Andresa com o marido André e os filhos Filippe e Gabriella | Foto: Aryelle Amaral

A Igreja primitiva se caracteriza pela fundamental experiência de Pentecostes. Este fato assinala o começo da evangelização e o abundante florescimento dos carismas na vida dos apóstolos e dos primeiros cristãos. Esta experiência, que marcou a história da Igreja, não é simplesmente algo do passado, mas é sempre nova. Santo Tomás de Aquino afirmou que o Espírito Santo pode ser enviado muitas vezes na vida de cada um, implicando “um conhecimento mais íntimo e vivenciado de Deus presente na alma, um conhecimento que explode num amor mais ardente”. De fato, o Espírito Santo continua a atuar na Igreja e faz com que esta experiência se repita muitas vezes na vida de cada um de nós.

O Papa Francisco diz que o Espírito Santo é dado pelo Pai e nos leva até ele. “Toda a obra da salvação é uma obra de regeneração, na qual a paternidade de Deus, por meio do dom do Filho e do Espírito, nos liberta da orfandade em que caíramos”, afirma o pontífice.

Na Arquidiocese de Florianópolis, muitos fiéis têm testemunhos relacionados com o Espírito. É o caso da autônoma Andresa de Souza Lopes, 36, que coordena a Renovação Carismática (RCC) da Forania de Palhoça e o Grupo de Oração Sagrada Família, na Paróquia São Joaquim, em Garopaba. Ela conta que sua primeira relação forte com o Espírito Santo aconteceu em 1998, aos 17 anos, quando foi convidada para participar de um grupo de oração em Imbituba. Naquele dia, ela se sentiu impactada pelo Espírito e decidiu que a partir daquele momento iria se relacionar somente com um homem que fosse de Igreja. “Se Deus não me colocasse este homem, seria religiosa ou consagrada de alguma comunidade. Oito dias depois, conheci o meu esposo, com o qual sou casada até hoje”, explica Andresa.

O Espírito Santo está presente em tudo, principalmente dentro de cada pessoa. Foi ele quem animou e fortaleceu as primeiras comunidades e continua a inspirar e iluminar as atuais. A colaboradora da Equipe de Redação dos Grupos Bíblicos em Família (GBF), Silvia Regina Nunes da Rosa Togneri, 68, conta que é o Espírito Santo que lhe dá forças para ir em frente. “Ele me fortalece, quando muitas coisas parecem estar fora do meu alcance, mas é ele que me fazer conseguir”, conta Silvia. A colaboradora da Equipe de Redação do GBF conclui que é o Espírito que dá força nos momentos de dificuldade, dor, cansaço e desanimo, e que “sem essa luz, sem essa força, tenho impressão que nós não seriámos nada”.

Cláudia com os filhos Willian (E), Thielen (C) e Thuane (D) | Foto: arquivo pessoal

Quem também tem um belo testemunho é a coordenadora do Grupo de Oração Santa Rita de Cássia, Cláudia Marin Rasera, 51 anos, da Comunidade Santa Rita, na Paróquia São Luiz Gonzaga, em Brusque. Ela relata que sempre acompanhava sua família na igreja, porém, na época da faculdade ela se afastou. O motivo do distanciamento foi a correria do dia-a-dia que ela tinha por causa dos estudos e do trabalho. Foi onde percebeu que essa rotina não lhe oferecia uma paz interior com a qual ela se sentisse preenchida. Então, uma cunhada a convidou para participar de um grupo de oração em Azambuja. “A partir do momento que entrei no grupo, senti algo diferente em mim, percebi que era o Espírito Santo me preenchendo com o amor de Deus”, assegura Cláudia.

 

O Concílio e os frutos

Durante séculos, o Espírito sempre provocou na Igreja realidades novas que respondem aos desafios da Igreja no seu tempo. O Concílio Vaticano II (1962-1965) favoreceu o surgimento de “novas formas de vida evangélica”, dentre elas, os Movimentos Eclesiais e as Novas Comunidades.

O Concílio Vaticano II ocorreu entre os anos de 1962 a1965 | Foto: divulgação

As Novas Comunidades começaram a surgir na década de 1970, na França e nos Estados Unidos. No Brasil, surgem na década de 80 e se intensificaram nos anos 90. Hoje há no Brasil mais de 500 Novas Comunidades.

