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Foto: Everton Marcelino

Nestas páginas centrais do Jornal da Arquidiocese, do qual Pe. Ney Brasil Pereira foi  diretor por mais de 20 anos, você acompanha depoimentos que vão além de uma biografia. Pessoas que estiveram com ele em diferentes momentos e hoje prestam também sua homenagem.

 

Confessor atencioso…

“Pe. Ney era um confessor atento e disponível. Sempre recordava temas que muitas vezes esquecemos em nosso exame de consciência. Com ele aprendi a sentir a dor dos problemas do mundo e a rezar por eles. Aprendi também que a finalidade da teologia é sempre o bem do povo de Deus. Do céu, Pe. Ney intercede por nós para que nosso conhecimento teológico ajude a aliviar a dor dos que sofrem”. Seminarista Guilherme dos Santos, 23 anos, quarto ano de teologia na FACASC, que tinha Pe. Ney como confessor.

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Padre Ney, entre alguns de seus irmãos e cunhados, nas Bodas de Ouro da irmã Jocélia (ao centro), em 15/01/2016). Foto de Nórton José

Gostava do mar…

Jocélia Marília Pereira Scharf é casada com Hamilton Scharf há 51 anos. Ela é a mais moça dos seis irmãos do Pe. Ney e tem hoje 80 anos.

Padre Ney presidiu a missa de casamento dos quatro filhos da irmã e batizou os oito netos. Procurava participar em tudo na família e as 24 horas do dia eram poucas para ele.

A irmã conta que, quando criança, Pe. Ney sempre sentava do lado direito na Catedral, onde fica a imagem do Sagrado Coração de Jesus. Jocélia afirma que o irmão “era muito disposto, sempre alegre, nasceu e viveu para a Igreja e foi feliz”. E prossegue falando sobre as visitas que Pe. Ney fazia na casa de praia dela, na Ponta do Papagaio, em Palhoça. “Ele chegava, colocava o calção de banho e já ia para o mar. E dizia: ‘ai que maravilha’. Mas sempre muito corrido. Nesse verão, estamos sem a presença dele”, lamenta Jocélia Scharf.

Pe. Ney e Papa FranciscoAluno inteligente e discreto…

O bispo auxiliar emérito, Dom Vito Schlickmann, foi colega de classe do Pe. Ney. Começaram a estudar juntos em 1942, no Seminário Menor em Azambuja, Brusque. E depois na filosofia, em São Leopoldo (RS). Foram nove anos de convivência nos estudos.

Dom Vito disse que “Pe. Ney era muito discreto, inteligente, estudava com seriedade e empenho e em Azambuja, eu nunca conseguia competir com ele (risos). A facilidade com que aprendia a língua grega era impressionante”.

Ele lembra ainda de quando, no Seminário, Pe. Ney se apresentou no palco e cantou uma música. “Ele parecia uma flauta tocando, de tão bonita que era a voz dele. Lá no Seminário Menor aprendeu o ‘harmônio’ – hoje teclado. Ele era realmente muito esforçado, um aluno exemplar. A morte dele foi muito triste, não esperava que morresse inesperadamente”, aponta Dom Vito.

Membros da Comunidade Abbá Pai

Membros da Comunidade Abbá Pai

A alegria e o amor pela música…

“Padre Ney tinha um carinho especial pelos coralistas e suas famílias. Ao nos encontrar, impunha as mãos em nossa testa e perguntava: ‘Como está Dona Maria, Dona Nena?

Sempre com trocado nos bolsos, distribuía aos moradores de rua que o interpelassem. Fazia o mesmo com os presentes que recebia, dava tudo aos presos. Era um de seus prazeres.

Era impagável vê-lo sorrir com o rosto, com os pés e as mãos. Ao convidá-lo para almoçar em casa, o almoço tinha que sair na hora e precisava reservar um lugar para ele tirar sua sesta. E se no menu tivesse uma ostra, a felicidade estaria completa. ‘Pe. Ney, fizemos para o senhor’. Em resposta, ele falava: ‘não mereço, mas agradeço’. Claro que tudo regado a muita música do coral e ao samba do Ernesto do Adoniram.

Para os membros do Coral Santa Cecília, o Pe. Ney não morreria nunca. Infelizmente ele se foi, mas nos ensinou que se alguém quer ser o primeiro, seja o último e servo de todos”. Pedro Cabral Filho, há 40 anos no Coral Santa Cecília

unnamed (2)Amigo e sábio professor…

“Desde que entrei no Seminário de Azambuja, em 1956, encontrei o Pe. Ney como professor de várias matérias e como dirigente do coral do Seminário. São ainda hoje inesquecíveis os demorados ensaios de canto, muitas vezes não desejados, como nas semanas de exames. No entanto, colaboraram decididamente para nossa formação.

Sempre muito exigente, não tolerava brincadeiras – nós adolescentes éramos distraídos – e, por vezes, desobedientes. Certamente tudo contribuiu para nossa formação.

No Instituto Teológico de Santa Catarina – ITESC – fomos professores e colegas. Além de sua enorme capacidade intelectual e sabedoria, Pe. Ney foi um exemplo de sacerdote em sua vida pessoal e nas atividades pastorais.

Éramos excelentes amigos. Seu testemunho de vida presbiteral marcará para sempre minha vida. Sou eternamente grato a Deus por ter convivido com ele”. Pe. Valter Mauricio Goedert, Professor da FACASC.

