhor, escuta!

  1. Senhor, escuta minha oração, / e chegue a ti o meu clamor!
  2. Não me escondas teu rosto no dia da minha angústia. / Inclina para mim teu ouvido quando te invoco; / atende-me depressa.

O salmista multiplica os imperativos: “escuta, chegue a ti, não escondas, inclina, atende-me depressa”, começando logo a exprimir a urgência do que pede.

Meus dias se dissipam 

  1. Pois meus dias se dissipam como fumaça,/ e meus ossos ardem como brasa.
  2. Pisado como a erva, meu coração está secando; / pois até me esqueço de comer meu pão.
  1. De tanto gritar e gemer, meus ossos estão colados à minha pele.

Entra o tema do “tempo”, que vai aparecer ao longo do salmo. Os “dias” vão retornar nos vv. 12 e 24. A menção da “fumaça” introduz a ideia do fogo interior que vai queimando os ossos. A imagem da “erva que seca” é frequente para simbolizar o que é passageiro. A dor é tanta que faz esquecer a fome, e o resultado é a magreza revelada pelos “ossos colados à pele”.

Solidão e hostilidade

  1. Pareço um pelicano no deserto, / sou como uma coruja entre ruínas.
  2. Não tenho sono, e solto gritos / como ave solitária no telhado.
  3. Todo o dia meus inimigos me insultam; / eles se enfurecem, e fazem imprecações contra mim.

A solidão é expressa por comparações originais com animais agourentos: “no deserto”, aludindo ao exílio, e “entre ruínas”, preparando a visão de Jerusalém reduzida a escombros. Estranha a menção do “pelicano”, animal aquático, no deserto. Estranha, também, essa presença hostil dos inimigos, que em si contradiz à solidão descrita. Por outro lado, essa hostilidade, mais que contra o salmista individualmente, se volta  contra Sião e seu povo.

Novamente, solidão e sofrimento

  1. Em vez de pão, estou comendo cinza, / misturo minhas lágrimas à minha bebida,
  2. por causa da tua indignação e da tua ira, / pois me levantaste ao ar e me lançaste longe.
  1. Meus dias são como a sombra que se alonga, / e vou secando como a erva.

Em seu sofrimento extremo, em sua vida malograda, o orante reconhece a ira de Deus. Ira que não é irracional ou incompreensível, pois é provocada pela conduta do ser humano. As “Lamentações” deixam-no bem claro: com vigor descrevem a cólera de Deus, mas com não menor lucidez confessam a culpa do seu povo. Impressionante a descrição do arremesso do  orante para longe de Deus (v.11), imagem que encontramos também no livro de Jó (30,32). No v. 12, nova imagem da caducidade na figura da sombra que se alonga num dia que termina… Quanto à comparação com a “erva”, nós a vimos já no v. 5.

Mas tu, Senhor!

  1. Mas tu, Senhor, reinas num trono eterno / e tua lembrança perdura de geração em geração.

De repente, contrastando com todo esse sofrimento, o salmista proclama a realeza, a soberania de Deus, e proclama também a perenidade da sua “lembrança”, isto é, do seu nome e da sua atuação, como lemos em Ex 3,15: “Este é meu nome para sempre, e assim serei lembrado de geração em geração”. Esta certeza confirma a fé e a esperança dos aflitos.

Terás piedade: a hora é esta!

  1. Tu te levantarás e terás piedade de Sião, / pois chegou a hora de perdoar-lhe:

 a hora é esta!

  1. De fato, teus servos amam suas pedras, / têm compaixão de suas ruínas.

Com a tranquila duração de Deus confronta-se a impaciência humana, que mede o tempo em anos e dias, e assinala prazos: “chegou a hora!” Entretanto, embora o ser humano não possa determinar esses prazos, pode, porém, recordá-los, pois Deus não protrai o cumprimento da sua palavra indefinidamente. É o que Ele assegura, através de Ezequiel: “Não será mais protelada nenhuma de minhas palavras. O que eu falar se cumprirá, oráculo do Senhor” (Ez 21,28). Segue, no v. 15, a tentativa do orante de contagiar o próprio Deus com o amor dos desterrados às pedras e ruínas de Jerusalém…

O Senhor vai reconstruir Sião

  1. Então, as nações temerão o nome do Senhor, / e todos os reis da terra a tua glória,
  2. quando o Senhor reconstruir Sião, / e aparecer na sua glória.
  3. Sim, Ele ouvirá a prece do desamparado / e não rejeitará a sua súplica.         