O Concílio Vaticano II desejava uma Igreja inserida no mundo, com o objetivo de atrair todos para Cristo. O Papa João Paulo II, na Vigília de Pentecostes de 1998, chamou os Movimentos Eclesiais e as Novas Comunidades de “providencial resposta do Espírito”.  Engajados em Novas Comunidades e Movimentos Eclesiais, leigos que se consagram a Deus e são apoiados em um carisma específico, vivem o seu Batismo de forma intensa, testemunhando a alegria da fé em um mundo tomado pelo secularismo.

Marili é cofundadora da Comunidade Transfiguração | Foto: Comunidade Transfiguração

Um dos frutos do Espírito Santo na Arquidiocese é a missionária e cofundadora da Comunidade de Vida e Aliança Transfiguração, com sede em Itajaí, Marili Pinheiro de Souza, 44 anos. A missionária viveu sua experiência com o Espírito Santo há 23 anos, em um retiro da RCC, em Nova Trento. Além da profunda experiência do amor de Deus, Marili teve outras revelações, que só veio a entender mais tarde, com a fundação da comunidade. “Após esta experiência, muita coisa adquiriu um novo sentido à vida de Igreja, o amor e zelo por tudo aquilo que antes já fazia, como ser Ministra da Eucaristia, catequista e participar da liturgia. Obtive uma nova visão sobre minha conduta e muitas coisas que precisava mudar na vida. Passei a ter mais intimidade com o Senhor”, comenta a missionária.

O Irmão Marista, Hugo Depiné, 62, que está na congregação a 46 anos, afirma que o Espírito Santo está presente nos trabalhos que ele desenvolve, onde é revelado nas atitudes. “O Espírito às vezes se traduz numa atitude de silêncio, num olhar manso e até de compaixão”, revela Hugo. Além disso, o Irmão Marista lembra que muitas vezes é o Espírito que lhe da forças para continuar a caminhada e o alerta “para uma constante atitude de ‘vigilância’. É nele que reconheço a minha fragilidade-vulnerabilidade. Sem o Espírito Santo eu estaria fadado a desistir dos meus compromissos”.

 

Padre Vitor Feller | Foto: Mateus Peixer

Mas, afinal, quem é o Espírito Santo?

Para responder esta e outras perguntas, o Jornal da Arquidiocese conversou com o Vigário Geral da Arquidiocese, Pe. Vitor Galdino Feller, que também é professor da disciplina de pneumatologia, da Faculdade Católica de Santa Catarina (FACASC). Pneumatologia é uma cadeira da teologia que estuda sobre o Espírito Santo.

Jornal da Arquidiocese – Quem é o Espírito Santo?

Padre Vitor Galdino Feller – O Espírito Santo é a terceira pessoa divina. Santo Agostinho diz que o Pai é o eterno amante do Filho, o Filho é o eterno amado do Pai e o Espírito Santo é o amor que envolve os dois. No Batismo de Jesus, por exemplo, o Pai diz: “este é o meu Filho muito amado em quem eu derramo todo meu amor”.

JA – Os sacramentos, como por exemplo, o Batismo, Eucaristia e Crisma são frutos do Espírito Santo? Explique:

Padre Vitor – Todos os sacramentos são frutos do Espírito, são efeitos da ação dele. Na linguagem teológica tem uma palavra chamada epiclese. Na missa, por exemplo, o padre invoca o Espírito sobre o pão e o vinho, para que se tornem o corpo e sangue de Cristo. Todos os sacramentos têm a epiclese, a invocação do Espírito Santo. Por isso, eles também são dons do Espírito Santo.

 

JA – Qual é a importância do Espírito Santo na vida do cristão?

Padre Vitor – Ele é o próprio Deus em nosso coração. Por exemplo: Deus Pai é antes, acima e além de nós, é a ele que devemos obediência e reverência. Deus Filho está em nosso meio, presente na Eucaristia, na Palavra, na comunidade reunida, em cada irmão e na autoridade da Igreja. E o Espírito Santo é Deus dentro de nós. É pelo Espírito que chamamos Deus de Pai, que reconhecemos Jesus como o Senhor, e é pelo Espírito que somos Igreja. Cada um de nós é templo do Espírito Santo. É ele que faz a gente ser cristão, nos dá dons, carismas, talento, para exercê-los em favor da Igreja e nos realizarmos como pessoas.

 

JA – Quando e como o recebemos?

Padre Vitor – Em termos cristãos, a gente diz que o recebe no Batismo, mas não é algo tão explicitado. No Batismo há uma imposição das mãos, com a qual se invoca silenciosamente o Espírito. Na Igreja Latina, o Espírito Santo é mais explicitado no Sacramento da Crisma. Ele não é dado só a nós, mas a todas as pessoas, animais e plantas. Todas as criaturas vivem pela força do Espírito. Existe um salmo que diz: “envias o teu sopro, Senhor, e todas as coisas existem. Retiras o teu sopro e as coisas deixam de existir”. Tudo existe pela força do sopro de Deus, que é o Espírito Santo.

