No dia 6 de dezembro, a Igreja celebra São Nicolau, nascido em torno de 270, em Patara, na atual Turquia. Filho de pais com muitas posses, ele as herdou, mas, distribuiu seus bens com os mais necessitados. Um desses gestos de caridade – que até hoje é muito recordado – ele deixa sacos de ouro nas janelas das casas de três garotas forçadas a se prostituir, para que assim pudessem mudar de vida.

Após sua morte, tornou-se muito venerado pela Igreja no Oriente. No século VI, foi lhe dedicada uma igreja em Constantinopla e, mais tarde, foi proclamado padroeiro da Rússia, da Grécia e da Noruega e das cidades de Amsterdã e Moscou. Nesses países, era reconhecido como Pai do Povo. Em 1087 suas relíquias foram trasladadas para a cidade de Bari, na Itália, e a partir daí sua fama se espalha pelo ocidente europeu e chega até a América. Em muito do que se sabe sobre ele, devido a sua grande popularidade, é difícil separar as lendas do que é verdade.

“Quanto à imagem da indumentária vermelha e seu deslocamento com o uso de um trenó, puxado por renas, esta remete à obra do cartunista Thomas Nast, em 1 de janeiro de 1863. Foi impulsionada por uma matéria publicitária da fabricante de refrigerantes Coca-Cola, em 1931, idealizada pelo ilustrador Haddon Sundblom, que associou o bom velhinho às memórias de São Nicolau e ao personagem do espírito de Natal, descrito pelo escritor inglês Charles John Huffam Dickens em seu conto ‘A Christmas Carol’, traduzido para o português como ‘Um conto de Natal’. Este Papai Noel foi introduzido na Europa e se impôs pela pressão comercial de quem pretende festejar o Natal sem as referências cristãs.”[1]

São Nicolau de verdade: uma chance para evangelizar as crianças

Após sabermos a verdadeira história de São Nicolau e como sua imagem foi manipulada vale a pena refletirmos sobre a oportunidade que sua festa nos dá para proporcionarmos vivências positivas para as crianças e ajudá-las a se prepararem bem para o Natal. Em algumas paróquias europeias, os párocos e famílias se unem para isso.

No dia 6 de dezembro, o Santo “desce do céu” e vem visitar a crianças, para ver de perto como elas passaram o ano e premiá-las – com presentes simples – pelo bem que fizeram. Sem que elas saibam, os pais fazem um breve relato sobre o comportamento de seus filhos para que, ao encontrá-los, o grande Santo possa dizer a elas o quanto as conhece e como elas merecem os presentes, ou então, apontar com benevolência em que elas ainda precisam melhorar, para que o Menino Jesus encontre seus corações bem preparados na Noite de Natal. Isso feito com tato pedagógico e complementado pelos pais, posteriormente, pode ajudar os pequenos a aprender a fazer bem o exame de consciência e a reparação.

São Nicolau convida a se preparar bem para a vinda do Menino Jesus

Portanto, a celebração de São Nicolau é vinculada a preparação do Natal. A partir da visita de São Nicolau, as crianças sabem que o bem que fazem é reconhecido e, se o grande santo as premiou, então, elas podem esperar também que o Menino Jesus lhes traga algo de bom. O Santo sempre distribui pés de meia para as crianças. Então, elas podem escrever suas cartinhas ao Menino Jesus, dizendo a Ele que presente elas desejam que lhes traga do céu, se elas merecerem. As cartinhas são colocadas na meia que São Nicolau trouxe, para que os anjos as levem ao céu.

Como bons educadores, os pais sempre irão encontrar o bem no fundo do coração de seus filhos, por isso o Menino Jesus traz presentinhos para todas. Os pais sabem distinguir também a viabilidade ou não desses presentes serem exatamente o que elas pedem nas cartinhas.

Na Noite Santa, enquanto a família está na Santa Missa, na qual o Menino Jesus desce, Ele também passa pelas casas, deixando seus presentes sob a árvore do Natal.

Minha vivência de infância:

Ir. Lucia Maria Menzel é alemã e partilha conosco suas memórias das celebrações de São Nicolau:

“Minha primeira lembrança da festa de São Nicolau me leva ao Jardim de Infância. Nosso Jardim de Infância fazia parte da nossa paróquia e a edificação ficava ao lado da Igreja recém construída. Toda a vida da Igreja se refletia na formação e nas atividades das crianças que frequentavam esse Jardim de Infância.

Como crianças pequenas, nós já sabíamos da história de São Nicolau. Que ele era um bispo que fazia muito bem para o povo, ajudando quem dele precisava. Mais detalhes de sua vida eu conheci mais tarde.

Lembro-me que quando eu tinha, talvez 4 ou 5 anos, e fizemos uma “bota” de São Nicolau de juta e a enfeitamos, colando por cima, um tecido de feltro.

Em cada ano, no dia de São Nicolau, essa bota aparecia de novo, tendo dentro alguma fruta (laranja ou mexerica – frutas mais raras na Alemanha) ou também maçã e diversos tipos de nozes. Minha mãe tinha feito outra bota de um tecido vermelho para nós. Mas, eu sempre ganhava aquela que eu mesma tinha ajudado a fazer. Então, na festa de São Nicolau nós ganhamos uma bota cheia de frutas e nozes, às vezes também tinha também um lápis ou até uma meia.

Para se entender como isso era especial para nós, é importante saber que, no tempo de preparação para o Natal, não ganhávamos e nem comíamos chocolate. Também os saborosos bolos de domingo eram substituídos por pão com geleia.

Quando eu tinha, talvez, 11 ou 12 anos, festejamos a festa de São Nicolau com o grupo de famílias da Paróquia. Lembro-me muito bem que, logo após um canto especial a São Nicolau, ele apareceu e se sentou em nosso meio. Depois, ele chamou cada criança para perto de si e falou de nossas virtudes e dava algumas dicas do que poderíamos melhorar. Eu ficava muito admirada como ele sabia tantas coisas sobre mim. Não sabia que nossos pais haviam lhe escrito algo sobre nós.

Mas, lembro-me do quanto me senti muito importante, porque que ele, o grande santo, sabia da minha vida e, depois desse encontro, com muita alegria, tentava seguir seu conselho.

No final, cada criança ganhava um presente de São Nicolau. Num ano, eu havia perdido meu relógio, durante a aula de esporte, porque não o tinha guardado bem. Fiquei muito surpresa que São Nicolau me trouxe um novo.

Acho que participei umas três vezes nesse encontro com São Nicolau com as famílias de nossa paróquia. Mas, esse costume das “botas” era celebrado em minha família até que, já jovens, nós saímos de casa para estudar e trabalhar.

Há uns anos, após o falecimento dos meus pais minha irmã me mandou – aqui para o Brasil – a minha “bota” de São Nicolau.

É importante dizer que São Nicolau era São Nicolau e não Papai Noel. Sempre sabíamos que quem trazia os presentes de Natal para nós era o Menino Jesus. Mas, em preparação para a festa de Natal estes Santos (São Martinho, Santa Barbara, Santa Luzia) queriam nos ajudar para sermos pessoas boas e aprender deles a ajudar as outras pessoas.”

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[1] https://www.bbc.com/portuguese/geral-55191768

Por Ir. M. Nilza P. da Silva
Schoenstatt.org.br

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