A restauração de Jerusalém manifestará a glória do Senhor em cenário universal, como também o III Isaías anuncia: “Os do ocidente temerão o Senhor, e os do oriente respeitarão a sua glória” (Is 59,19). O termo “glória”, aqui empregado duas vezes, não é apenas um resplendor luminoso, mas a própria intervenção salvadora de Deus, como Moisés anuncia ao povo no deserto: “Amanhã cedo vereis a glória do Senhor”. Essa  “glória” se manifesta sempre que “Ele ouve a prece do desamparado” (v.18).

Que isto fique escrito

  1. Que isto fique escrito para a geração futura, / e um povo recriado celebrará o Senhor.
  1. Pois o Senhor se inclinou do seu alto santuário, / dos céus olhou para a terra,
  2. para ouvir os gemidos dos cativos / e libertar os condenados a morrer.
  3. E o nome do Senhor será celebrado em Sião, / e seu louvor em Jerusalém,
  4. quando se reunirem os povos e os reinos / para servir ao Senhor.

O fato de que Sião será reconstruída pela compaixão de Deus pelos oprimidos não pode ser esquecido: deverá registrar-se por escrito para as futuras gerações, o que redundará em culto universal de Deus (vv. 22-23). Essa disposição de registrar o fato indica uma lúcida consciência história sobre o destino do povo: o valor permanente do passado, e a função da escritura no processo histórico. Quanto à “libertação dos prisioneiros e condenados”, é um elemento complementar essencial: não basta reconstruir a cidade se  faltam homens para repovoá-la. Por isso, é tarefa do Servo “tirar da prisão os cativos” (Is 42,7).

Não me retires!

  1. Ele abateu minha força no caminho, / e encurtou meus dias.
  2. Por isso eu digo: Meu Deus, não me retires na metade dos meus dias, / enquanto os teus anos duram de idade em idade!

Com a visão gloriosa dos vv. 22 e 23, superposta a um panorama de ruínas, poderia terminar o salmo. Mas, depois de pausa, desvanece-se a visão e o orante dobra-se de novo sobre si. Não chegou à velhice: está “na metade dos dias”, enquanto “os anos de Deus” são eternos, podendo, pois, preservar, prolongando, a vida do salmista.

Tu és o mesmo!

  1. Pois tu, Senhor, no princípio fundaste a terra, / e os céus são obra de tuas mãos.
  2. Eles perecerão, mas tu permaneces; / e todos ficarão gastos como um vestido, / como uma roupa que se muda.
  1. Mas tu continuas o mesmo, / e teus anos não têm fim.

O salmista retorna à contemplação do mistério de Deus Criador, Senhor do tempo e da história, afirmações tão grandiosas que o autor da carta aos hebreus, inspirado, não teve dúvida de vê-las realizadas em Cristo: “o mesmo, ontem, hoje e pelos séculos” (Hb 13,8).

Os filhos dos teus servos

  1. Os filhos dos teus servos terão uma morada segura, / e sua descendência

 se perpetuará diante de ti.

O salmo termina com uma confissão de esperança coletiva: não tanto na imortalidade pessoal, mas na do povo, um povo “recriado” (v.19), afinal restituído à nova Sião. Outra observação: este salmo nos ensina a situar nossas penas pessoais num contexto eclesial e social mais largo. Tudo se ilumina à luz do mistério de Deus.

Para refletir:

1) Quais são as duas características mais marcantes, deste salmo?

2) Como a lembrança da soberania e eternidade de Deus aliviam o sofrimento intenso do orante?

3) Em que sentido podemos “determinar” prazos para Deus (v.14)?

4) Qual o objetivo de registrar por escrito a intervenção divina (v.19)?

5) Confira, no primeiro capítulo da carta aos hebreus, o contexto da citação que seu autor faz dos vv. 26-28 deste salmo.

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