 

JA – Por que o Espírito é chamado de Paráclito?

Padre Vitor – Paráclito é uma palavra da língua grega – parakletos – que significa advogado. “Kletos” significa chamado ou o enviado. Paráclito é o outro enviado, ou seja, aquele que foi enviado junto com Jesus. Mas a gente pode entender o Espírito Santo como o advogado, aquele que está enviado para estar ao meu lado, junto de mim, meu defensor, meu consolador.

 

JA – O que é Pentecostes? Como era a presença do Espírito Santo antes deste acontecimento?

Padre Vitor – A palavra Pentecostes significa quinquagésimo. Cinquenta dias após a Páscoa, os judeus celebravam a festa dos dons. Os primeiros frutos da colheita eram entregues a Deus no templo. Foi no quinquagésimo dia que se deu esse grande dom de Deus Pai, por meio de Jesus Cristo, que foi o Espírito Santo sobre Maria e os apóstolos para o início da Igreja. A Igreja que foi pensada e idealizada por Deus Pai no Antigo Testamento, foi gestada por Jesus Cristo, e agora nasce em Pentecostes. O Espírito Santo é Deus, ele é eterno, com o Pai e o Filho. Ele já havia se revelado no Antigo Testamento. Só que o povo de Israel não estava preparado para a revelação das três pessoas divinas. Na vida terrena de Jesus Cristo, o Espirito Santo acompanhou-o desde a encarnação, o batismo, os milagres, até a morte e a ressureição.

 

JA – A Santíssima Trindade é uma pessoa?

Padre Vitor – A Santíssima Trindade é um só Deus em três pessoas. A primeira é o Pai, a segunda é o Filho e a terceira é o Espírito Santo. Três pessoas distintas em um só Deus. É difícil de explicar, por isso que chamamos de mistério da Santíssima Trindade. A gente mais entende com o coração do que com a inteligência. E só compreende alguma coisa com a inteligência, quanto mais se vive com o coração.

JA – O Espírito Santo é fruto do amor de Deus?

Padre Vitor – O Espírito Santo é o amor de Deus. É o amor do Pai e do Filho derramado sobre nós. Quanto mais a gente reconhece a presença do Espírito Santo, mais recebemos os frutos do Espírito Santo.

 

JA – Qual é a relação de Maria com o Espírito Santo?

Padre Vitor – A teologia da Igreja diz que depois de Jesus, Maria é o ser humano que mais perfeitamente acolheu o Espírito Santo. Por isso que ela é chamada de sacrário do Espírito. Também se diz que Maria é filha de Deus Pai, mãe de Deus Filho e esposa do Espírito Santo. De qualquer maneira, ela foi quem melhor acolheu o Espírito a ponto de, por obra dele, conceber Jesus Cristo. Também com ela presente no Cenáculo veio o Espírito sobre os apóstolos e a Igreja. Ela esteve presente no início da vida de Jesus e da Igreja.

 

JA – No Concílio Vaticano II, a palavra Espírito Santo aparece 258 vezes. De que forma o Espírito conduziu este encontro?

Padre Vitor – O Papa Beato Paulo VI chegou a dizer que o Concílio Vaticano II foi o Pentecostes do Século XX. O Espírito Santo foi quem inspirou o Papa São João XXIII para convocar o Concílio e Paulo VI para continuar e fazê-lo acontecer. Tanto que depois do evento conciliar surgiram muitos movimentos, espiritualidades e teologias. Enfim, muita efervescência espiritual.

 

JA – Cite algumas das ações do Espírito Santo na criação e na história da Igreja.

Padre Vitor – É pelo Espírito Santo que todas as coisas existem. Em Gênesis 1,2 está escrito: “o Espírito pairava sobre as águas para que delas surgisse a vida”. Normalmente dizemos que Deus Pai é o criador, mas na verdade a Santíssima Trindade é quem cria. Deus Pai cria por meio do Filho, que é a Palavra, e pelo Espírito Santo, que é o sopro criador de Deus. É pelo Espírito que existem na história movimentos sociais e políticos, pela paz, promoção e defesa da vida. É ele quem suscita líderes, chefes, pessoas que são mulheres e homens de Deus, ou seja, que hajam pelo bem, pela paz, pela justiça e solidariedade.

Matéria publicada no Jornal da Arquidiocese, páginas 06 e 07, edição de junho de 2017

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