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Foto seminarista Joel

O profeta da humildade…

“A Comunidade Católica Abbá Pai teve a graça de ter Pe. Ney Brasil Pereira como Diretor Espiritual de Voluntariado por 15 anos. Ele era modelo para os diversos trabalhos voluntários permanentes que abraçamos: idosos, hospitalizados, deficientes físicos e mentais e presidiários.

Especialmente nas idas semanais com Pe. Ney ao Presídio de Florianópolis (uma de nossas frentes de trabalho voluntário), estivemos muito próximos de seus ideais missionários. Ele fazia questão de ligar todas às sextas-feiras, a mim e ao Bernardo (que o acompanhávamos ao presídio), para confirmar nosso encontro no sábado.

Particularmente, este pai espiritual abriu as grades do meu coração e me ensinou a ir além do que eu imaginava. Ensinou-me a não julgar os encarcerados e a vê-los como irmãos.  Fez-me entender que meu ardor missionário era fortalecido dentro do presídio e não fora dele.  Mostrou-me que meu encontro com Cristo preso não estava nos livros, mas dentro das celas.

Dentro do presídio, acompanhando o profeta Ney, aprendi muito sobre humildade e encontrei o sentido da minha liberdade”. Ivano Alves Pereira, Fundador da Comunidade Católica Abba Pai.

Capelão que aprofundava as leituras do dia…pe-ney-brasil3

Padre Ney era o capelão da Congregação da Divina Providência, em Florianópolis, desde 1º de fevereiro de 1974. Todo dia, às 06h30, pontualmente, lá estava ele para presidir a missa.

A Irmã Enedina Sacheti, da coordenação da Província Divina Providência, afirma que ele era bem zeloso, prestativo e tinha amor ao sacerdócio. “Ele fazia um aprofundamento das leituras do dia, preparava-se para vir celebrar para nós. Quando era um dia de algum santo, trazia a história para conhecermos. Só podemos agradecer a Deus o testemunho de zelo sacerdotal que ele nos deixou. Domingo, na nossa casa na Trindade, tomava café e já saía em missão. Não se poupava, estava sempre à disposição em servir o povo, em se atualizar. Foi uma grande perda para nós, foi rápido demais”, finaliza Ir. Enedina.

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Foto: Everton Marcelino

Fidelidade em tudo que fazia…

“Nos oito anos que vivemos juntos no Convívio Emaús, Pe. Ney foi para mim e para os seminaristas um grande exemplo de fidelidade sacerdotal. Chamava atenção a sua fidelidade à oração, a sua caridade com os pobres e sua atualização teológica.

Acompanhá-lo de perto nos últimos 24 dias de sua vida terrena foi para mim um verdadeiro retiro. Agradeço a Deus pela oportunidade de ter convivido com um padre tão fecundo em seu ministério”. Pe. Vânio  da Silva, Reitor do Seminário de Teologia Convívio Emaús.

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Foto: Everton Marcelino

O pastor que não se cansava de visitar os detentos…

“O trabalho de Pe. Ney junto aos presidiários foi iniciado muito antes de existir a Pastoral Carcerária. Começou há 40 anos. 

Sua atuação no trabalho correspondia à sua própria personalidade, calma, simpática, caridosa e responsável.

Chegava às segundas-feiras para presidir a missa para os detentos do Hospital Psiquiátrico, sempre carregado de alguma coisa para dar: revistas, jornais, frutas, exemplares da Bíblia. Discreto e sorridente, tratava igualmente a todos que encontrava.

Antes da missa, com seu violão, ensaiava os cantos e distribuía as leituras entre os presos e alguns voluntários.  E assim sua missão se cumpria.

Aos finais de semana, à noite, visitava os detentos nas diversas dependências do Complexo Penitenciário da Agronômica. E no relato singelo de um preso, a importância desta visita: ‘a sua chegada na abertura da porta da cela representava o próprio Jesus’.

Quando tínhamos algum problema no trabalho e pedíamos sua orientação, dizia sempre: ‘Deus é que sabe’. Ou então: ‘se Deus permitir’.

Estamos órfãos com sua partida, sentimos muito sua ausência. Que lá do céu possa ele nos conduzir e orientar. Que nos abençoe sempre”. Equipe da Pastoral Carcerária de Florianópolis.

Um amor muito grande à Igreja e por ela toda oferta de vida…

“Padre Ney foi um grande sacerdote da Arquidiocese, grande por tudo que fez, que acreditou, por tudo que foi. Procurou sempre se aperfeiçoar em tudo. E fez muitas coisas, e todas muito bem.

Ele foi um grande conhecedor da língua portuguesa, músico, importante biblista, um padre de uma caridade extraordinária. Basta dizer que passou a vida toda vinculado à Pastoral Carcerária, visitava o presídio muitas vezes, até mais de uma vez por semana.  

Procurou sempre ter uma atitude daquilo que ele acreditava que era o sacerdote. Atitude de seriedade, marcada com vários gestos, uma vida de oração, uma espiritualidade profunda, um amor muito grande à Igreja e dedicado a ela em todos os sentidos.  

Padre Ney se foi, mas deixa para trás uma lembrança muito grande daquilo que nós sonhamos como a Igreja deve ser, aquilo que nós pensamos como sacerdote deve viver”. Dom Wilson Tadeu Jönck, scj, Arcebispo de Florianópolis.

Matéria publicada nas páginas centrais, 06 e 07, do Jornal da Arquidiocese, edição de fevereiro de 2017. 

1 Comentários, RSS

  • MARIA DA GLÓRIA DE OLIVEIRA

    diz em:
    7 de Abril de 2017 às 09:00

    Foi um prazer conhece-lo Pe. Ney!

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